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É hora de afrouxar o isolamento social em Belo Horizonte?

Politiza

Jovem e mãe, Iza Lourença é feminista negra marxista. Iza tem 26 anos, trabalha no metrô de Belo Horizonte e coordena o projeto Consciência Barreiro – um cursinho popular na região onde mora. É ativista do movimento anticapitalista Afronte e do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

É hora de afrouxar o isolamento social em Belo Horizonte? Nesta segunda-feira iniciaremos a primeira etapa da reabertura gradual do comércio, anunciada na última sexta (22) pela prefeitura de Alexandre Kalil.

A rapidez da aplicação da política de isolamento, combinada com auxílio social como a distribuição de cestas básicas para estudantes da rede municipal, garante que hoje a cidade tenha um controle sobre a situação. Como não há testes em massa, o principal indicativo é a taxa de ocupação dos leitos UTI do sistema de saúde, que chega a 74% na cidade, sendo cerca de 40% pacientes de Covid.

Esse relativo controle pode ser colocado em risco! Pesquisas sugerem que o relaxamento do isolamento de forma prematura culminaria em um avanço rápido nas mortes por Covid. A Organização Mundial de Saúde propõe critérios mínimos a serem cumpridos para iniciar a flexibilização gradual do isolamento social. Entre elas, destaco a capacidade do sistema de saúde de detectar, isolar, tratar e TESTAR a toda a população e o controle da contaminação, principalmente entre os profissionais de saúde. Outro indicativo importante é uma sociedade que esteja engajada e informada com as medidas de higiene e novas normas. Estamos cumprindo esses critérios?

O vídeo da reunião ministerial provou, entre outras coisas, que a última preocupação do governo federal é combater a pandemia. Pelo contrário, acham até bom. Assim é possível garantir o desmatamento da Amazônia e fortalecer a grilagem ilegal, por exemplo. Ou mesmo ganhar dinheiro salvando as grandes empresas e vendendo o Banco do Brasil.

Do ponto de vista estadual, Romeu Zema, do partido NOVO, segue a cartilha bolsonarista. Sabem como ele controla a doença? Sem testar a população. Assim, as pessoas estão morrendo por insuficiência respiratória (SARS) e não entram nos números oficiais. Em Minas já temos mil óbitos registrados a mais do que esperado nos últimos anos. Mesmo assim, o governador defende a reabertura do comércio desde o início do surto e vêm pressionando os municípios desde o final de abril com um plano de reabertura estadual.

Diferente dos negacionistas de extrema-direita, o prefeito Alexandre Kalil tem um discurso em defesa do isolamento social e a necessidade de salvar vidas. Nesse cenário tenebroso, foi importante para que a cidade não tenha passado, até agora, pelo colapso do sistema de saúde. Mas no país epicentro da doença, sendo o segundo maior em número de infectados, batendo recordes diários de vítimas e sem acesso à testes em massa, acredito ser precipitado que a cidade inicie o processo de retomada.

As pessoas do grupo de risco seguem em casa e o resto da população volta ao trabalho seguindo regras específicas de não aglomeração, uso de máscaras, distanciamento. É possível concretizar essas medidas quando os ônibus e metrô estão lotados? Quando existe um forte discurso negacionista e perigoso que desinforma toda a população e vem com o carimbo oficial do presidente da República? Sem poder testar massivamente a população, como realizar o controle sobre a situação real de Belo Horizonte?

Além disso, abrir a capital, incentiva a abertura no estado. Sabemos que as pessoas do interior vão procurar leitos em BH, o que é correto. Mas, com a reabertura, estamos preparados para receber a demanda de um estado do tamanho de MG? Isso sem contar a procura por leitos de pessoas de outros estados que precisam de atendimento. Existem muito mais incertezas nessa opção política que a prefeitura decidiu tomar.

Precisamos, em primeiro lugar, começar a testar a população e  intensificar as políticas de renda básica emergencial, como proposta pelas vereadoras do PSOL Cida Falabella e Bella Gonçalves em conjunto com a bancada do PT e PCdoB, complementando o auxílio federal. Garantir os testes e manter o isolamento social ainda são nossas principais ferramentas e as mais comprovadamente eficazes, como a própria cidade demonstra. Assim salvaremos vidas e retornaremos com segurança. Não podemos esperar que centenas de pessoas morram em nossa cidade para voltar ou endurecer as medidas de isolamento. De qualquer forma, a abertura gradual do comércio não é volta a normalidade! Sigamos em casa a maior parte do tempo possível.