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BRASIL

Os efeitos da reabertura do comércio em Belo Horizonte

Alexandre Zambelli, Carine Martins, David Landau e Pablo Henrique, de Belo Horizonte, MG

Há pouco mais de um mês, no dia 25 de maio, Belo Horizonte iniciou sua primeira etapa de reabertura do comércio, que envolvia permissão de abertura de salões de beleza, lojas do setor de varejo, como móveis, shoppings populares e papelarias. Discutimos a questão aqui em matéria no Esquerda Online na época1. Desde esta data até hoje, a cidade passou por mais uma etapa de flexibilização (com ampliação da abertura) no dia 08 de junho e voltou à estaca zero (somente com serviços considerados essenciais) no dia 29 de junho. Essa medida foi adotada diante do agravamento do quadro da pandemia aqui na cidade.

O empresariado local tem forçado muito a abertura do comércio na cidade. Já ocorreram diversas manifestações e carreatas pedindo o fim das medidas de isolamento com o argumento de que muitos comerciantes estão perdendo seus negócios e com isso gerando desemprego. Em que pese os interesses corporativos deste setor, que muitas vezes mantiveram seus empreendimentos às margens de qualquer respeito à relações trabalhistas, há de fato aqui um ponto importante que é a falta de apoio aos mesmos, sobretudo aos pequenos comerciantes, que possuem dificuldades de acesso às linhas de crédito criada para o momento. Além disso, a omissão do governo federal em tomar medidas econômicas de maior proteção ao trabalhador gera de fato esta incerteza.

Porém o que estas medidas de flexibilização mostraram é que não há como retornar às atividades econômicas da mesma forma neste momento, pois as consequências para a saúde da cidade serão muito graves. Neste período o número de casos de Covid-19 saltou de 1.444  em 25 maio para 8.273 hoje, 06 de julho. Um aumento de 5 vezes em 4 semanas. As mortes  quadruplicaram, passando de 42 para 177. Considerando ainda que há um problema recorrente de subnotificação para a doença, precisamos avaliar então também a evolução dos quadros de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), a qual conforme demonstra a tabela abaixo teve um salto na semana epidemiológica do início da reabertura (semana 22) até a semana 252.

A evolução dos casos e mortes na cidade claramente demonstram como as medidas de flexibilização neste momento foram precipitadas. Destaca-se ainda o aumento em mais de 700% de casos de SRAG do ano passado para este ano. Medidas contraditórias como abertura desde o começo de shoppings populares foram objeto de muitas críticas, e com razão, em virtude do potencial de aglomeração em ambientes fechados dos mesmos. A cidade ainda vive as consequências destas medidas com o potencial de colapso de leitos de UTI na rede pública (com ocupação atual de 87% dos mesmos3).

A despeito dos movimentos recentes de reabertura em grandes capitais como Rio de Janeiro e São Paulo, hoje Belo Horizonte se encontra com a maior parte de seu comércio fechado. O cenário recente demostra que esta medida precisa ser mantida como forma de proteção à saúde da população, aliada a medidas econômicas de proteção aos trabalhadores e pequenos empresários.

 

Notas:

1https://esquerdaonline.com.br/2020/05/25/mg-subnotificacao-aumenta-incertezas-em-minas-gerais-covid-isolamento/

2 Este dado considera a data de início de sintomas, então o mesmo é constantemente atualizado. E como há sempre um atraso considerável na atualização das informações, desconsideramos os dados das duas últimas semanas – 26 e 27.

3 https://prefeitura.pbh.gov.br/sites/default/files/estrutura-de-governo/saude/2020/boletim_epidemiologico_assistencial_53_covid-19_03-07-2020.pdf