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BRASIL

Com a maioria, na humildade: um perfil de Alexis ‘Pedrão’

Henrique Maynart
Fernando Correia

“Sei que vai chegar o dia
Em que tudo mudará
O alimento não faltará jamais
E a moradia sobrará”

Edson Gomes. Guerreiro do Terceiro Mundo

 

Alexis Magnum é nome grego. “O grande homem que se defende”. O nome escolhido na quebradeira de 1986 pelos pais professores – os primeiros da família a chegar à universidade – também se deu por começar com a letra A, “para responder logo a chamada na sala de aula e ir brincar”. Então estejam de sobreaviso: se o pré-candidato à Prefeitura de Aracaju pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) for o primeiro nas chamadas de debates e entrevistas, já sabemos de quem é a culpa.

Apesar do empenho na escolha do nome, boa parte das bibocas de Aracaju o conhece apenas como Alexis “Pedrão”, apelido que brotou da “resenha” da “galera big” da Coroa do Meio, bairro onde vive desde 1994 dentre idas e vindas.

Aracajuano de Feira de Santana (BA), ele só desembarcou na capital sergipana com um ano de idade. “Minha mãe tinha acabado de se formar em Pedagogia na UFS, estava desempregada e voltou para a casa de minha vó em Feira. Desempregada, não poderia criar o filho em Aracaju.” Devidamente assentados na cidade, ele e a irmã mais nova tiveram uma infância conturbada entre os empregos precarizados dos pais, fazendo feira na “xepa” pra caber no orçamento, antes dos concursos públicos na Educação e alguma estabilidade financeira. Primeiro nas redes municipal e estadual, depois na UFS e no IFS.

Primeiros anos de vida entre Aracaju e Feira de Santana

“Perdi a conta de quantas vezes nos mudamos com dificuldade de pagar aluguel. Lembro de várias madrugadas quando criança, ver meus pais carregando caixas e mais caixas de mudança enquanto eu ficava sentado quietinho, olhando junto com minha irmã… Lembro quando minha mãe chorou pela primeira vez, porque havia conseguido comprar um sofá. Foi uma cena inesquecível para uma criança, mas a dificuldade não impediu o amor.”

BACULEJOS DE ARACAJU

Do nome grego restou o significado para toda a vida: do alto dos seus quase 1.90 m de altura, Alexis seguiu se defendendo, assim como todo jovem negro em Aracaju não só pode, como deve estar atento aos “baculejos” da cidade.

“Comecei a andar de ônibus com 10 anos, tirei a carteira de identidade e andava sempre com ela. O primeiro “baculejo” que tomei foi aos 12 anos nas ruas do centro, próximo ao supermercado G Barbosa… O pior de todos foi próximo à Ponte do Shopping Riomar, quando a polícia colocou a arma em minha cabeça…Nesse dia pensei que ia morrer.” No Brasil a cada 23 minutos morre um jovem negro, de acordo com a Organização das Nações Unidas. O extermínio e o encarceramento são a faca amolada do “progresso” do lado de lá.

Militância nos atos contra o aumento da passagem

DEFESA EM BANDO

E foi para seguir se defendendo que ele passou a se engajar nos movimentos sociais da cidade. “Comecei a perceber as coisas de outra forma. Perdi a timidez, aprendi a falar em público.” Passou a construir os coletivos de juventude na luta contra o aumento do transporte, com o Movimento Não Pago, além do movimento estudantil da Universidade Federal de Sergipe (UFS), onde cursou o bacharelado em Direito.

A partir do contato nos movimentos de juventude ele conheceu o PSOL, ingressando no partido em 2008. “O movimento social é uma escola, mas percebi que o partido também ajudava a formar as pessoas… O PT se tornou governo e começou a fazer reformas contra os trabalhadores, como a Reforma da Previdência… As pessoas que atuavam comigo nesses movimentos, várias delas eram filiadas ao PSOL.”

Pilotando o fogão na merenda escolar, com a juventude da Escola Estadual Alceu Amoroso Lima, no bairro Santa Tereza

Candidato a deputado estadual e vereador em 2010 e 2012, respectivamente, ele seguiu na construção do partido e dos movimentos sociais, sobretudo no movimento negro. Entre os anos de 2009 e 2014, ele pilotou o fogão da Escola Estadual Alceu Amoroso, no bairro Santa Tereza, Zona de Expansão. “Nunca fui tão respeitado na vida como fui na escola,  na época de merendeiroTrabalhei como servidor público durante cinco anos em Sergipe e recebia menos de um salário mínimo durante o governo Deda. Uma vergonha. Fora isso, tenho muita saudade do chão da escola pública”. Mestre e doutorando em Educação, ele segue ministrando suas aulas com todas as precariedades que a pandemia pode proporcionar.

ORGANIZAÇÃO QUE VEM DE CASA

Casado desde 2011 com Hortência Marques, militante do PSOL e fisioterapeuta, eles se dividem como podem no cuidado com as avós e as quatro crianças, além da militância comum. “Hortência trabalha em dois hospitais, é serviço essencial. Para que ela possa trabalhar, fico em casa com as crianças e as tarefas domésticas. Quando é a minha vez de trabalhar, ela fica com a casa e as tarefas.”

Militando em família

Filho do professor Carlos Alberto “Naput” e da professora Sônia Meire, que também é sua companheira de partido, a relação entre a militância e os laços familiares passa longe do patrimonialismo que enxergamos nos partidos tradicionais.

“Para ter uma relação patrimonialista, é preciso ter patrimônio (risos)… Sonia se filiou quase seis anos depois, eu já era filiado… Eu tenho muito orgulho de ser filho de Sonia Meire e muito do que sei sobre política, sobre ser uma pessoa de caráter devo a ela e ao saudoso professor Naput.” Mas além da correria, o povo não abre mão de “tirar um tempo para ficarmos todos juntos, tomar uma cervejinha, comer um tira gosto, assar uma carne e bater um papo.”

ENTRE A PANDEMIA E A ELEIÇÃO EM TEMPOS DE BOLSONARO

 “O voto é importante, mas a prioridade é estar vivo”. Escolhido pré-candidato à Prefeitura de Aracaju pelo PSOL no início de julho, ele confessa que este é o pior momento organizar uma eleição.  “Como abraçar as pessoas, fazer reuniões nos bairros e comícios se precisamos de isolamento social? Foi importante o adiamento, mas se as condições sanitárias não permitirem é melhor que se adie um pouco mais.”

Alexis ressalta a necessidade de uma esquerda enraizada na vida das pessoas. “Não é só uma questão de discurso, é de correr junto.” Crítico dos governos de Edvaldo Nogueira (PDT) e Belivaldo Chagas (PSD), ele não perde o foco no inimigo central um momento sequer: pau em Bolsonaro e pé na tábua.

“É difícil para qualquer gestor atuar na pandemia tendo a frente do Brasil o genocida Bolsonaro. Mas aqui poderíamos estar em outra situação. Belivaldo e Edvaldo começaram bem, mas como é de praxe, cederam à pressão dos grandes empresários e Sergipe foi notícia nacional como um dos epicentros do Coronavírus no Nordeste. Poderíamos ter uma renda emergencial em Aracaju, por exemplo, como várias capitais estão fazendo. Não adianta só pedir pra ficar em casa. Tem que dar o exemplo e as condições.”

Plenária do PSOL embaixo da Ponte Aracaju-Barra dos Coqueiros, em 2016. 2- Abertura do Congresso dos Petroleiros e Petroleiras de Sergipe e Alagoas

DA “NOVA POLÍTICA” À “NOVA OPOSIÇÃO”

Entre a aproximação do senador Alessandro Vieira (Rede) e o ex-senador Eduardo Amorim (PSDB), para Alexis isso já era esperado. “Essa turma com o discurso da “nova política” não engana ninguém. Depois de ajudar a eleger Bolsonaro, o que se poderia esperar de Alessandro senão juntar-se à velha política sergipana? Com o discurso anticorrupção e um programa de privatização, vão tentar emplacar a delegada Danielle em Aracaju. O povo de Aracaju está de olho e não vai esquecer quem ajudou a eleger a tragédia do Bolsonaro para Presidência do Brasil.”

Sobre a candidatura de Márcio Macedo (PT), lamento e dúvidas. “Lamento que o campo de esquerda anti-bolsonarista esteja dividido nessa eleição. Mas acredito que o jogo duplo do PT em ser oposição recente a Edvaldo e continuar no governo Belivaldo, não passa confiança para as pessoas.”

NO “MIUDINHO” EM DIREÇÃO À MAIORIA

Clautênis, Marielle, Agatha, João Victor. Alguns podem até torcer o nariz, mas a maioria nem sempre silenciosa que carrega este país nas costas tem classe, gênero, sexualidade, cor e CEP. Para que esta maioria tenha direito à vida, trabalho e dignidade, uma pré-candidatura “só tem sentido se vier combinada com a agenda de luta pelo desencarceramento, pelo fim do extermínio da população negra e por uma educação antirracista neste país.”

Recém-nascido, nos braços do pai, Carlos Alberto “Naput”

Qualquer um que compreende suas raízes tem o dever de frutificar. Sujeitas e sujeitos coletivos frutificam, polinizam, se espalham território adentro, ganham corpo pela cidade que precisa, sim, ter os seus cuidados. Para regar uma Aracaju da maioria, há de se caminhar com um pé atrás do outro, na humildade, sem rabo preso com o trio que quer ter a cidade nas mãos:  as construtoras, empresas de ônibus e de resíduos sólidos

“O PSOL precisa ouvir a população em relação a todas as questões da cidade. Precisamos resistir à logica desigual do poder econômico e mobilizar as pessoas pelas ideias, tanto nas redes sociais quanto no trabalho de convencimento, no “miudinho”.”

Seguir se defendendo não é tarefa solitária.  Para fazer jus ao significado do nome grego em flagrante desuso – com exceção de alguns familiares e da avó Berenice, que tem o privilégio de chamar um sujeito de 1.90m de “Magninho” – o filho de Sônia e Naput se propõe a caminhar em bando, correndo trecho por uma Aracaju da maioria. Guiando sobre a terra e vivendo sob o sol. Estrada dada, tarefa cumprida.