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BRASIL

O PSOL e a frente de esquerda na cidade do Rio de Janeiro

Resistência/PSOL Rio de Janeiro, RJ

Com a aprovação do novo calendário eleitoral pelo Congresso Nacional por conta da pandemia, a proximidade das eleições municipais fica cada vez mais evidente e central no debate público. No maltratado Rio de Janeiro de Crivella e Witzel, a pandemia continua a vitimar centenas a cada semana, aprofundando a crise social e econômica que assola o Rio de Janeiro há anos. Neste quadro, é candente a responsabilidade da esquerda carioca se apresentar como alternativa para estas eleições.

O aumento do desemprego e crescimento da informalidade mal remunerada e do “bico” é uma realidade que parece irreversível em todo canto. A saúde pública agoniza em meio à superlotação dos hospitais e superfaturamento de gastos emergenciais para interesses empresariais escusos, deixando profissionais da saúde à própria sorte no combate heroico à pandemia. Nas favelas e bairros periféricos, a milícia, com o apoio de operações policiais seletivas, racistas e genocidas, aproveita o caos para avançar sobre o controle de novos territórios, e a disputa com setores do tráfico aumenta, em especial na Zona Oeste, vitimando nossa juventude. Como brinde, o avanço da privatização dos serviços públicos promete um cenário de maior desamparo e carestia para as famílias trabalhadoras.

O ameaçado governo Witzel e seu potencial sucessor acenam para o empresariado com venda de um patrimônio público inestimável, a CEDAE, subordinando o fornecimento da água e do saneamento básico, necessidades universais, aos imperativos do mercado, com o consequente aumento do custo de vida. Crivella, por sua vez, aposta no “novo normal” da convivência da população com as mortes em massa causadas pela COVID-19, colocando em prática um abandono quase completo do isolamento social. No Rio do pastor-empresário que prometeu cuidar das pessoas, a vida de seu povo, mais que nunca, parece não valer absolutamente nada.

Nesse cenário, desenha-se uma eleição municipal que será marcada pela política genocida e fascista do presidente e sua familícia, personificada na aliança entre o partido da Igreja Universal, Republicanos, e a gangue bolsonarista. Eduardo Paes (DEM), com o apoio de Rodrigo Maia e da direita tradicional, vai buscar dialogar com a nostalgia carioca dos tempos de vacas mais gordas, tentando esconder sua cumplicidade com Bolsonaro no projeto de austeridade liberal e avanço autoritário. Por fora, ainda corre a possibilidade da candidatura de Rodrigo Amorim (PSL), deputado asqueroso responsável pela famosa cena da quebra da placa da Marielle.

No plano das forças de oposição ao projeto bolsonarista, a desistência de Marcelo Freixo (PSOL), principal figura de oposição da cidade, provocou a fragmentação das alternativas de esquerda na cidade que até então apontavam para uma candidatura unitária. Num momento em que o PSOL precisou renovar o seu debate interno, o PT anunciou a pré-candidatura de Benedita da Silva, até então possível vice numa chapa encabeçada por Freixo, e o PCdoB manteve a de Brizola Neto. Embora a negociação entre os partidos não tenha se interrompido completamente, a constituição de uma chapa comum se tornou mais difícil. Neste meio tempo, se consolida uma chapa de centro, representada pela ex-delegada Martha Rocha (PDT) e o ex-presidente do Flamengo, Bandeira de Melo (Rede), com o apoio do deputado federal Alessandro Molon (PSB). Tal chapa busca se apresentar como uma alternativa progressista, mesmo com toda complacência que estes partidos vêm tendo com o projeto de ataques aos direitos da classe trabalhadora e ao patrimônio público.

O anúncio da pré-candidatura de Renata Souza, com amplo apoio no interior do PSOL, pode anunciar uma saída positiva para a construção de uma candidatura unitária da esquerda e dos movimentos sociais. Renata tem plenas condições de representar o acúmulo político que o partido obteve ao longo da sua trajetória como principal força de oposição de esquerda aos governos no Rio de Janeiro, como organização que vocalizou as lutas contra os aspectos mais excludentes e violentos do projeto de cidade e estado que priorizou os mega-empreendimentos às custas de direitos sociais. Esta posição de independência e crítica consequente frente a uma política que fez do Rio de Janeiro moeda de troca entre o PMDB do Rio e o PT nacional, permitiu que a esquerda carioca tenha sido capaz de produzir novos quadros e figuras públicas e crescesse enquanto referência para uma vanguarda que se formou nos processos de luta deste período. Assim, o PSOL está em condições de colocar a serviço da luta contra o fascismo e a agenda neoliberal o peso de seus parlamentares, sua militância e sua trajetória na cidade do Rio de Janeiro.

Devemos lutar para que o PT e PCdoB estejam lado a lado ao PSOL nestas eleições

Acreditamos, portanto, que a esquerda carioca deve se apresentar numa chapa representando esse acúmulo. Ao mesmo tempo, a situação reacionária e a ameaça fascista tornam necessário que a esquerda socialista busque conformar uma unidade das forças sociais dos trabalhadores e oprimidos no enfrentamento ao projeto bolsonarista. Esta unidade não tem no plano eleitoral o seu espaço fundamental, mas pode ser, em determinadas circunstâncias, um instrumento útil na sua construção. Consideramos que no Rio de Janeiro, no marco de um programa nítido de independência de classe e de enfrentamento ao conjunto dos ataques aos direitos sociais, há condições para que uma chapa, encabeçada por Renata e pelo PSOL, mas que reunisse o conjunto dos partidos, movimentos e organizações dos trabalhadores e da esquerda seria uma poderosa alavanca para a construção das lutas unitárias de massas que são necessárias para derrotar o projeto da extrema direita no país.

Nesse marco, devemos lutar para que o PT e PCdoB estejam lado a lado ao PSOL nestas eleições, para ampliar o alcance das ideias de esquerda e trazer mais lutadores que poderão se somar na organização da resistência nos bairros, favelas e locais de trabalho. Assim também desejamos que partidos que caminham ao lado do PSOL, como o PCB, UP e PSTU sejam parte de uma ampla frente de defesa dos interesses de nossa classe.

A constituição de uma Frente de Esquerda eleitoral poderá ser um impulsionador importante no fortalecimento das lutas unitárias da classe trabalhadora carioca

É nesse espírito que o PSOL deve se colocar à cabeça da constituição de uma alternativa de esquerda nestas eleições do Rio de Janeiro. A constituição de uma Frente de Esquerda eleitoral poderá ser um impulsionador importante no fortalecimento das lutas unitárias da classe trabalhadora carioca. Diante das dificuldades que a pandemia, o conservadorismo militarizado e a nova legislação eleitoral gerarão para a esquerda neste pleito, a frente poderá cumprir papel fundamental no engajamento de uma ampla vanguarda na resistência ao fascismo e avanço neoliberal.Temos certeza de que Bolsonaro e seus aliados no plano municipal só poderão ser detidos por um processo de lutas multitudinárias, impulsionado por uma frente das trabalhadoras e dos trabalhadores, oprimidas e oprimidos, organizada por suas principais organizações.

Esta frente ainda não está constituída, mas tem elementos lançados em iniciativas de luta concreta como o pedido de impeachment dos partidos de esquerda e a campanha nacional pelo “Fora Bolsonaro” e Dia de Lutas puxado pelas Frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular. Uma frente única dos trabalhadores, constituída para a luta de massas, não se confunde com uma tática eleitoral unitária, mas esta última pode ser um instrumento na sua construção quando as condições o permitem. Acreditamos que uma chapa unitária da esquerda nas eleições municipais no Rio de Janeiro e no Brasil pode cumprir um papel deste tipo. A candidatura de Renata Souza, apresentando um programa marcadamente anticapitalista, antirracista, feminista, de enfrentamento ao fascismo e a todos os ataques dos governos, deve ser um polo aglutinador no qual convirjam os partidos de esquerda. O PSOL deve dedicar um grande esforço para conformar nesta candidatura uma coligação que reúna PT, PC do B, PCB, UP e os demais partidos de trabalhadores.

 

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