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Integralismo, Fascismo Internacional e II Guerra Mundial

Gilberto Calil

Manifestação integralista e no destaque Plínio Salgado, dirigente do movimento.

Fundado em 1932 pelo escritor e jornalista Plínio Salgado, o integralismo foi o mais importante movimento fascista brasileiro do século XX. Sua fase mais conhecida, entre 1932 e 1937, corresponde ao período de existência da Ação Integralista Brasileira, que chegou a reunir em torno de 500.000 adeptos em uma organização tipicamente fascista, marcada por rígida disciplina, uso de uniforme (“camisa-verde”), pela saudação “Anauê” e pelo lema “Deus, Pátria e Família”. Como expressão nacional do fascismo, tinha sua ideologia baseada no anticomunismo, antiliberalismo e defesa do que apontava como sendo os valores pátrios e tradicionais.

A proibição da AIB em dezembro de 1937, logo após a decretação do Estado Novo (apoiada pelos integralistas) e a tentativa frustrada de dar um Golpe de Estado em maio de 1938 dão início a uma segunda fase, marcada pela repressão aos integralistas por Vargas, pelas tentativas de reconciliação com o­ regime varguista por parte de Salgado, e pelo seu próprio exílio em Portugal (1939-1946), desde o qual enviou uma série de manifestos em apoio à ditadura varguista.1 Esta etapa corresponde ao desenvolvimento da II Guerra Mundial, que era acompanhada por grande interesse por Salgado.

Para além do recorte que tratamos aqui, o integralismo atravessou três outras fases subsequentes: 1946-1965, quando os integralistas atuaram através do Partido de Representação Popular2; 1965-1975, quando atuaram como corrente organizada no interior da Aliança Renovadora Nacional, até a morte de Plínio Salgado; e de 1976 em diante, quando se fragmentam em diversas organizações de pouca relevância (como o PAI – Partido da Ação Integralista, nos anos 1980), ingressam em partidos políticos como o PRONA de Enéas Carneiro e o PRTB de Levy Fidélix e Hamilton Mourão, e constituem organizações pouco relevantes, como a Frente Integralista Brasileira, através da qual apoiaram a campanha de Jair Bolsonaro.

Integralismo, Fascismo e Nazismo

Durante os anos 1930, Salgado expressou inúmeras vezes sua simpatia com os fascismos europeus, em especial o italiano. Gustavo Barroso, responsável pela milícia integralista, tinha no antissemitismo um de seus principais eixos discursivos e era entusiasta do nazismo. Tendo em vista que se apresentavam como movimento nacionalista, os integralistas não podiam jamais admitir o recebimento de auxílio financeiro proveniente do exterior. No entanto, inúmeros documentos desmentem seu discurso público: desde outubro de 1936 se estabeleceu uma colaboração constante do fascismo italiano com o integralismo, incluindo o pagamento de “subvenções à AIB e a seus membros mais eminentes, fazer propaganda fascista no seio da AIB e, por fim, manter contatos frequentes com Plínio Salgado e seus colaboradores mais próximos”.3 O financiamento do integralismo pelo fascismo italiano se efetivou com o pagamento de uma subvenção mensal de 50 mil liras”.4

A relação com o fascismo italiano envolveu até mesmo a negociação visando “a entrega de armas para a preparação de um putsch integralista”.5 Em outubro de 1937, o embaixador italiano Lojacono reuniu-se com Plínio Salgado, acertando as condições de pagamento, estabelecendo “como condição que Plínio Salgado me entregue um recibo pelo dinheiro recebido”, e sendo informado que “Plínio Salgado deseja também ter competência exclusiva sobre os contatos a serem mantidos com o fascismo italiano”.6 Em outubro do mesmo ano, Lojacono “solicita a Ciano o envio de mil revólveres belgas ou tchecos, a fim de evitar armas italianas, para satisfazer o pedido integralista. Ciano então recua, alarmado pela desorganização na direção da AIB, dá-se conta de que uma entrega de armas aos integralistas o implicaria direta e gravemente em um futuro putsch integralista”.7 Pelo que demonstra a documentação, o integralismo recebeu subvenção financeira do fascismo italiano, que só deixou de ser enviada quando o Ministério das Relações Exteriores da Itália optou por uma aliança prioritária com o governo Vargas.

Já as relações estabelecidas entre o integralismo e o nazismo produziram resultados menos expressivos, pois “ao contrário do cogitado pela diplomacia italiana no Brasil, os diplomatas alemães manifestam grande reserva em relação à AIB”.8 Isto se devia, ao menos em parte, aos conflitos surgidos nas regiões coloniais entre os germanistas radicais e os integralistas, que não abriam mão de um projeto nacionalizador, ainda que em certas situações ocorresse também a colaboração entre ambos. De acordo com Seitenfus, durante todo o período de existência legal da AIB, “as relações de cúpula entre a AIB e a Alemanha nazista são apenas episódicas e marcadas por uma grande desconfiança recíproca”,9 embora Gustavo Barroso mantivesse relações sistemáticas com integrantes do governo nazista alemão e fosse entusiasta do antissemitismo nazista. Ainda de acordo com este autor, “esta realidade mudará profundamente no primeiro semestre de 1938”.10

O golpe que decretou o Estado Novo foi bem recebido pela Itália e Alemanha, que imaginavam que o integralismo seria convidado a integrar o governo. O fracasso das negociações que pretendiam levar Plínio Salgado ao Ministério da Educação e a proibição dos partidos políticos (incluída a AIB) consolidaram uma situação em um primeiro momento levou os governos alemão e italiano a uma atitude mais pragmática, afastando-se do integralismo. Conforme Seitenfus, “Ciano indaga Lojacono em 8 de janeiro [de 1938] se não é desejável ‘suspender a subvenção financeira’ concedida até o momento à AIB. Lojacono não hesita e informa a Roma ‘nas condições atuais nossa subvenção deve ser suspensa’. Assim, parece chegar a termo a difícil colaboração ítalo-integralista. Contudo, ela ressurgirá em poucos meses”.11

No entanto, este afastamento seria revertido no contexto de ingresso do Brasil na II Guerra Mundial, quando, face à posição hostil do governo brasileiro, o integralismo restava como única alternativa para intervenção na política brasileira. Neste contexto, foram retomadas as relações com o integralismo e em abril de 1942 ocorreram em Lisboa quatro reuniões de Salgado com o antigo consul italiano em São Paulo (Colpi). De acordo com o relatório de Colpi:

a) Plínio Salgado está muito interessado em participar – enquanto representante do Brasil – da futura conferência de paz que deverá ser organizada logo após a vitória militar do Eixo.

b) A ex-AIB julga ser necessário criar no Brasil, com a ajuda do Eixo, um “movimento de independência nacional”. (…)

c) Plínio Salgado coloca à disposição do Eixo “a rede de adeptos e simpatizantes nos Estados Unidos e Inglaterra”;

d) Finalmente, ele se declara apto a fornecer todas as informações de que dispõe referentes às bases militares norte-americanas instaladas no Brasil e a empreender ações militares a fim de criar “um estado de inquietação e de ameaça às bases norte-americanas”.12

Também os contatos de Salgado com os nazistas foram freqüentes: “Walter Schlemberg, chefe da contra-espionagem alemã, declara haver encontrado Plínio Salgado por várias vezes em Lisboa”. (…) A embaixada alemã em Lisboa ‘mantém através de intermediários contatos permanentes com Plínio Salgado. As intenções da Alemanha são limitadas, pois resumem a utilizar Salgado em caso de vitória militar”.13 É evidente que tais contatos foram sempre negados por Salgado e pelos integralistas, embora sua comprovação na documentação diplomática alemã e italiana seja irrefutável.

Plínio Salgado espião nazista?

O possível envolvimento de lideranças e militantes integralistas com a espionagem em favor da Itália e da Alemanha durante o período da II Guerra Mundial foi investigado pelo brasilianista Stanley Hilton, que sustenta que os integralistas atuaram como agentes do nazi-fascismo, incluindo-se o próprio Salgado:

Dentre os brasileiros havia um grupo de elementos que, de bom grado, formavam uma pequena quinta-coluna a serviço dos nazistas. Em dias anteriores haviam vestido camisas verdes – e almejavam o dia em que de novo as vestiriam publicamente para desfilar pelas ruas da capital , gritando sua fidelidade ao führer nacional. (…) Plínio Salgado, após a intentona integralista de 1938, fora exilado e encontrava-se na capital portuguesa desde então. Sua posição como líder de um movimento que exibia considerável afinidade ideológica com o nazismo – especialmente em sua ênfase sobre princípios antidemocráticos e anti-semitas e, por conseguinte, em sua animosidade para com os Estados Unidos, Inglaterra e França – naturalmente chamava a atenção dos alemães. (…) Salgado negociou esse apoio e se preocupava profundamente com a possibilidade de o arranjo um dia vir à luz. Não é de estranhar, portanto, que o führer integralista, nas últimas semanas de 1941, tenha se vendido aos nazistas, especialmente quando parecia a muitos observadores que o Terceiro Reich acabaria esmagando seus adversários.14

Salgado teria se encontrado diversas vezes com o agente nazista Schellemberg, impondo como condição “que a Alemanha o reconhecesse, por assim dizer, como o líder político do Brasil”.15 Salgado ficara responsável pelo envio de relatórios periódicos “sobre os acontecimentos no Brasil”, para o que contava com a colaboração de Raymundo Padilha. Na avaliação do agente nazista Theodor Päffgen, “os relatórios de Salgado sobre o Brasil às vezes eram bons, mas frequentemente eram defasados”.16 Por diversos meses, Salgado “continuaria sua espionagem em prol do Terceiro Reich. Ao longo de 1942 e 1943, Schellemberg e Päffgen transmitiam a Wilhelmstrasse relatórios de um de seus agentes em Lisboa – presumivelmente Plínio Salgado – sobre as bases norte-americanas no Nordeste brasileiro, a situação política no Brasil e as relações militares entre este país e os Estados Unidos”.17 Também Seitenfus apresenta um relatório de agentes alemães, confirmando o contato com Salgado:

Os membros da embaixada da Alemanha no Rio mantiveram relações oficiosas, até sua partida, com os membros mais importantes do Partido Integralista. Nossa missão em Lisboa está também em contato com Plínio Salgado graças a intermediários. Poderia ser oportuno continuar com contatos oficiosos já que os integralistas muito provavelmente poderão desempenhar, depois da guerra, um papel determinante na política brasileira. É visível que o governo italiano se inquiete com nossas relações com Plínio Salgado, como confirma o conselheiro da missão, Schlimpert, a embaixada italiana no Rio manteve relações particularmente estreitas com integralistas. (…) Portanto, é quase fora de dúvidas que em Lisboa um fio ligue Plínio Salgado aos serviços italianos. Para resumir, gostaria de defender o ponto de vista de que é oportuno que se continue a manter relações oficiosas com os integralistas e que não há motivos para temores de informar os italianos sobre isso. Deveríamos, no entanto, nos resguardar de relações muito estreitas e sobretudo deveríamos evitar despertar no Governo italiano a impressão de que desejamos utilizar os integralistas para fins de política interna brasileira.18

De fato, Salgado já mantinha adiantadas conversações com agentes italianos. O enviado especial italiano a Lisboa informava que “com Plínio Salgado tive oportunidade de ver 260 cartas que iriam ser enviadas através de Aristóbulo19 a seus destinatários em todo o Brasil (…). Aristóbulo ignorava totalmente o objetivo de minha missão em Lisboa. (…). Aristóbulo é um integralista convicto. Ao ver que eu era italiano, descreveu-me longamente, por sua própria iniciativa, as bases norte-americanas no Brasil”.20 O conjunto de informações relativas ao envolvimento de Salgado e dos integralistas na documentação diplomática é bastante claro, evidenciando os diversos contatos entre Salgado e os agentes italianos e alemães.

A derrota do nazifascismo em 1945 naturalmente obrigou Salgado e os integralistas a construírem outro discurso, refutando sua vinculação ideológica e política com os fascismos. Neste contexto, chegaram a se apresentar como “verdadeiros democratas”, defensores de um pretenso “conceito cristão de democracia”21. Naquele ano, constituíram um partido político e desde então negaram reiteradas vezes a colaboração com o nazifascismo, apropriando-se do conceito liberal de totalitarismo, segundo o qual nazismo e fascismo seriam semelhantes ao comunismo, concluindo que, portanto uma organização anticomunista como o integralismo seria necessariamente antifascista. As denúncias de colaboração, no entanto, perseguiriam os integralistas nas três décadas seguintes e os obrigariam a inúmeras estratégias de legitimação, dentro da nova perspectiva que assumiam de se colocarem como partido fascistizante, mas enquadrado na institucionalidade então vigente.

1 A relação contraditória estabelecida por Vargas com o Estado novo é discutida em CALIL, Gilberto. “Os integralistas frente ao Estado Novo: euforia, decepção e subordinação”. Locus, Juiz de Fora, v. 16, n. 1, 2010. Disponível em https://periodicos.ufjf.br/index.php/locus/article/view/20135.

2 Este período é objeto central de nossa tese de doutoramento: CALIL, Gilberto. O integralismo no processo político brasileiro: o PRP entre 1945 e 1965 – cães de guarda da ordem burguesa. Tese de Doutoramento em História. Niterói: UFF, 2005, disponível em https://marxismo21.org/wp-content/uploads/2012/08/G-Calil-tese-doutorado.pdf.

3 SEITENFUS, Ricardo. A entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Porto Alegre: Edipucrs, 2000, p. 68.

4 Idem, p. 70.

5 Idem, p. 72.

6 Correspondência de Lojacono a Ciano, 10.7.1937. Apud SEITENFUS, op. cit., p. 331-332.

7 SEITENFUS, op. cit., p. 72.

8 Idem, p. 56.

9 Idem, p. 57.

10 Idem, ibidem.

11 Idem, p.117-119.

12 Idem, p. 305.

13 Idem, p. 306.

14 HILTON, Stanley. A guerra secreta de Hitler no Brasil, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983, p. 346 e 348.

15 Depoimento de Schellemberg. Apud HILTON, A guerra secreta de Hitler no Brasil, op. cit., p. 350.

16 Depoimento de Theodor Päffnen. Apud HILTON, A guerra secreta de Hitler no Brasil, op. cit., p. 351.

17 HILTON, op. cit., p. 367.

18 Correspondência de Hiermit a Freytag, 12.6.1942. Apud SEITENFUS, op. cit., p. 354.

19 Aristóbulo Soriano de Melo, comandante do navios do Lloyd Brasilero e que atuava como mensageiro de Salgado.

20 Relatório de Colpi, enviado especial italiano a Lisboa sobre seus encontros com Plínio Salgado em 10 e 19 de abril de 1942. Apud. SEITENFUS, op. cit., p. 353.

21 Ver CALIL, 2005, p. 701-117.