Pular para o conteúdo
Colunas

Rio de sangue

Chico Alencar

Chico Alencar é professor de História graduado pela UFF, mestre em Educação pela FGV e, atualmente, integra o projeto Universidade da Cidadania, da UFRJ. Tem 27 anos de experiência na política institucional: foi deputado federal por quatro legislaturas, deputado estadual e vereador no Rio. Ganhou nove vezes o prêmio de Melhor Deputado do site Congresso em Foco e foi escolhido o parlamentar mais atuante do Brasil. Tem 69 anos e 33 livros publicados. É filho de um piauiense e uma paulista, pai de quatro filhos e avô de cinco netos.

A prisão de Leonardo “Mad” e Leandro “Tonhão”, sucessores do ex-capitão Adriano da Nóbrega na chefia do horripilante “Escritório do Crime”, é reveladora da barbárie que nos cerca e do grau de “gangsterização” da política a que chegamos. Alguns fatos:

1) Matar, entre nós, é também um negócio: a “tabela” por morte encomendada para o “Escritório do Crime” variava, podendo chegar a R$ 1,5 milhão!

2) “Mad”, ao ser preso em flagrante em sua casa de dois andares na Vila Valqueire, foi logo dizendo “eu não tenho nada a ver com o caso da Marielle!”, como se soubesse que a ação policial (“Operação Tânatos”) estava tb em busca dos mandantes da execução dela e de Anderson. Tinha informação privilegiada?

3) Um delegado disse que os presos não eram suspeitos no caso Marielle/Anderson, pois “no mesmo dia e hora da execução da vereadora e de seu motorista, no Estácio”, outra execução ocorria na Barra da Tijuca, atribuída ao “Escritório do Crime” – a de Marcelo Diotti. Argumento tétrico para uma defesa: “não matei no Estácio porque, na mesma hora, estava matando na Barra”!!! É a barbárie! (Depois, a polícia admitiu que o assassinato de Diotti pode ter sido perpetrado para desviar a atenção do outro, que teria muito maior repercussão).

3) Adriano da Nóbrega, o poderoso chefão matador eliminado, foi defendido por Jair Bolsonaro “das perseguições que sofria” e condecorado por seu filho Flávio, que empregou em seu gabinete mãe e esposa do criminoso. Isso é mais do que cumplicidade!

4) Os presos Mad e Tonhão, “herdeiros” de Adriano, “eram próximos” de Ronnie Lessa, acusado de ser, com outro ex-PM, Élcio de Queiroz, o executor da morte de Marielle e Anderson.

5) Fabrício Queiroz, ex-chefe de gabinete de Flávio Bolsonaro e amigo há mais de 30 anos de Jair, tinha contatos com muitos milicianos, a começar por Adriano. Sua mulher, Márcia, continua foragida.

“Naturalizar” tudo isso, e ter uma Justiça que fique inerte diante dessa criminalidade e matança com amparo oficial, é atestar que a civilização também está sendo esquartejada.

O Rio de Janeiro não pode mais ficar sangrando, flechado como seu padroeiro.