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A Guerra e a Quarta Internacional: Síntese da Resposta Trotskista

Diogo Trindade, Lisboa (Portugal)

Soldado soviético hasteia a bandeira da URSS no Reichstag alemão após chegada a Berlim do Exército Vermelho

Em 1933, após ter defendido a construção de uma oposição no seio dos Partidos Comunistas caídos na burocracia Estalinista, em prol de um programa Marxista, Trotsky definiu a necessidade de uma nova Internacional revolucionária. Era fundamental retirar conclusões da derrota da Revolução Alemã, que culminou na recusa da frente única entre Comunistas e Sociais-Democratas e na consequente ascensão de Hitler.

A degeneração da Terceira Internacional e a falência da Segunda, num contexto de crise do capitalismo e de ascenso do Fascismo, orientado para a destruição de qualquer organização operária, criou um vazio que deveria ser preenchido por vários sectores do movimento trabalhista que tivessem chegado a iguais conclusões. Dado o contexto da constituição da Quarta Internacional em 1938, pouco antes da derrota dos republicanos no Estado Espanhol e do início da inevitável Segunda Guerra Mundial, é pertinente assinalar os principais pontos da resposta trotskista face à guerra, tanto no que respeita às lideranças burguesas como ao movimento operário, primeiramente expostos nas teses do Secretariado Internacional da Liga Comunista Internacional em “Guerra e a Quarta Internacional” em Junho de 1934 e recuperados em Maio de 1940 no “Manifesto da Quarta Internacional sobre a guerra imperialista e a revolução proletária mundial”.

A política defendida por Trotsky sintetizou-se na ligação dos revolucionários ao sentimento antifascista das massas e no esforço em comprovar a incapacidade da burguesia em organizar a luta contra os regimes fascistas, demonstrando que apenas o proletariado treinado e armado os poderia derrubar. Não tendo estado o Reino Unido e os Estados Unidos em oposição ao Fascismo por motivos morais ou pela defesa da “democracia” e dos “direitos humanos”, Trotsky não se deixou iludir pela propaganda burguesa e entendeu a natural rejeição do Fascismo por parte dos trabalhadores e o seu desejo de combatê-lo. Não bastava, porém a oposição à guerra entre estados burgueses era necessário desenvolver uma política autônoma da classe trabalhadora que fosse de encontro ao pensamento e às preocupações das massas, pelo que a militarização da organização revolucionária foi a forma de Trotsky para se aproximar da classe e apresentar um programa revolucionário. A construção da Quarta Internacional era indissociável destas tarefas.

Numa primeira secção de “Guerra e a Quarta Internacional”, a questão da “defesa nacional”, associada à manutenção da propriedade privada e das fronteiras dos Estados europeus não correspondentes às nacionalidades, é tomada como uma tarefa reaccionária contrária ao desenvolvimento da humanidade em longo prazo e à revolução proletária internacional. Esta requer justamente a abolição da propriedade privada e das fronteiras nacionais, no sentido de derrubar as fundações dos estados burgueses e de garantir verdadeiramente a autodeterminação dos povos e a sua cooperação.

Trotsky questionou a defesa da democracia burguesa, mesmo considerando o contexto de agressão militar, dado que o novo conflito mundial não se trataria de uma oposição entre democracia e ditadura, mas entre dois imperialismos. A defesa do interesse nacional pelos partidos representativos dos trabalhadores nos Estados imperialistas, com vista à preservação das democracias burguesas, significaria a renúncia a uma política autónoma e a desmoralização. Neste sentido era fundamental os trabalhadores terem os seus próprios instrumentos de luta contra o Fascismo. Para os trabalhadores, a defesa da democracia implicava a preservação das suas próprias organizações e a tarefa da vanguarda de constituir uma frente única de diversas organizações operárias, não excluindo, porém o apoio aos governos nacionais em caso de ofensiva externa.

Num segundo momento, Trotsky aborda as posições das anteriores Internacionais, que acabaram por utilizar o poder estatal para bloquear qualquer projecto revolucionário. Por um lado criticava-se a postura da Segunda Internacional ao colocar a solidariedade de classes acima da luta de classes – e, portanto do Marxismo -, lançando os trabalhadores mais inconscientes e oprimidos para a causa patriótica e para a “defesa nacional”, nada mais do que a defesa dos privilégios da classe dominante, e desarmando as massas perante o Fascismo.

Por outro, promovia-se a defesa da União Soviética enquanto primeiro Estado operário contra as ofensivas capitalistas, não ignorando o processo de degeneração burocrática e a teoria do Socialismo num só país assente em fronteiras nacionais, que camufla o papel reaccionário do estado nacional. Não esquecendo que apenas com a cooperação internacional seria possível uma política proletária revolucionária em tempo de guerra, a defesa da União Soviética é concebível apenas se a vanguarda proletária se mantiver independente da diplomacia estalinista e da burocracia da Terceira Internacional, de forma a demonstrar os seus métodos nacionalistas e conservadores contrários à revolução internacional e, em última instância, contra os interesses da própria União Soviética. Trotsky não excluía a hipótese de uma aliança temporária da União Soviética com algum estado ou bloco imperialista em caso de guerra, não descorando o perigo que tal seria para a revolução internacional e para a União. Tal implicaria a oposição ao aliado imperialista interessado na dominação capitalista na União Soviética, pelo que apenas o combate com vista ao derrube da burguesia tanto em estados “aliados” como inimigos poderia garantir a manutenção da União.

Trotsky reforça a ideia de que a luta contra a guerra é indissociável da luta contra o seu principal factor, o Fascismo, fazendo desta tarefa a principal condição para uma frente unitária dos trabalhadores que criasse comités de autodefesa. Recusa a reivindicação ilusória do desarmamento dos grupos fascistas, o que levaria os governos burgueses a sabotar por arrasto qualquer possibilidade de armamento dos trabalhadores. Tal proposta só seria aceitável se as armas detidas pelos fascistas passassem para os trabalhadores. Acabando por os trabalhadores apenas deterem armas ao participar no exército, seria fundamental o trabalho de propaganda e agitação no seu seio, desempenhado pelos trabalhadores mais conscientes, procurando atrair os soldados mais progressistas. Porém, apenas a capacidade dos trabalhadores organizados de lutar contra o poder instalado garantiria o apoio de exército para a causa revolucionária.

Assim Trotsky entende a construção da Quarta Internacional baseada no bolchevismo, através dos ensinamentos da experiência das anteriores Internacionais apoiantes da guerra, como instrumento essencial na preparação de uma nova revolução proletária antes do rebentamento de uma nova guerra. Estabeleceu-se a base de que a guerra entre imperialistas não serve a classe trabalhadora, só confundindo-a e desmoralizando-a. Esta guerra devia, portanto transformar-se numa guerra dos trabalhadores contra os capitalistas, rumo à revolução internacional.