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A guerra também tem cara de mulher

Genilda Souza, Rio de Janeiro (RJ)

Primeiro batalhão de mulheres negras do Exército americano

Mulheres, heroicas mulheres do povo![…] lutem ao lado dos homens para defender a vida e a liberdade de seus filhos, que o fascismo ameaça!

(Dolores Ibárruri, La Pasionaria, dirigente comunista da guerra civil espanhola, em discurso de 19/07/36).

 

O título deste artigo faz uma referência ao excelente livro da ganhadora do prêmio Nobel de Literatura de 2015, Svetlana Aleksiévitch, “A guerra não tem rosto de mulher”, sobre a participação feminina no Exército Vermelho soviético, durante a 2ª Guerra Mundial. A História contada por homens é uma narrativa no masculino. As mulheres são deixadas de modo geral à sombra da História. Quando falamos de guerras, isto se acentua ainda mais.

Fomos acostumados pelos filmes hollywoodianos a ver quase que exclusivamente homens nas frentes de batalha. Mulheres quando aparecem representam os “típicos papéis” femininos neste tipo de filme: são as enfermeiras, as donas de casa e as namoradas que esperam pacientemente a volta do soldado heroico ao lar. As duas grandes guerras mudaram definitivamente o papel entre os sexos, mesmo mantendo as relações de opressão, na medida em que as mulheres foram chamadas a ingressar no mercado de trabalho, substituindo a mão de obra masculina, já que os homens se encontravam nos campos de batalha ou foram mortos aos milhões. A guerra, por pura necessidade, acaba destruindo a divisão entre trabalho masculino e trabalho feminino. Na 2ª Guerra Mundial não foi diferente, e o papel das mulheres no mercado de trabalho e nos campos de batalha se intensificou, e nunca mais foi o mesmo.

Não temos um número preciso sobre a participação das mulheres no conflito, mas seguramente foram milhões as que assumiram diretamente a linha de produção nas fábricas, nos escritórios, nas Forças Armadas, como atiradoras, pilotos de avião, motoristas, e que serviram como médicas e enfermeiras nos campos de batalha da Europa e na ex-URSS, onde 1 milhão de mulheres se alistaram no Exército Vermelho, contribuindo para a derrota do nazismo. Para entender a importância das mulheres soviéticas na guerra, ver o artigo de Thaiz Senna, As mulheres soviéticas na 2ª Guerra: heroínas esquecidas, neste especial do Esquerda Online.

Mulheres na frente de luta

A Inglaterra foi o primeiro País a entender a necessidade das mulheres substituírem as funções masculinas em diversos setores. Em 1942, seis milhões e setecentas mil mulheres estavam envolvidas no esforço de guerra na Grã-Bretanha. O trabalho feminino passou a ser usado na construção de aviões, navios, produção de armas e outras atividades, civis ou militares.

A Força Aérea canadense chegou a contar com 50 mil mulheres, e em 1941, foi criado a Força Aérea Feminina Auxiliar do Canadá (CWAAF). O mercado de trabalho feminino no Canadá cresceu 89% durante a guerra, sendo que 32% das mulheres trabalhavam nas fábricas de armamento.

Nos Estados Unidos, além de passarem a exercer tarefas no mercado de trabalho foi formado, em 1941, nas Filipinas, o primeiro Corpo de Mulheres Guerrilheiras que lutou na Segunda Guerra Mundial, treinadas em um campo de tiro em Manila.

Os diversos movimentos de Resistência organizados em quase toda a Europa, e formado por grupos da sociedade civil para lutar contra a ocupação nazista, contou com a intensa participação de mulheres. Na Resistência francesa eram encarregadas da comunicação entre os diversos grupos e do transporte de munição de forma secreta. Na Polônia, durante a ocupação nazista elas se encarregavam de levar mensagens entre os guetos e serviram nas unidades armadas dos partisans1.

No Brasil, em 1944, 73 enfermeiras foram integradas ao Serviço de Saúde da FEB, por exigência dos Estados Unidos, sendo 61 que trabalharam nos hospitais da Itália, 6 no transporte aéreo e 6 na área administrativa da FEB, sendo que as Forças Armadas brasileiras tiveram 25 mil soldados atuando na guerra.

O feminicídio nazifascista

Na Alemanha as mulheres eram vistas como a base para a formação da raça ariana. Para isso o nazismo criou o Programa Lebensborn, centros de seleção das mulheres arianas que deveriam se casar com oficiais da SS, e assim servirem como reprodutoras da raça pura. Qualquer semelhança com a série The Handmaid´s Tale, não é mera coincidência. A capacidade feminina de procriar era recompensada com cruzes, a semelhança das medalhas olímpicas: as que tiveram de 4 a 5 filhos receberam uma cruz de bronze; de 6 a 7 filhos uma cruz de prata; com 8 ou mais filhos a mulher recebia uma cruz de ouro do próprio Adolf Hitler! Esta macabra competição ilustra bem o papel das mulheres para o regime nazista. Elas eram consideradas esposas e mães, a quem cabia à função reprodutiva para o bem do Estado e a purificação da raça ariana. As mulheres alemãs só foram participar diretamente da guerra, em funções de combate, quando Berlim estava sendo ameaçada pelo Exército Vermelho. Com a derrota do nazismo a mulher alemã passou a ser violentada sistematicamente como uma forma “aceitável” da vitória dos exércitos aliados e soviético.

O regime nazista perseguia homens e mulheres. No entanto, submetia as mulheres judiais e não judias a brutais perseguições, que na maioria das vezes estava relacionada apenas ao sexo das vítimas. Nos campos de concentração havia espaços destinados apenas às mulheres, e em 1939 a SS inaugurou o campo de concentração Ravensbrück, exclusivo para mulheres, onde foram feitas mais de 100.000 prisioneiras.

As mulheres grávidas e com crianças de colo eram classificadas como “incapacitadas para o trabalho”, e eram as primeiras a serem mortas nos campos de concentração. As mulheres ciganas foram exterminadas em Auschwitz; aquelas portadoras de deficiências físicas e mentais foram mortas nas operações de eutanásia chamadas de T-4; as partisans soviéticas foram massacradas em suas aldeias. Nos guetos e campos de concentração as mulheres eram submetidas a condições de trabalho tão extenuantes que morriam enquanto executavam suas tarefas. As mulheres judias e ciganas eram usadas como cobaias pelos “médicos” alemãs em pesquisas de esterilização. Nos guetos e campos as mulheres sofriam constantemente com espancamentos e estupros.

A perseguição às mulheres e a violência causada aos nossos corpos não foi uma exclusividade dos nazistas. Os militares japoneses escravizaram sexualmente cerca de 400 mil mulheres na Coreia, na China, nas Filipinas, na Indonésia e em outros países ocupados pelo Japão, durante a 2ª Guerra. Segundo o relato de uma sobrevivente das chamadas “casas de conforto”, Lee Ok-seon, de 88 anos: “Era como um matadouro, mas não para animais e sim para humanos. Ali faziam coisas horríveis. Para fugir ao horror, umas se afogavam, outras se enforcavam”. Não há nazifascismo sem uma política de extermínio dos oprimidos. Nossos corpos e nossas vidas valiam, e ainda continuam valendo muito pouco em todo e qualquer conflito capitalista.

A conquista do mercado de trabalho e a “segunda onda” feminista

Foi durante a 2ª Guerra Mundial que se deu a entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho. Num primeiro momento, para suprir o vazio deixado pelos homens que estavam nos campos de batalha, mas posteriormente para preencher uma demanda surgida com a guerra, que iria mudar a relação da mulher com o trabalho, causando um grande impacto social, durante e depois do final da guerra.

Com a volta dos homens das diversas frentes de batalha, era necessário que as mulheres cedessem seus lugares a eles no mercado de trabalho, e muitas mulheres, principalmente as casadas voltaram a se dedicar exclusivamente as tarefas domésticas e aos cuidados com a família.

As políticas públicas no pós-guerra passam a enfatizar que o papel da mulher era o de esposa, mãe e dona de casa. Era a hora de regressar ao lar e deixar os combatentes homens ocuparem seus lugares de direito na produção e nas Forças Armadas. Muitas mulheres resistiram, mas outras aceitaram. As tentativas de retirar a mulher do mercado de trabalho e devolve-la ao lar foi rápida e brutal, em particular para as operárias que foram demitidas em massa das fábricas.

O capitalismo passou a travar uma verdadeira guerra ideológica sobre o novo papel da mulher no pós-guerra. Apoiado no boom econômico sem precedentes e no crescimento populacional, o chamado baby boom, fez com que a propaganda que difundia a mulher como a “perfeita dona de casa”, tivesse sucesso sobre amplas camadas da população feminina. E lá fomos nós de volta ao lar!

A segunda onda do feminismo, iniciada nos Estados Unidos nos anos de 1960 até os anos de 1980, foi uma reação tardia a tentativa de domesticação da mulher, após o fim da a 2ª Guerra Mundial. Ele conseguiu redefinir o papel da mulher no âmbito público e privado, dando prioridade às lutas pelo direito ao corpo e ao prazer, bem como aos direitos de igualdade no trabalho, na política e na sociedade como um todo. Aquela mulher que esteve à frente das lutas na guerra, que foi operária, soldado e enfermeira nunca mais se contentaria com o simples papel de mãe, esposa ou dona de casa. Não depois de ter contribuído com sua capacidade e sua vida na derrota do nazifascismo. Sim, nós também tínhamos sido decisivas na gigantesca vitória que representou a derrota do nazifascismo em todo o mundo.

 

Referências

PEDRO, Joana Maria. Corpo, prazer e trabalho. Em https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4246954/mod_resource/content/1/PEDRO%2C%20Joana.%20O%20feminismo%20de%20segunda%20onda.%20Corpo%2C%20prazer%20e%20trabalho..pdf

ALEKSIÉVITCH, Svetlana. A guerra não tem rosto de mulher. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

QUETEL, Claude. As mulheres na Guerra – 1939-1945. Larousse, 2009.

ARMENI, Ritanna. Bruxas da Noite: A História não Contada do Regimento Aéreo Feminino Russo Durante a Segunda Guerra Mundial. Semeon, 2019.

 

Sites

https://historiahoje.com/a-participacao-feminina-na-segunda-guerra-mundial/

https://vermelho.org.br/2019/12/26/as-mulheres-da-segunda-guerra-mundial/

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/26/cultura/1516972221_680345.html

http://www.ideafixa.com/oldbutgold/historia-fotos-de-poderosas-mulheres-na-segunda-guerra-mundial

http://www.clickideia.com.br/portal/conteudos/c/27/24793

https://seer.ufs.br/index.php/historiar/article/view/5439

https://www.deutschland.de/pt-br/topic/politica/emancipacao-o-movimento-feminista-na-alemanha-de-1918-ate-2018

 

1 O termo ‘partisan’ surgiu na Guerra Civil Espanhola, nos anos 30. Através das Brigadas Internacionais, passou a ser usado pelos russos, ganhando rapidamente uma conotação comunista. Foi adotado pelos grupos de resistência apoiados pelos soviéticos, e também pelo movimento de Tito na Iugoslávia; porém, nem os Maquis francês, nem os Akowcy polaco, nem os Chetniks da Iugoslávia sonhariam adotá-lo. Os alemães utilizavam-no apenas para denunciar os partisans como uma espécie odiosa de bandido. (Fonte: https://mundoeducacao.uol.com.br/historiageral/partisans-na-segunda-guerra-mundial.htm)