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Trotsky em São Paulo, 1980

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

Foi emocionante, arrebatador, inesquecível. Gritávamos, a plenos pulmões, como tínhamos aprendido no verso de Maiakovsky: “Aqui estão os soldados de Leon”, com lágrimas nos olhos.

Em 1980, pela primeira vez, a minha geração conseguiu fazer uma homenagem pública a Leon Trotsky, por iniciativa conjunta da Convergência Socialista e da Organização Socialista Internacionalista (O Trabalho). Então, quarenta anos do seu assassinato, hoje oitenta.

Foi um Ato no sindicato dos Químicos. São Paulo nunca tinha visto tantos trotskistas juntos. Nem nós. Não havia espaço para ninguém se mexer na sala, e muitas centenas do lado de fora. Foi vibrante, intenso, quase solene. Na Nicarágua e Irã, El Salvador e Polônia, sopravam ventos revolucionários. E nós estávamos convencidos que o fim da ditadura estava no horizonte, depois das greves do ABC, de professores e bancários, petroleiros e jornalistas, e o movimento estudantil explodindo. Foi aguerrido, apaixonante e bonito.

Na mesa, os veteranos, como Fúlvio Abramo, Hermínio Sachetta, e José Maria Crispim, e representantes das duas organizações que se construíram na luta contra a ditadura, Vito Letizia e eu. No meu caso, a decisão era injusta, totalmente, porque só tinha voltado ao Brasil em 1978, ainda um moleque de 21 anos. Mas tinha reputação de ser orador, porque vinha das trincheiras da revolução portuguesa, e os quadros mais provados tinham se forjado na clandestinidade. Foi assim. Audácia, confiança e coragem.

No dia 21 de agosto de 1940, Leon Trotsky foi assassinado por Ramon Mercader, um oficial da espionagem soviética, catalão de nascimento, por ordem de Josef Stalin. Depois de iniciada a Segunda Guerra Mundial, Trotsky era consciente que estava marcado para morrer. Mercader tinha se infiltrado no círculo íntimo de Trotsky e teve acesso à casa, no bairro de Coyoacán, na Cidade do Mexico, onde estava exilado.

O crime foi, especialmente, brutal: Mercader usou um quebrador de gelo, uma mini-picareta para golpear a cabeça de Trotsky. Tinha 60 anos ao morrer. Um dos melhores romances do século XXI, O homem que amava os cachorros do cubano Leonardo Padura, se inspirou nessa tragédia política para nos emocionar com tudo que há de mais elevado, mas também, mais sinistro na condição humana.

Até hoje, Leon Trotsky não foi reabilitado, politicamente, na Rússia. Nem depois do discurso de Krushev sobre os crimes de Stalin em 1956, nem depois do discurso de Gorbatchev em 1985, nem depois da restauração com Ieltsin, e menos ainda com Putin. Trotsky continua condenado, banido, eliminado da história da revolução.

Não fosse o bastante, uma recente série de televisão feita na Rússia, de inspiração de extrema-direita, que sataniza a revolução russa como um golpe de Estado, distribuída por uma plataforma de streaming, falsifica a história de forma grosseira e vulgar, caluniando Trotsky como um maníaco sedento de poder. Não podia ser mais monstruosa.

Trotsky tinha nascido na cidade de Ianovka, no sul da Ucrânia, no dia 7 de novembro de 1879, o mesmo dia em que triunfou a revolução de Outubro, no calendário juliano, que ainda vigorava na Rússia. Mas Trotsky era um cidadão do mundo. Uniu muito jovem sua vida à causa do socialismo. Foi estudar em Odessa, foi preso e desterrado para a Sibéria duas vezes, morou em Londres, Viena, Paris, Berlim, além de São Petersburgo e Moscou, além de exílios em Istambul, Oslo, e no Mexico. Lia e falava ucraniano, russo, francês, alemão e inglês. Era russo e judeu, mas era, sobretudo, um internacionalista.

Trotsky foi um dos mais poderosos oradores da esquerda europeia, e presidente do soviet de Petrogrado. Foi um pensador marxista original e sofisticado: desenvolveu a teoria da revolução permanente; escreveu um dos melhores livros de história marxista, História da revolução russa; elaborou uma complexa teoria sobre a natureza do Estado Soviético em A revolução traída; deixou como legado o Programa de transição, uma obra prima de método sobre a formulação do programa para a esquerda.

Mas, sobretudo, Trotsky foi o militante internacionalista que deixou pelo seu exemplo heroico o legado de uma bandeira revolucionária sem manchas para os socialistas do século XX. Por ela, entregou a vida. No ano passado, nas ruas de Santiago do Chile, nas jornadas da Argélia, e hoje nas passeatas contra o racismo nos EUA, nas greves da fábricas de Minsk, e na resistência a Bolsonaro no Brasil, em cada luta contra a injustiça e tirania, Trotsky vive. Até o fim.

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leon trotsky