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TEORIA

Mário Pedrosa, antifascista

Mário Pedrosa deixou um legado histórico que não perdeu sua atualidade

Everaldo de Oliveira Andrade*
Reprodução

Detalhe do jornal O Homem Livre

Nesse ano de 2020 completam-se os 120 anos de nascimento de Mário Pedrosa, militante socialista e crítico de arte brasileiro que encabeçou na década de 1930, em São Paulo, a resistência antifascista em atos de rua e em inúmeros textos produzidos contra o avanço fascista que aqui buscamos resgatar. O Brasil daquela época era bem diferente, a burguesia estava dividida depois do movimento de 1930 e o regime político seguia instável. A crise econômica depois de 1929 se aprofundava e mobilizações sociais de trabalhadores cresciam. Um partido – a Ação Integralista Brasileira – inspirado nos movimentos fascistas europeus avançava e, ainda que caricatural em seus gestos e medíocre em seus manifestos e propostas, ameaçava organizações sindicais e partidos operários, ganhava simpatias de setores como policiais, militares, políticos e das camadas médias e pequeno-burguesas.

O jovem militante Mário Pedrosa, então com 33 anos, atuava como dirigente da Liga Comunista Internacionalista (LCI), organização que integrava a chamada Oposição de Esquerda Internacional liderada por Leon Trotsky e que aspirava reformar a IIIª Internacional stalinizada. A Oposição havia decidido e aplicava em todos os países uma orientação pela mais ampla unidade das organizações operárias para barrar o avanço do fascismo. No Brasil, Mário Pedrosa, à frente do aguerrido grupo de militantes da LCI, lançou um chamado a todas as organizações em São Paulo para que se unissem e formassem uma frente única para enfrentar as primeiras ações dos bandos integralistas. Nessa mesma época Pedrosa também está editando no Brasil o livro clássico de Leon Trotsky em que analisa a ascensão do nazismo Revolução e contrarrevolução na Alemanha, que ele traduz e apresenta.

A frente única antifascista (FUA) se constituiu em um comício realizado em 10 de junho de 1933 em São Paulo, organizado em memória do operário italiano  Giacomo Matteotti assassinado  pelo regime de Mussolini.  Mais de 500 pessoas estiveram presentes. No dia 14 de julho, também para celebrar a data da queda da Bastilha e início da revolução francesa, um novo ato político inaugurou oficialmente a frente única antifascista em São Paulo. A frente agrupava grupos e jornais anarquistas, socialistas, trotskistas, sindicalistas, imigrantes e até comunistas stalinistas de base, apesar do veto de sua direção. A polícia logo depois prendeu Mário Pedrosa e vários militantes, mas os choques com os bandos fascistas se multiplicavam na capital paulista. No dia 14 de novembro de 1933 uma manifestação da FUA que se realizava em um salão da Avenida Celso Garcia foi atacada por dezenas de integralistas que forçaram a entrada no local. A polícia chegou, assistiu o ataque dos fascistas e depois também atacou os militantes operários quando saíam para suas casas. O movimento anti-fascistas não se intimidou e seguiu em atividade nas ruas. No dia 25 de janeiro de 1934 convocou uma manifestação pública no Largo da Concórdia, que foi previamente tomado pelas forças de repressão da polícia para intimidar o movimento. Mário Pedrosa foi um dos poucos oradores que conseguiu discursar na manifestação, em seguida atacada  com cavalos da Força Pública,  a equivalente na época à atual polícia militar.

O núcleo militante que animava a frente era composto pelos militantes da LCI liderados por Mário Pedrosa. Eles haviam decidido, para ajudar na constituição e  consolidação da campanha antifascista, fundar um jornal de massas em 1933 –  O Homem Livre. As páginas deste periódico, que circulou na capital paulista entre 1933 e 1934 são das mais interessantes testemunhas históricas da tenacidade e coragem do movimento antifascista, mas também revelam os embates e dificuldades da luta cotidiana. O jornal buscava aproximar representantes de diferentes organizações, mobilizar as camadas trabalhadoras da cidade, informava e denunciava a barbárie do fascismo na Europa e atacava os fascistas no Brasil. Mário Pedrosa escreveu em 12 dos 22 números publicados. A maior parte dos artigos eram assinados apenas por pseudônimos. O jornal conseguiu sobreviver heroicamente e seu último número foi publicado em fevereiro de 1934, mas a FUA seguiu agindo ousadamente .

Mário Pedrosa escreveu artigos principalmente sobre temáticas da luta anti-fascista. Mas também colaborou com temas culturais como uma interessante resenha sobre o filme recém-lançado Scarface em que ele aproveita para comparar a prática dos gangsteres de Chicago com àquelas das burguesias de todos o mundo; uma resenha do livro História do Brasil do poeta Murilo Mendes em que ele destaca a importância dos poemas sobre Canudos, Palmares e a revolta da Chibata; e uma longa resenha publicada ao longo de quatro números sobre a exposição em São Paulo de pinturas da artista alemã Khäte Kollwitz e que é praticamente sua estreia como futuro e brilhante crítico de arte.

Entre os vários artigos políticos, preocupados centralmente em analisar o avanço do nazismo, aquele de maior importância pela lucidez de análise e das perspectivas que oferece, talvez seja O Nacional socialismo e a crise econômica: lições da derrota do proletariado alemão” no mês de setembro de 1933[i]. Nesse texto Mário Pedrosa faz um balanço da crise econômica alemã sob o governo nazista, que se iniciava com a subida de Hitler como chanceler em 30 de janeiro de 1933. Se seguem nos meses seguintes medidas de fechamento de partidos, sindicatos e demais instituições democráticas, o que abria caminho para a ditadura nazista. Ele cita as declarações apaziguadoras tanto de socialistas como de comunistas, estes afirmando publicamente que a crise e a miséria dos trabalhadores e da pequena burguesia alemã fariam em breve cair o nazismo. Para Mário Pedrosa esta análise era completamente superficial e ignorava a derrota sofrida pelos trabalhadores alemães. Indignado, ele escreve: “O otimismo dessas afirmações são  fanfarrônicas, põem de lado completamente uma coisa: o papel do partido proletário (…) não notam que, enquanto isso, o fascismo venceu na Alemanha e destruiu as organizações operárias, inclusive os seus partidos políticos, os seus clubes esportivos e, as suas bibliotecas, os seus sindicatos, as suas cooperativas, os seus comitês de fábrica, etc. De que maneira a indignação ou a revolta das massas tomará a forma de uma resistência positiva sem ser por meio de suas organizações de classe? Como pode ser organizada a resistência contra o fascismo sem ser por meio do partido de classe? ”

No mês seguinte, em outubro de 1933, um novo artigo de Pedrosa descreve as negociações e tentativas das potências imperialistas para conter o rearmamento de Hitler, que buscava nesse momento convencer as potências capitalistas de que o seu objetivo principal era a destruição da União Soviética para completar a obra de destruição já avançada do movimento operário alemão. Escreve Pedrosa: “para consolidar as suas posições dentro do país, viu-se o fascismo obrigado nos primeiros tempos a apresentar-se com uma extrema prudência no lado de fora. Foi mesmo preciso despir-se de seu caráter belicoso e chauvinista, anti-francês, e dar as potências imperialistas outras garantias de suas boas intenções de vizinhança. (…) “Mas eram estas apenas as premissas políticas para a ação ulterior da burguesia imperialista da Alemanha. O capitalismo alemão, precisando de novos mercados e novo campo de escoamento à sua produção, exige agora a execução da outra etapa da “revolução” nazista. … Hitler precisa armar-se para lançar definitivamente a sua candidatura a chefe de uma cruzada capitalista anti-soviética.[ii]

Mas Mário Pedrosa também critica a posição da União Soviética em subestimar a capacidade do movimento operário e apostar em um caminho de concessões e acordos com os países capitalistas: “presos à miragem do socialismo nacional, os dirigentes soviéticos, sem fé nas forças do proletariado internacional, preferiram recorrer aos métodos das negociações diplomáticas, das combinações com os governos capitalistas, das ilusões do pacifismo, à procura de garantia de paz e de segurança pelos acordos e tratados internacionais, os pactos de não-agressão e de amizade, os conchavos “desarmamentistas”, e enredar-se na malha das Intrigas diplomáticas imperialistas”. E prossegue: “A sorte do Estado soviético sempre esteve indissoluvelmente ligada à sorte das massas oprimidas pelos imperialistas. A política da diplomacia soviética separou porém, os seus interesses imediatos dos interesses das massas proletárias no exterior. (…) É hora do proletariado reafirmar o seu internacionalismo ativo para impor ao mundo capitalista a sua solução, isto é, a civilização radiosa que traz no seu seio. Aos povos europeus às vésperas de serem novamente assassinados, é preciso que a voz poderosa do internacionalismo proletário se faça ouvir”.

Mário Pedrosa não era militante de escritório (hoje militante virtual?), ou só nos textos publicados. Nos meses que cobrem o ano de 1933 e 1934 esteve em inúmeras atividades nas ruas, envolvido com a organização e as ações antifascistas na capital. No 1º de Maio de 1934 a FUA conseguiu reunir mais de três mil pessoas em frente ao palácio das Indústrias no Parque D. Pedro. Mário Pedrosa discursou em nome da Liga Comunista e chamou o Departamento Estadual do Trabalho de “bordel do trabalho“, defendendo a unidade dos trabalhadores para enfrentar o fascismo e a formação de milícias operárias para defesa e enfrentamento às agressões[iii]. Mas a maior e histórica manifestação antifascista que marcou a história da FUA, foi na verdade uma contra- manifestação articulada para impedir uma grande celebração integralista que se preparava. O enfrentamento ocorreu no dia 7 de outubro de 1934 em plena praça da Sé no centro da capital paulista. Mário Pedrosa atuou como dirigente da FUA e da LCI na preparação da contra-manifestação, conseguindo até a adesão dos stalinistas. A ação consistia em impedir de todas as formas que os integralistas, que organizavam até caravanas de cidades do interior, comemorassem o seu segundo aniversário em praça pública. O livro “A revoada dos galinhas verdes” de Fúlvio Abramo, narra e documenta todos os detalhes desta luta memorável. De fato, uma batalha campal e um tiroteio de horas impediu que os fascistas brasileiros tomassem as ruas e ocupassem a praça da Sé. Entre os feridos, Mário Pedrosa levou um tiro  durante a luta. Quatro policiais e um jovem militante comunista morreram.

Havia resistências evidentes e esperadas dos fascistas, boicotes de empresários alemães e italianos fascistas residentes no Brasil, perseguição policial sistemática. Mas também havia a surpreendente resistência do partido comunista brasileiro (PCB), já quase todo absorvido pelas orientações da tirania stalinista. O PCB chegou a integrar por alguns meses a FUA mas depois saiu, o que mereceu um artigo nada elogioso de Mário Pedrosa, intitulado “Coerência na deserção”, aliás o último que ele escreveu no jornal: “na luta contra o fascismo, na defesa das liberdades democráticas, que hoje só beneficiam os oprimidos em luta pela sua emancipação, não há lugar para os que passivamente acreditam em verdades reveladas, em dogmas dirigidos à custa de falsificação e mentira. persistir nos erros que levaram à catástrofe alemã não seria agora apenas uma capitulação, mas uma traição deliberada a causa das classes trabalhadoras[iv]”.

As inúmeras atividades da FUA demonstraram ao logo dos anos de 1933 e 1934 uma viva capacidade do movimento operário de então em liderar e garantir até onde foi possível, as mais elementares liberdades democráticas então cada vez mais ameaçadas. Nos anos seguintes o Brasil seria sacudido por novos choques políticos. Os stalinistas brasileiros que boicotaram a FUA, meses depois – perdidos entre as ordens de Stálin para buscarem uma aliança comum com a burguesia e a mentalidade aventureira dos recém-chegados prestistas vindos do tenentismo – desemboca na ANL (Aliança Nacional Libertadora) uma tentativa artificial de construir uma ampla frente democrática submetida à burguesia brasileira, mas também na aventura militar comunista de 1935, que serviu como excelente pretexto para uma ampla repressão ao conjunto das organizações dos trabalhadores, facilitando o caminho para a brutal ditadura varguista. Mário Pedrosa escreveu um longo balanço de 1937 sobre estas experiências recentes e faz uma análise do que ele chamou de fascismo colonial:

“Nos velhos países, para realização de sua obra de destruição das organizações operárias, ao fascismo não basta arregimentar os seus gangsteres, mas precisa apresentar um programa profundamente demagógico, com fortes tintas de socialismo. Do contrário, não poderia criar um vasto movimento de massa, abrangendo mesmo certas camadas proletárias (…). Não tendo como tarefa imediata, primordial, arrancar as massas da influência da ideologia socialista, a demagogia fascista colonial tende a tomar outro caráter. A falta de concentração do proletariado, a falta de uma posição hegemônica deste no aparelho de produção, a ausência de consciência de classe desenvolvida, a fraqueza de suas organizações e partidos, etc, podem dispensar o fascismo da necessidade absoluta de um apoio realmente de massa, ativo e dinâmico. Por outro lado, o caldo de cultura mais adequado à proliferação fascista, que é a pequena burguesia, não tem, no Brasil, homogeneidade nem, sobretudo, é vinculada por interesse gerais comuns. Ela se reparte em grupos separados um dos outros, sem comunicações entre si, sem tradições idênticas, sem condições econômicas e sociais sincronizadas. Todos esses fatores  estorvam a sua sedimentação através do país. A pequena burguesia urbana pode ser um instrumento maleável do fascismo. Mas também poderá ser facilmente conduzida pelo proletariado, dadas as miseráveis condições de sua existência nas grandes cidades”[v].

Meses depois Mário Pedrosa foge para o exílio no exterior com a ameaça de prisão a partir da ditadura do Estado Novo varguista. Décadas depois, em 1966, ele publicará o livro A Opção Brasileira retomando e centrando as forças novamente na luta contra a nova ditadura que se erguia no país. Se o mundo hoje é outro e não estamos mais na década de 1930, o capitalismo segue golpeando e ameaçando as possibilidades da humanidade superar as atuais crises sanitárias, econômica, colocando em cheque a própria democracia brasileira já fragilizada. Mário Pedrosa deixou um legado histórico que não perdeu sua atualidade. A derrota das forças autoritárias e seus pequenos bandos fascistas financiados por grandes proprietários, depende antes de tudo da unidade e mobilização das organizações da classe trabalhadora.

*Everaldo de Oliveira Andrade é professor de história contemporânea na FFLCH-USP. Texto publicado orginalmente no blog A Terra é Redonda e reproduzido com autorização do autor.

 

Referências

Abramo, Fulvio. A revoada dos galinhas verdes, São Paulo: Veneta, 2014.

Abramo, Fulvio e Karepovs, Dainis (orgs.). Na contracorrente da História, São Paulo: Sundermann, 2015.

Andrade, Everaldo de Oliveira. Mário Pedrosa, in: Pericás, Luiz e Secco, Lincoln. Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, São Paulo: Boitempo, 2014.

Karepovs, Dainis. Pas de politique mariô, Mário Pedrosa e a política, SãoPaulo: Ateliê, 2017.

Pedrosa, Mário. A opção brasileira, Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1966.

Trotsky, Leon. Revolução e contra-revolução na Alemanha, São Paulo: Ciências Humanas, 1979.

DocumentosColeção de jornais O Homem Livre, maio de 1933 a fevereiro de 1934. A coleção completa está disponível na página do CEMAP/CEDEM da Unesp.

 

Notas

[i] O Homem Livre, 13, 1933.

[ii]  O Homem Livre, 17, 1933.

[iii] Dainis Karepovs, Pas de Politique Mariô, p. 62.

[iv]  O Homem Livre, 22, 1934. Também citado em D. Karepovs, Pas de Politique Mariô, p. 61.

[v]Mário Pedrosa, “A situação nacional, teses aprovadas pelo comitê central provisório do partido operário leninista em junho de 1937”, in: Abramo, F. E Karepovs, Na contracorrente da História, p. 323.