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OPRESSÕES

#ExposedFortal #ExposedCariri: As mulheres vão falar!

Gladys Pontes*, de Fortaleza, CE
Reprodução

Nos últimos dias, observamos uma onda de protestos virtuais de jovens mulheres denunciando a existência de um grupo de WhatsApp com estudantes, onde estariam sendo compartilhadas fotos íntimas de garotas na cidade de Fortaleza, no Ceará. O fato ficou conhecido pela hashtag #ExposedFortal, cuja repercussão alcançou os trendings topics na rede social Twitter. Outra hashtag viralizada foi a #ExposedCariri, também com o propósito de expor casos de assédio, ameaças, abusos psicológicos e pornografia contra as mulheres na cidade. Contudo, percebemos um desenvolvimento no nível de consciência das jovens mulheres acerca do feminismo e da luta coletiva das mulheres numa sociedade capitalista patriarcal. Desse modo, é preciso aproveitar esse momento da discussão para acrescentar ao debate as questões de classe, mas também de saúde mental que se explicitam quando mulheres são vítimas de crimes como esses, que expõem seus corpos e as colocam em situação degradante.

Para isso, considera-se relevante trazer os dados referentes a uma pesquisa realizada pela UNICEF, em 2017, sobre Adolescentes e o risco do vazamento de imagens íntimas na internet. A pesquisa entrevistou 14 mil jovens mulheres de diversas regiões do Brasil, a maioria entre as idades de 16 e 18 anos, em que 50% estavam no ensino médio e 22% já tinham concluído o período escolar. Entre as respondentes, mais de 70% afirmaram ter recebido “nudes” sem pedir e menos de 20% pediu fotos para alguém. O que autoriza os homens a enviarem fotos íntimas para garotas sem a sua solicitação? O machismo, a objetificação, a noção de que podem invadir a privacidade e a vontade de constrangê-las. Além disso, muitas garotas são coagidas a tirarem fotos íntimas durante conversas de modo que 80% delas já tinham recebido pedidos de fotos íntimas, e somente 35% enviaram. Os dados mostram que 55% das entrevistas afirmam que essas práticas acontecem pelo WhatsApp.

Na pesquisa, foram feitas perguntas sobre como a escola pode ser um espaço disposto a mediar esses casos, de modo que 52% não contariam para alguém da escola sobre o vazamento de imagens íntimas na internet e, ainda, 70% afirmam que o assunto nunca havia sido discutido na escola. De acordo com os dados obtidos, 10% das jovens afirmaram ter sido vitimas de vazamento de fotos íntimas. Sobre as consequências para as vítimas dessas práticas, observou-se que 35% não contaram para ninguém, 2% contaram para a escola. Além disso, 80% afirmam terem se sentido culpadas, 30% sentiram-se tristes e sozinhas, 27% pensaram em acabar com a própria vida, 26% cogitaram fazer algo com o próprio corpo, 3,8% mudaram de escola e 1% mudou de cidade.

Com o fácil acesso ao uso da internet, cada vez mais os jovens usufruem desse dispositivo em diversos contextos. A pesquisa mostra que os pedidos e envios de fotos íntimas é uma prática comum entre os jovens e que esse tema precisa ser melhor debatido com o conjunto da sociedade. Nota-se que o mais comum é que as jovens recebam fotos mesmo que não tenham solicitado, enquanto o numero de garotas que enviam suas fotos íntimas é bastante inferior. 

É necessário que a sociedade entenda que uma mulher pode ter o direito de possuir fotos íntimas e fazer o que desejar com elas, mas, a partir do momento em que essas fotos são divulgadas sem o seu consentimento, configura-se um ato ilegal, com base na Lei de Importunação Sexual (Lei n. 13.718/ 2018), que tipifica como crime a divulgação de cenas de estupro ou cena de estupro de vulnerável e, sem o consentimento da vítima, cena de sexo ou de pornografia. 

No entanto, ainda hoje, há pessoas que afirmam que o vazamento dos “nudes” é de responsabilidade de quem enviou. No entanto, quando esse tipo de pensamento é propagado, acaba sendo reforçada a lógica machista de culpabilização da vítima. A culpabilização das mulheres por esse crime contribui severamente para o aumento de consequências extremamente nocivas, como o medo de denunciar, depressão, ansiedade, ideação suicida, sentimento de impotência, etc.

A pesquisa mostra o quanto a escola não se expressa enquanto espaço de potência para o debate com esses jovens sobre as consequências envolvendo a divulgação de fotos íntimas, e sobre abuso sexual infantil, estupro etc. Mas, para isso, é necessário que as escolas estejam dispostas a enfrentar o tabu sobre discussão da sexualidade e fomentar a participação dos estudantes em projetos que possam contribuir para uma ampliação do tema, tornando aquele espaço seguro para que as vítimas possam denunciar, sendo asseguradas de que não serão retaliadas. Quando afirmamos que é necessário fazer discussão de gênero e sexualidade nas escolas, não significa que queremos ensinar a fazer sexo ou induzir a uma determinada expressão de gênero, significa que acreditamos que seja urgente fazer com que as jovens mulheres tenham consciência de seus corpos seus diretos, para que ninguém seja capaz de infringi-los. 

No entanto, uma questão de classe importante deve ser levantada: Porque será que as escolas privadas evitam esses temas? Será que para uma escola de grande porte, destinada às elites das grandes cidades seria interessante discutir com essas jovens a importância de não silenciarem diante de casos assim? Fortalecer o debate contra qualquer forma de violência contra as mulheres significa construir espaços de denúncias que podem desestabilizar o marketing dessas “grandes empresas da educação”, o que vai de encontro com o objetivo delas. Contudo, as escolas que preferirem silenciar diante de tal levante de mulheres sobre casos sérios de denuncias, não serão capazes de educar os protagonistas de uma mudança social futura. E o pior, serão coniventes com uma realidade que violenta, adoece e mata todos os dias nossas mulheres.

Por fim, torna-se importante ressaltar a coragem envolvida no ato dessas denúncias, mas também na denúncia do machismo cotidiano. No entanto, deve-se reafirmar a necessidade urgente de que as mulheres enfrentem o machismo para além dos comportamentos, visto que eles são apenas uma forma de expressão do patriarcado, que é um sistema a serviço do capitalismo, que subjuga as mulheres em sua totalidade. E para transformar a sociedade, a luta precisa ser coletiva, classista, feminista e antirracista.

* Psicóloga, militante da Resistência Feminista e do Afronte!