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Uma frente amplíssima que divide a esquerda não é útil para derrotar Bolsonaro

Valerio Arcary

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

O argumento deste texto é que derrotar Bolsonaro é o centro da estratégia, e a luta por salvar vidas, Fora Bolsonaro, concretizada na defesa do impeachment é a sua concretização tática através de um Frente de Esquerda. Não há problema nenhum em fazer ações comuns em unidade de ação, como a exigência das investigações do clã Bolsonaro com as milícias, ou outras, com a oposição liberal: de FHC até Dória, sem restrições. A questão é em torno do que quais bandeiras. Fora Bolsonaro é a questão central, e não se trata de ultimato, se trata de lucidez. Nada mais, porém, nada menos do que isso.

Uma parcela da esquerda apoiou o ato virtual de sexta-feira passada organizado pelo Manifesto Direitos Já em defesa da democracia, e outra não. Está aberta uma polêmica sobre qual deve ser o caminho. Há dois argumentos fortes principais entre os que defendem o Ato como embrião de uma Frente Democrática.

O primeiro é que a esquerda não tem, neste momento, força social e política para conter e, menos ainda, para derrotar Bolsonaro. Portanto, as alianças amplíssimas são indispensáveis, mesmo que o denominador comum não inclua a defesa do impeachment.

Na verdade, nem a esquerda sem as ruas, muito menos a oposição liberal, em minoria no Congresso, têm força suficiente para sequer deter, quanto mais derrotar agora Bolsonaro. A questão, portanto, é como acumular forças. Um mínimo de bom senso sugere que com o programa dos liberais de declarações de amor ao Congresso e à democracia não saímos do lugar.

O segundo é que seria errado provocar o governo com pressão pelo impeachment, porque aumentaria o perigo real e imediato de um autogolpe. Evidentemente, a esquerda não deve ter qualquer ilusão na impostura do teatro “Bolsonaro paz e amor”. Bolsonaro não é somente um líder de ultradireita esdrúxulo, esquisito, exótico. É a máxima liderança de uma corrente neofascista. Bolsonaro pode dançar uma valsa para os lados, e fingir que está saindo de costas de mansinho, quando se prepara para entrar de frente para recuperar posições, e poder avançar. Vem tentando fascistizar o núcleo duro da corrente de massas que o apoia, mas ainda precisa ganhar tempo.

Bolsonaro não é tutelável, domesticável: o caminho para derrotar o perigo de autogolpe é a luta para derrubá-lo, porque o neofascismo é voluntarismo contrarrevolucionário. É da natureza dos fascistas a busca permanente da máxima iniciativa: a provocação, a ofensiva, o blefe. Parece loucura, mas obedece a um método. Agigantar as suas forças, diminuir a dos inimigos, e assustar.

Acontece que aumentou o isolamento de Bolsonaro – prisão dos líderes dos 300, cerco à rede de fake news, demissão de Weintraub, além de seu brevíssimo sucessor e, sobretudo, prisão de Queiroz – e o governo se viu pressionado a mudar o tom, ceder às pressões do Centrão no Ministério das comunicações, e abrir negociações com o STF. Uma inflexão, portanto, em menos de quinze dias: um novo momento na conjuntura.

Bolsonaro sabe que enfraqueceu e, por isso, recuou. Não vai se lançar numa aventura sem ter certeza de vitória. Não precisa se precipitar: estão no poder. Os fascistas têm como estratégia subverter o regime, e impor uma ditadura. Mas sabem que os tempos da tática são muito importantes. Bolsonaro não vai cair de maduro, não haverá impeachment sem confronto. A hipótese mais provável é que só uma mobilização colossal pode deslocar uma maioria burguesa para o impeachment e a neutralização das Forças Armadas. Se não for derrubado, Bolsonaro vai partir para a contraofensiva. O fascismo não será derrotado sem luta.

O principal limite do manifesto por Direitos Já é que a defesa do regime democrático que defende passa pelo apoio a Maia e Toffoli, não pelo impeachment. A aposta que os seus defensores fazem é que o Congresso e o STF, com a sustentação da mídia comercial, são as trincheiras que podem e devem nos proteger de Bolsonaro. Defendem, em consequência, que a tática mais prudente é deixar Bolsonaro se desgastar, e esperar as eleições de 2020, ou numa palavra: não provocar.

Essa aposta é, além de errada, incoerente. É incoerente porque, ou se considera que há perigo real de Bolsonaro se lançar na direção do autogolpe, ou prevalece na análise que o Congresso e o STF têm condições de impor um freio e tutela até 2022. Uma ou outra. Não podem ser as duas hipóteses ao mesmo tempo. Mas é, essencialmente, errada, por outra razão.

Não podemos aceitar que Bolsonaro cumpra o seu mandato, porque ele é uma ameaça à vida de milhões de pessoas. A oposição liberal pode esperar 2022, mas a esquerda não. Fernando Henrique e Maia podem apostar, pacientemente, na derrota eleitoral de Bolsonaro em 2022, porque concordam com o programa de Guedes. Se a esquerda se render a esta perspectiva comete um suicídio político.

Nas duas últimas semanas ficou claro que a pandemia se dissemina de forma avassaladora. Superamos os 60.000 mortos, e a sociedade esta à deriva, caminhando para um cenário catastrófico em agosto. A crise social será devastadora com o fim do auxilio de emergência.

As três crises que nos ameaçam são devastadoras. Em poucos meses, o cenário mais provável é que teremos mais de cento e cinquenta mil mortos, algo próximo de vinte milhões de desempregados, e mais de sessenta milhões que irão perder o auxílio emergencial. A sociedade brasileira, com mais de 86% da população urbanizada, mais de vinte cidades com um milhão ou mais de habitantes, não é mais o mundo rural iletrado do passado. Não será possível naturalizar a tragédia como uma fatalidade da natureza. O centro da tática é politizar o desastre responsabilizando o governo, e unir a defesa dos direitos sociais à bandeira de Fora Bolsonaro.

Trata-se de uma ilusão institucional imaginar que serão possíveis mobilizações populares em defesa da democracia, sem a defesa dos direitos sociais, e sem o Fora Bolsonaro. Em defesa do Congresso e do Supremo ninguém sai às ruas no Brasil. Para as amplas massas, esta democracia sempre foi um regime dos ricos.

 Esse programa não responde às urgências dos que estão perdendo os seus pela pandemia, dos que estão sem emprego, dos que vão perder o auxílio emergencial, dos negros que morrem nas quebradas, dos indígenas que têm suas terras usurpadas e a Amazônia em chamas. Não é o bastante.

Acontece que a oposição liberal sabe, também, que o bolsonarismo tem uma corrente de massas radicalizada por trás. FHC, Maia e Toffoli são conscientes que sem pressão das ruas não é possível barrar os neofascistas. Mas temem essas mobilizações vindas de baixo porque elas só podem favorecer a esquerda, e não estão dispostos a construir escadas para a esquerda subir. Ainda menos, quando terão que improvisar candidaturas com Huck, Dória ou Sergio Moro.

A questão de quem vai liderar a oposição a Bolsonaro está em disputa, e não há razão para a esquerda renunciar à sua disputa. A questão de fundo é que os trabalhadores e o povo sofreram grandes derrotas desde 2016, mas a esquerda não foi destruída. Se o movimento sindical foi, duramente ferido, surgiram novos movimentos sociais, negros, mulheres, LGBT’s, e juventude.

O papel do PSOL deve ser a defesa de uma Frente de esquerda, porque ela abre um caminho para poder voltar às ruas, e apresentar uma proposta de poder. A unidade na ação com a oposição liberal em torno de reivindicações concretas é legítima. Mas aceitar o seu programa seria uma capitulação.