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Manifesto por uma comunicação antirracista

Questionar a hegemonia e fortalecer um futuro antirracista

Politiza

Jovem e mãe, Iza Lourença é feminista negra marxista. Iza tem 26 anos, trabalha no metrô de Belo Horizonte e coordena o projeto Consciência Barreiro – um cursinho popular na região onde mora. É ativista do movimento anticapitalista Afronte e do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Por: Iza Lourença, Josué Gomes e Roju Soares*

As políticas afirmativas no ensino superior, como as cotas raciais, foram fundamentais para formar mais profissionais e intelectuais negros, que alcançam visibilidade e furam a bolha hegemônica. Pela primeira vez, somos maioria nas universidades públicas. Mas quantos de nós conseguimos condições de permanecer na universidade e completar os estudos? E depois de formados, quantos de nós conseguem seguir no mercado de trabalho?

É necessário que tenhamos movimentações institucionais. Que governantes ampliem as políticas de permanência estudantil e mobilizem políticas direcionadas às empresas, para que o mercado não perpetue uma exclusão sistêmica. Além disso, entender os movimentos sociais de ontem e hoje, ligados a luta contra o racismo, o machismo, a LGBTfobia e Pessoas Com Deficiência deve ser considerada uma necessidade básica dos currículos dos cursos de Comunicação.

Ação afirmativa também é se posicionar politicamente em uma perspectiva antirracista! E essa tarefa não é apenas dos negros e negras, mas de todas aquelas e aqueles que acreditam em uma mudança estrutural da sociedade. Somos as sementes de Machado de Assis, Luiz Gama, Milton Santos, Abdias Nascimento, Lélia Gonzalez, Amilton Cardoso, Sueli Carneiro, Conceição Evaristo, Silvio de Almeida e demais intelectuais negros e negras. Nos representa Glória Maria, Maria Júlia Coutinho, Luciana Barreto, Aline Aguiar, Tabata Poline, Gabi Coelho e outras jornalistas negras. Não basta ocuparmos os espaços só para debater sobre o racismo. Nós discutimos as mais diversas questões sociais, econômicas, culturais, educacionais.

O mito da democracia racial e da imparcialidade do jornalismo

Precisamos debater profundamente uma concepção de comunicação que seja consequente com a característica estrutural do racismo na nossa sociedade. No Brasil, disputamos com a concepção hegemônica de que vivemos em uma democracia racial.

Este termo define a complexidade de como o racismo opera em uma sociedade que por um lado não superou a lógica escravagista e, ao mesmo tempo, tem a população negra como maioria. O mito da democracia racial é a combinação do apagamento da identidade negra e do reforço da ideologia de que “somos todos iguais” e que “minha cor é o Brasil”. Ou seja, enquanto existe uma opressão racista brutal e secular, querem nos fazer acreditar que temos oportunidades iguais, na lógica meritocrática.

Midiaticamente, isso se concretiza de diversas formas. Comumente vemos chamar de “confronto” a ação da polícia nas favelas, mas é preciso falar a verdade: o que acontece no Brasil é um genocídio da nossa juventude, é a negação de direitos e superexploração do povo negro. Precisamos falar da herança escravocrata que produz tragédias na vida das nossas famílias, como aconteceu com Miguel, de apenas 5 anos, em Pernambuco. Precisamos falar também dessa lógica perversa que reitera que mulheres negras sejam reduzidas aos serviços de cuidado e da reprodução social, sem nenhum direito.

Para tratar desses temas, no Jornalismo temos um problema que também serve de exemplo para as Relações Públicas, à Publicidade, ao Audiovisual e ao Cinema. Temos uma discussão antiga que ainda gera polêmica dentro das inúmeras redações: o mito da imparcialidade. Trazido por heranças liberais e positivistas, esse mito de que as produções do jornalismo precisam ser, e são, isentas de posicionamentos políticos, filosóficos ou quaisquer que sejam as polarizações, persiste em nosso tempo.

Isso faz também com que o jornalismo tradicional corrobore para a ideia de que um profissional “padrão ouro” é aquele que é capaz de sustentar tal imparcialidade. Contudo, nosso lugar neste manifesto é chamar atenção para o fato de que o Brasil é um país que sobreviveu a quase 400 anos de escravidão e há mais de 130 anos  persiste a marginalização dos corpos negros. Portanto, o que é considerado “padrão” parte dos referenciais das pessoas que sempre estiveram nas posições de poder, ou seja, pessoas brancas – que reproduzem uma concepção de normalização da branquitude como representação e padrão idealizado.

Assumir que a imparcialidade total é um mito é o primeiro passo para entendermos que se não partimos da construção de reportagens, filmes, propagandas, redações e sets de filmagem que busquem a pluriversidade, estamos tomando uma posição desde o princípio: a posição da manutenção das desigualdades. Devemos buscar fomentar a pluralidade em suas mais diversas expressões, sejam elas: os corpos racializados e as etnias; as orientações sexuais e de gênero ou pessoas com deficiência. É importante buscar sempre ações e olhares para as pessoas que não estão em posições hegemônicas.

Isso não quer dizer que pessoas que hoje estão no padrão privilegiado na sociedade, não possam falar sobre as desigualdades raciais e de gênero, por exemplo. Pelo contrário, estamos aqui para dizer à essas pessoas que é sua obrigação falar sobre o outro, entendendo o que te difere. Falar através da sua perspectiva é buscar de fato dar legitimidade às vozes que são desprivilegiadas. Por isso, faça a sua parte para conseguir mostrar de sua entrevistada, atriz, locutora ou da sua fonte a potência que ela possui.

Pautamos o racismo, mas o racismo não nos pauta 

É importante ter atenção à concepção que nos resume ao lugar de dor. A construção das nossas identidades são feitas em cima da violência, do crime e da pobreza. Essa concepção, somada a falta de representatividade de pessoas negras nos espaços públicos da comunicação, reflete a pouca cobertura sobre a realidade dos nossos, que estão nas periferias organizando cultura, arte e educação popular. Isso é cruel, porque promove o constante apagamento da nossa história e, assim, reforça a dificuldade de nos reconhecer enquanto negras e negros.

Diante disso, é fundamental que a comunicação perceba a emergência de pautar o que são as reflexões, perspectivas, histórias, experiências e resistências das populações negras. Quantas pessoas negras vemos em entrevistas sobre temas diversos? Quantas pessoas negras interpretando papéis diversos? Uma comunicação que se pauta por uma abordagem antirracista, reflete o que são as lutas e expressões da população negra em sua plenitude. Negros e negras não falam só de dor! Nossa maioria está inserida em diferentes movimentações sociais e exigimos credibilidade ao falar. 

Somos a maioria!

 

*Iza Lourença, graduada em jornalismo pela UFMG, bilheteira do metrô de BH, Colunista do portal esquerda online e produtora de conteúdo no canal Afronte, ideias para os 99%. 

*Rojú Soares, graduando em Ciências do Estado e produtor de conteúdo no canal Dialético. 

*Josué Gomes, estudante de jornalismo na UFMG, pesquisador do Afrofuturismo, estagia na área de Programação da Globo em BH, é secretário na ONG Internet Sem Fronteiras e compõe o coletivo de jornalistas negros Lena Santos.