Uma vitória nas ruas

Três notas sobre o primeiro domingo de junho


Publicado em: 7 de junho de 2020

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.

Valerio Arcary

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.

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1 – Os Atos foram uma inequívoca vitória nas ruas. Eles fortaleceram a luta contra Bolsonaro. Estavam certos os que mantiveram o chamado à organização de Atos neste primeiro domingo de Junho. É bom lembrar que, embora o tema fosse tático, foi muito polêmico e era, realmente, delicado, em função do alto risco de contaminação. A posição diante dos Atos dividiu a esquerda. O PSol foi a favor, o PT se dividiu publicamente, e o PCdB não apoiou. Outras organizações como o PStu, o PCB e a UP estiveram presentes. Mas muitos dos seus compareceram. Prevaleceu a maturidade contra o perigo de provocações. Balanços honestos são construídos tendo como referência o que aconteceu. E não o que cada um pensava antes dos Atos. Foram manifestações de vanguarda, em geral com alguns milhares de ativistas jovens. Quais critérios permitem concluir que foram positivos e acumularam forças para a grande luta que é o combate para derrubar o governo Bolsonaro? Sugiro quatro: (a) desgastaram Bolsonaro, porque demonstraram que os neofascistas não têm o monopólio das ruas; (b) uniram a luta antifascista com a luta antiracista, garantindo a presença e visibilidade das bandeiras do movimento negro em um momento em que uma onda mundial se levanta; (c) levantaram a moral dos que foram, e a disposição de luta é um dos fatores decisivos para o desenlace do que virá; (c) repercutiram sobre a moral dos que apoiaram, mas não foram, porque ajudam a aumentar a expectativa de que é possível vencer. Será muito difícil, mas é possível. Ainda é incompleta a compreensão de que Atos necessitam de disciplina, mas a preocupação sanitária não foi ignorada. Os Atos confirmaram que uma nova geração jovem queria e iria sair às ruas, com a esquerda organizada ou sem ela. Melhor com ela. Os Atos ilustraram, também, que temos que ter cuidado com a omnipotência de pensar que a esquerda tem mais autoridade do que tem. Em algumas capitais e cidades como Belém e São Carlos a repressão impediu a realização de Atos, sinalizando até que ponto as liberdades democráticas já estão sendo destruídas.

2 – Os Atos fortaleceram a linha de que o Fora Bolsonaro deve ser a bandeira minima para a construção de uma ampla unidade de ação. Nada mais, mas também, nada menos do que isso. Não será possível mobilizar com um slogan ambíguo, dúbio, impreciso, abstrato, indefinido, como a “defesa da democracia”, esgrimido em manifestos com a oposição burguesa. A iniciativa saiu das mãos dos liberais, e voltou para as mãos da esquerda. Foi simbólico. Isso não é irrelevante, tem importância na disputa pela liderança da oposição.

3 – Os Atos confirmaram que a luta contra a ameaça de um autogolpe de Bolsonaro será poderosa. A linha quietista de não provocar, aguardar o tempo que for necessário, e nos prepararmos para derrotar Bolsonaro nas eleições demonstrou-se errada. Os Atos revelaram, também, como é errada a linha da ofensiva permanente. O tema ficou explícito com a decisão de alguns grupos que foram sozinhos para a Paulista. O papel do MTST e Boulos foi chave. Foi um gigante.


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