Pular para o conteúdo
Colunas

Se o Coronavírus fosse um adolescente negro, eles seriam a favor da quarentena

Tânia Rêgo/Agência Brasil

Direita Volver

Coluna dedicada ao acompanhamento semanal das ações e absurdos dos representantes da extrema direita. Por Ademar Lourenço.

Por ano, 60 mil pessoas morrem assassinadas no Brasil. Uma média de 5 mil por mês. Para os apoiadores do presidente, isto é motivo para ter medo de sair de casa. Nos últimos dois meses, morreram em média 9 mil pessoas de Covid-19 (18 mil ao todo) em nosso país. Isso sem contar o crescimento exponencial da doença. Mas para os bolsonaristas, o risco de contaminação não é motivo para ter medo. Devemos sair de casa normalmente.

Se você fala que a Covid-19 mata mais que bandido, muita gente vai achar um absurdo. Como assim, uma gripe é mais perigosa que um “maloqueiro”? Sim, é. Não é questão de opinião, são números.

Quando a polícia mata um adolescente negro de 14 anos, como aconteceu recentemente no Rio de Janeiro, o “cidadão de bem” bate palmas. Afinal, para ele, esse adolescente tem “perfil de criminoso”, oferece risco. Mal sabe este cidadão que quem oferece risco mesmo é quem sai de casa sem máscara.

Mas o Coronavírus não tem “perfil de criminoso”. É apenas uma bolinha invisível cheia de espinhos. Para o “cidadão de bem”, não desperta o senso de perigo. Se o vírus tivesse a cara de um adolescente negro, aí sim eles seriam a favor da quarentena. Iriam defender até mesmo o Lock Down. Iriam sair de casa com roupa de mergulhador e tomar cinco banhos diários de álcool em gel.

A noção de risco aceitável não é natural. É fruto de disputa política

Você está com sua mãe morta há três dias dentro de casa. O risco da família inteira se contaminar se soma ao cheiro ruim por todos os cômodos. A funerária não tem data para buscar o corpo, pois é muita gente na mesma situação. Mas isso não é motivo para que você deixe de sair e ir ao barbeiro, ora bolas. Na volta, depois de desviar de uma pilha de cadáveres no meio da rua, você sente fome e decide comer um saboroso sanduíche no Madero.

É assim que Bolsonaro quer que os brasileiros se comportem. A economia vai voltar a funcionar se as pessoas simplesmente pararem de se importar com as dezenas de milhares de mortos e continuarem a consumir normalmente. Para isto, é necessário que as mortes sejam normalizadas, façam parte do cotidiano e se tornem uma realidade inevitável e aceitável para a maioria.

Esta é a base da propaganda dos apoiadores do governo. E devemos tomar cuidado. Pode dar certo. O chamado fatalismo é uma ideologia muito forte e com raízes profundas na cultura brasileira. Fatalismo é a aceitação da desgraça como algo natural, com a qual devemos nos acostumar, como um merecido castigo enviado por Deus.

Antigamente era normal que duas a cada cinco crianças morressem antes dos cinco anos. Hoje isto seria considerado um absurdo. Hoje morrer antes dos 100 anos é algo normal. Se a sociedade evoluir, isto pode passar a ser algo inaceitável.

É nosso trabalho explicar pacientemente aos trabalhadores que morrer de Covid-19 é evitável. Que a tecnologia de hoje permite que a gente salve milhares de vidas. Contra nós estão as carreatas da morte e o “E daí” do Presidente.

Hoje boa parte da população entende que cuidados devem ser tomados. Mas ainda tem uma parcela razoável que não se preocupa. O jogo não está decidido. Podemos ganhar e o descaso do governo com a saúde gerar revolta. Podemos perder e regredirmos enquanto civilização. Porque se as pessoas acharem normal que dezenas de milhares morram por falta de cuidado, elas vão aceitar qualquer coisa. Será a porta de entrada para a barbárie.

 

LEIA MAIS

João Pedro Matos Pinto: o direito ao nome e sobrenome