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Maya, a testemunha fiel de Leon

“Não tem melhor psicólogo que um cachorro que lambe o seu rosto”

Abel Ribeiro*, de Florianópolis, SC
Trotsky está de pé, com um cachorro preso por uma corda. ele olha em direção a câmera. e segura uma pedaço de madeira. Ao fundo, uma casa.

Trotsky, em 1934

Em janeiro de 1928 Trotsky é deportado a mando de Josef Stalin para Alma-Ata no Cazaquistão, cidade nos confins da Rússia, quase na fronteira com a China. Após uma longa luta política interna no partido, Trotsky é expulso em dezembro de 1927 e obrigado a se retirar do país. Encaminhado ao exilio, foi escoltado por uma operação comandada pela GPU (Polícia Secreta da União Soviética), com agentes e oficiais que conduziram a família Sedov. Uma vigilância férrea e desproporcional, afinal, era conduzido nada menos que o ex-dirigente do exército vermelho e uma das mentes mais brilhantes da revolução ao lado de Lenin e outros bolcheviques.

Era um momento de incerteza, vexame e crueldade, que mais tarde irá desembocar nos Processos de Moscou (1928 a 1938). Mesmo assim, Leon seguiu no rumo do exílio acreditando em dias melhores. Foram também o filho Liova e duas companheiras sem as quais seria impossível suportar a estadia no exílio: Natália Sedova, revolucionária de todas as horas, e Maya, sua amável cadela tão bem mencionada no romance “O homem que amava os cachorros”, de Leonardo Padura. Na bagagem não faltaram livros e documentos de extrema importância histórica.

O primeiro local onde se abrigaram era demasiado pequeno e localizava-se numa área inóspita da cidade. Naquele inverno de temperaturas com menos de 30 graus abaixo de zero, Leon pensava no seu futuro e no de sua família, preocupado se os manteriam vivos por muito tempo. Já vinha sentindo tremores no corpo e abalos que o preocupariam e colocavam em risco sua saúde. Com o frio intenso chegou a pensar que sua morte poderia estar próxima, mas continuava sempre destemido e perseverante, acreditando que dias melhores estariam por vir.

A política de Stalin era aniquilar da história todo o legado deixado pelo segundo personagem de maior envergadura da revolução de outubro, particularmente a sua produção intelectual, impedida de circular e se publicar após sua partida para o exílio. Padura (2015) narra esse acontecimento mostrando e voracidade dos burocratas do Kremlin quando se tratava de eliminar a história do espírito de Leon.

Mas enquanto não acontecia o que desejavam, seus adversários dedicaram-se a liquidá-lo da história e da memória, que também se tinham tornado propriedade do Partido. A edição de seus livros, justamente quando chegava ao vigésimo primeiro, tinha sido suspensa, ao mesmo tempo em que se efetuava uma operação de recolhimento de exemplares em livrarias e bibliotecas (p.41).

Nesse período ele tomara conhecimento do que sobrara da Oposição que ele tinha liderado desde 1923. Havia sido praticamente liquidada, mas não perdia a “convicção de que todos os sacrifícios eram necessários” e valeram a pena. Por isso, Josef Stalin sagazmente manteve a vigilância de Leon para não deixar nenhum espaço à conspiração contra seu governo, assim foi definida e pensada a deportação encabeçada pelo oficial Igor Dreitser, chefe do grupo de vigilância da GPU. O fundamental era acompanhar Trotsky e se certificar de que ele estava isolado da vida política.

A preocupação de Stalin era tão grande que as ordens eram de impedir qualquer ruído ou ação suspeita. Certo dia, “para tornar mais patente seu controle, o agente decretara a proibição de que Liev Davidovitch e seu filho Liev Sedov saíssem para caçar, sabendo que, com aquelas nevascas, a caça era impossível” (PADURA, 2015, p. 42 e 43). Ou seja, os passos do “homem que amava os cachorros” eram vigiados a ferro e fogo.

Em 20 de janeiro de 1929, depois de um ano confinado em Alma-Ata ao lado de Natalia, “deitado num catre ruidoso”, Leon levanta-se calmamente para não acorda-la e “tentando não mover o colhão, acabou por se levantar. De imediato sentiu nos joelhos a pressão do focinho de Maya. A cadela dava-lhe bom dia, e ele acariciou suas orelhas, encontrando nelas calor e uma reconfortante noção da realidade” Padura (2015, p. 40, 41). Era uma sincera companhia matinal, na qual o revolucionário russo sentia conforto leal. Nesse fatídico dia ele foi notificado pela GPU, através de documento entregue por Igor Dreitser sob a acusação de estar construindo um “partido clandestino”, deixando-o abatido e ao mesmo tempo indignado com tamanha falsificação. Diante do suspense sobre os rumos de sua vida nesse momento difícil, eis que surge novamente ela, numa manhã gelada, Maya, seu apoio moral, “tomaram o café da manhã em silêncio e, como sempre, Liev Davidovitch foi dando a Maya umas migalhas de pão untado com a manteiga rançosa que lhes serviam”. Padura (2015, p. 44, 45)

Ninguém gostaria de passar pelas agruras que Leon viveu no ano de 1928, marcadamente um ano complicado. Em julho, havia recebido a notícia de que Nina, filha do primeiro casamento com Alexandra Sokolovskaia, havia adoecido dos nervos e diagnosticada com tuberculose aguda, o que deixaria seu sofrido espírito mais triste ainda. (1) Depois de sua deportação, Zinaida, sua outra filha do primeiro casamento, mãe de Estebam Volkov, teve a saúde alterada em função da deportação do pai.

O segundo destino do exílio foi Prínkipo, na Turquia. No período que precede a longa viagem, Leon trata com cuidado e carinho os livros e documentos importantes que ele guardava e no qual possuía um valor histórico incomensurável. Mais uma vez, no instante de arrumação das malas e antes de apanhar o ônibus, lá estava Maya, como sempre, a mascote e amiga inseparável.

Seguido por sua cadela, Liev Davidovitch regressou ao quarto, onde já começara a preparar as caixas para colocar os papéis a que foram reduzidos seus pertences, mas que para ele valiam tanto ou mais que a própria vida: ensaios, comunicados, relatórios de guerra e tratados de paz que alteravam o destino do mundo, mas, sobretudo, centenas, milhares de cartas, assinadas por Lenin, Plekhanov, Rosa Luxemburgo e tantos outros bolcheviques, mencheviques e socialistas revolucionários entre os quais tinha vivido e lutado desde que, ainda adolescente, fundara a romântica União dos Operários do Sul da Rússia, com a ideia peregrina de derrotar o czar. (PADURA, 2015, p. 45)

A beleza desse amor e amizade verdadeiros entre Trotsky e Maya ganha um capítulo particular exatamente no momento da partida e dos preparativos, quando o oficial tenta barrar a ida da cadela amada. Padura descreve assim: “Foi então que Dreitser, querendo novamente demonstrar seu poder, disse a Liev Davidovitch que a cadela Maya não poderia viajar com eles”. Leon ficou indignado e disse-lhe que “Maya fazia parte da família, ou ia com ele, ou não ia ninguém”. Fora a primeira vez que ele discutira duramente com o oficial e nessa disputa saiu vencedor. Depois de alguns minutos para sua felicidade, “o policial, aproveitando a porta que o outro lhe abria, decidiu, tratando de demonstrar quem detinha o poder, que podiam levar o animal, mas que eles próprios teriam de se encarregar de limpar a merda do cachorro”. Padura (2015, p. 46)

Se Maya falasse, com certeza agradeceria com palavras doces de gratidão o benefício que Trotsky lhe fizera, os dois levavam consigo uma reciprocidade amorosa de peso igual, onde ele se dirigia, ela o acompanhava como uma filha pegajosa que não larga o pai para nada. Limpar a merda de Maya era o que menos importava para a família Sedov e o amante de cachorros. As viagens eram longas, desgastantes e exigiam uma paciência hercúlea. Os dias incertos exigiam a presença das pessoas, carinho, afeto e uma boa dose de abnegação e devoção à causa revolucionária.

Nesses oitenta anos da morte de Leon Trotsky, fato tão covarde e brutal, deixar um espaço para Maya tem um valor histórico e sentimental. Esse grande homem não amava só cachorros, mas, sobretudo a humanidade. Dedicou até nos momentos limítrofes da agudeza de sua tristeza o amor pela causa do socialismo, suportou as dores de todo tipo, do assassinato dos camaradas a perda de seus entes queridos. E ela, Maya, esteve ali, colada no desígnio do seu dono. Este animal mais doméstico e humanizado que existe, testemunhou a dor, a tristeza e a grandeza de Leon Trotsky, conviveu nos momentos mais ásperos da vida do teórico da revolução permanente.

O Love pet revolucionário entre os amigos Leon e Maya deixou marcas grandes. Padura foi capaz de perceber esse intimismo profundo entre humano e animal no “O homem que amava os cachorros”, combinado, junto e misturado com revolução, paixão, amor e fidelidade, tão necessários a qualquer transformação social.

Viva a revolução socialista!!!
Viva a humanização da revolução!!!

*Sociólogo, professor e militante da Resistência/PSOL.

 

Referências

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. 2. Ed. Boitempo. São Paulo: 2015

TROTSKI, Leon. “O suicídio de minha filha”. Disponível em: https://www.esquerdadiario.com.br/Trotski-O-suicidio-de-minha-filha

50 frases de cachorro para você demonstrar o seu amor pelos animais. Disponível em: https://www.42frases.com.br/frases-de-cachorro/

 

NOTAS

1 – “Em 1928, minha filha menor Nina [Nevelson], cujo marido foi encarcerado por Stalin há 5 anos e ainda se encontra incomunicável, teve que ser hospitalizada, pouco depois que eu fui exilado em Alma-Ata. Foi diagnosticada com tuberculose aguda. Ela me enviou uma carta puramente pessoal, sem sequer a menor menção a questões políticas; os senhores a detiveram durante sessenta e três dias, de modo que quando lhe chegou minha resposta, ela já havia morrido. Tinha vinte e seis anos". Trotsky: “O suicídio de minha filha”. Disponível em
https://www.esquerdadiario.com.br/Trotski-O-suicidio-de-minha-filha

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