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MUNDO

72 anos da criação do Estado de Israel. Por que precisamos denunciá-lo?

Roberto “Che” Mansilla*, do Rio de Janeiro, RJ

Nesse dia 14 de maio, completaram-se 72 anos da criação do Estado de Israel, surgido em 1948. É um dia para ser lembrado e denunciado1. Afinal qual o significado dessa data para os antigos habitantes da Palestina histórica?

Uma sociedade construída principalmente por árabes-palestinos (que eram a imensa maioria demográfica da região) foram intencionalmente expulsos de suas terras (cerca de 94% pertenciam a eles) e foram tomadas por colonos judeus que, estimulados pela ideologia sionista, migraram para a região da Palestina, em ritmo cada vez mais acelerado nos anos 1930-1940.

A principal justificativa dada pelos sionistas para a instituição do Estado de Israel era de que se tratava de uma “reparação internacional aos sofrimentos padecidos pelo povo judeu” diante do holocausto nazista. E que “uma nova tragédia deveria ser evitada pela força no futuro”. Com esse espírito de vingança, atacaram os palestinos que não tiveram nenhuma participação no genocídio ocorrido na Europa.

Uma sociedade construída principalmente por árabes na Palestina foi erradicada e destruída: era a Nakba (“catástrofe”), pela qual Israel expulsou 800 mil palestinos de suas terras históricas. Uma grande parte destes se tornou refugiados: são quase 5 milhões vivendo em condições sub-humanas em campos da ONU, na Síria, no Líbano e na Jordânia. Começava a “questão palestina” que ainda está longe de uma resolução justa, soberana e com reparação de direitos nacionais para os palestinos.

Israel tornou-se a grande potência militar na Palestina ocupada. É um dos exércitos mais poderosos do mundo, além de ser um grande exportador de armas. Segundo especialistas, o país tem cerca de 200 armas nucleares2. Em Israel, os palestinos constituem cerca de 20% da população e são considerados “cidadãos”, mas a única nacionalidade reconhecida é a judaica, que é a fonte de todas as discriminações. As profissões mais bem remuneradas são negadas aos palestinos, “exceção feita”, como me lembrou Waldo Mermelstein3, “no setor da saúde, no combate ao Covid-19”.4 Os bairros palestinos não recebem permissões de construir (desde 1948), mesmo aquelas, “cuja população tenha aumentado de 150 mil para 1,9 milhões”.5 Estamos falando de uma terra em que seus antepassados viveram por séculos até a chegada dos sionistas! O modo pelo qual os palestinos são comumente denominados em Israel, “árabes israelenses”, foi absolutamente imposta pelo Estado de Israel. Tal denominação, de forma indireta, tende a excluí-los de sua verdadeira identidade palestina.

Outras medidas dificultaram de modo progressivo todo o cotidiano e a rotina palestina. Muito além do desconforto com a situação dos assentamentos ilegais, o muro e a enorme quantidade de checkpoints espalhados pelas cidades árabes-palestinas, os palestinos residentes da Cisjordânia enfrentam um sistema jurídico profundamente desigual. Isso porque enquanto os palestinos são normalmente submetidos a um tribunal militar quando são acusados de “violarem a lei”, enquanto os colonos israelenses são julgados por tribunais civis. Essa é a essência do regime de apartheid existente nas fronteiras de Israel e nelas, segundo Waldo Mermelstein, “o autodenominado estado ‘judeu e democrático’ só funciona sendo democrático para os judeus e judaico para os demais”.6

Torna-se então necessário agora, suscitar algumas reflexões sobre a base ideológica e legitimadora do Estado de Israel: o sionismo, uma forma de colonialismo moderno. Em primeiro lugar, o sionismo levantou um muro artificial com os povos árabes. Dissolveu a história comum e a notória integração que, ao contrário do ocorreu na Europa, as comunidades judaicas haviam alcançado nesses países. O sionismo também demoliu os valores da tradição judaica que tinha um fundamento ético. Seu crime contra o povo palestino representou uma fratura estrutural na sociedade israelense que vive submetido a um estado de psicose coletiva e paranoia bélica. O clima de guerra permanente com seus vizinhos criou uma “patologia de ódio cada vez mais descontrolada”.7 Portanto, o Estado surgido a partir dessa ideologia colonialista, militarista e racista – o sionismo – logo deu início a uma estratégia que é continua e se baseia na expulsão dos palestinos e na crescente ampliação geográfica de Israel. Não é exagero caracterizar esse projeto como limpeza étnica que, em 1948, já havia expulsado 80% dos palestinos e, em 1967, teve um novo salto com a dita “ocupação provisória” do restante da Palestina.8 A dominação de Israel é maior desde que começou a colonização sionista. Dessa forma qualquer desenlace progressista da “Questão Palestina” requer antes de tudo, a derrota do expansionismo sionista.

Os palestinos ficaram dispersos em um território totalmente descontínuo. Sofreram (e sofrem) a aplicação do modelo sul-africano de Bantustão que dilacera seu país em cantões sem comunicação. Nos últimos anos, Israel instrumentalizou uma “desconexão unilateral”9 para remodelar as fronteiras de acordo com sua conveniência. Capturar as terras mais valiosas da Cisjordânia e perpetuar um cerco do grande campo de concentração que se criou na Faixa de Gaza. O eixo dessa política é a absorção definitiva da primeira região e a destruição da segunda. Sobre essa reflexão, Cláudio Katz faz uma interessante periodização dizendo que essa lógica apresenta três fases: “um começo militar (1967-1973), seguido pelo assentamento dos colonos religiosos (1974-1977), culminando com a instalação final implementada pelos governos ultradireitistas do Likud”10.

Vale dizer que na última legislatura (2015-2020) – o quarto sob o mandato de Netanyahu –, já havia sido elaborado um pacote legislativo que desejava estender a aplicação das normas israelenses à Cisjordânia, na chamada Lei de Regularização que legalizava, com efeito retroativo, a presença dos colonos em assentamentos construídos sobre terras de propriedade palestina. Dias atrás foi noticiado que o novo governo israelense de coalização entre Netanyahu e Gantz sinalizou a intenção de promover mais uma anexação de parte da Cisjordânia a partir de 1º de julho11.

Diante de tudo que foi dito, não há dúvida que Israel promove uma limpeza étnica há 72 anos, viola leis internacionais, impõe um criminoso embargo econômico a população da Faixa de Gaza, expande assentamentos ilegais na Cisjordânia, nega a seus habitantes direitos históricos, mantém milhares de presos políticos, incluindo mulheres, crianças e adolescentes12 por se levantarem contra soldados fortemente armados que continuam a promover o expansionismo colonial. Essa terrível realidade se agrava pelo risco do aumento de contaminados pelo Covid-1913, já que os palestinos vivem um cotidiano de grande escassez de abastecimento de água, remédios, testes do vírus, respiradores, equipe médicas e hospitais. No final de abril, por exemplo, militares israelenses invadiram um centro de saúde em Silwan, um bairro palestino localizado em Jerusalém Oriental (ocupada por Israel) que fazia diagnóstico do Covid-19.14

Apesar do poderoso domínio militar israelense, de suas hediondas incursões nos territórios ocupados da Palestina15, de inúmeros crimes, da sistemática violação de direitos humanos (que deveriam ser respondidos no Tribunal Internacional de Haia) e da omissão vergonhosa da maioria dos governos árabes que nunca se comprometeram de fato com a “causa palestina”, a resistência palestina é surpreendente, heroica, como as duas Intifadas (levantes populares que ocorreu em 1987 e em 2000, respectivamente) e diversa. Ela é o principal obstáculo para a vitória definitiva de Israel. Uma nova geração de lutadores se forja, como a jovem Ahed Tamimi16 que se tornou o mais recente e emblemático exemplo de disposição de luta, ao ousar enfrentar com decisão militares, sem outra arma senão sua voz e suas mãos. Nesse sentido, a superação das velhas direções palestinas que mais fizeram concessões ao inimigo do que mobilizá-las para lutar (como fez a Autoridade Nacional Palestina nos Acordos de Oslo17) é uma necessidade.

Recentemente outras formas de mobilização surgiram e cumprem um papel progressista. É o caso do movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) que luta pela igualdade de direitos nas fronteiras de 1948, pelo fim da ocupação e pelo direito de retorno dos refugiados. Mesmo que incida numa parte minoritária de judeus antissionistas (ou pacifistas) é uma importante iniciativa que tem potencialidade em ganhar simpatizantes em outras partes do mundo e servir de pressão externa sobre a política de apartheid de Israel.

Por fim resta uma pergunta cuja resposta encontra oscilações, mesmo em setores da esquerda socialista. Não é possível admitir a proposta de dois Estados, pois significa manter a injustiça histórica da expropriação dos 800 mil palestinos em 1948 e, também, deixaria intacta a máquina de guerra sionista com sua mentalidade colonizadora, pronta para causar novas violações de direitos e usurpações num frágil “Estado palestino”, como seu vizinho. É necessário, então, seguir lutando por uma Palestina una, indivisível, que a única forma de restituir os direitos nacionais do povo palestino: o fim da ocupação (e dos assentamentos) na Cisjordânia, o fim do bloqueio criminoso a Gaza e o direito de retorno dos refugiados. Uma Palestina livre, democrática, laica e fraterna onde convivam harmoniosamente palestinos (muçulmanos e cristãos) e judeus, como existia antes da criação do Estado colonialista de Israel.

TODO APOIO A HEROICA RESISTÊNCIA DO POVO PALESTINO!

LIBERTAÇÃO PARA [email protected] @S [email protected] [email protected] (sobretudo as crianças e adolescentes)!

ABAIXO O ESTADO SIONISTA, RACISTA E COLONIALISTA DE ISRAEL!

 

* Professor e militante da Resistência/PSOL.

* O artigo representa as opiniões do autor e não necessariamente representa as opiniões do Esquerda Online

 

1 Um mês antes da criação do Estado de Israel, colonos sionistas assassinaram 254 palestinos na vila de Deir Yassin. Os sobreviventes foram carregados em caminhões pelos bairros judeus de Jerusalém. Para maiores detalhes ver o ótimo artigo de Ramón Pedregal Casana em https://rebelion.org/que-el-criminal-de-palestina-salga-a-la-palestra/ (Consultado em 14.05.2020)

3Agradeço a Waldo Mermelstein pelas valiosas sugestões que me fez. Sua vida e seu exemplo de luta internacionalista são uma das maiores inspirações que tenho na minha militância. Sua abordagem sobre o drama da “questão palestina” muito me ensinou (e ensina), pois como ele mesmo escreveu sobre esse tema: “as tragédias ensinam, as atitudes inspiram. Não é hora de se calar!” Cf. MERMELSTEIN, Revista da Resistência (PSOL), n.1 (ago-set) 2018, p. 30.

4 O governo israelense não realiza testes de coronavírus para os trabalhadores palestinos vindos da Cisjordânia e recusa o pedido da Autoridade Palestina de testar os trabalhadores que retornam à Cisjordânia. Além disso, ninguém está monitorando as condições de moradia e trabalho dos 20.000 trabalhadores palestinos atualmente dormindo em Israel e trabalhando em empregos definidos como “essenciais”. Maiores informações, ver https://www.haaretz.com/israel-news/.premium-israel-doesn-t-oversee-palestinian-workers-health-amid-coronavirus-1.8783881

5 Novamente agradeço Waldo pelas valiosas informações.

6 MERMELSTEIN, Waldo. “A luta na Palestina hoje”. Revista Socialismo e Liberdade (Fundação Lauro Campos), n. 18, 2017.

7 Uma descrição desse drama é apresentada por Issa Khalaf. “La patologia del poder israelí. Rebelion, 3 de ago. 2006.

8 Depois da chamada Guerra dos Seis Dias, Israel ocupou a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, bem como a as Colinas de Golã e a Península do Sinai (devolvida ao Egito em 1981). Ao menos 500 mil palestinos foram deslocados de suas casas; cerca de metade deles pela segunda vez desde 1948. Desde 1967, a Assembleia Geral da ONU já adotou centenas de resoluções críticas a respeito de Israel, mas que foram sistematicamente ignorados pelo país.

9 KATZ, Claudio. “Argumentos para a Palestina”. Revista Outubro, n. 15, 1º semestre 2007, p. 89.

10 Idem, ibdem.

12 Segunda informações do site Monitor do Oriente, há cerca de 5.000 prisioneiros, incluindo 41 mulheres, 180 crianças e outros 430 mantidos sob detenção administrativa – sem julgamento ou sequer acusação, em Israel.  Ver https://www.monitordooriente.com/20200507-negociando-com-o-inimigo-as-conversas-de-troca-de-prisioneiros-entre-hamas-e-israel/

13 São pouco divulgados e conhecidos os casos de Covid-19 na Palestina. A mais recente notificação foi do dia 13 de maio, em que registou 548 casos nos territórios ocupados. Jerusalém Oriental tem o maior número de casos de COVID-19 na Palestina, representando cerca de 60% do total, enquanto a maioria dos casos foi de trabalhadores palestinos retornando de Israel, situando-se em 74%. Houve apenas 4 mortes. Na Faixa de Gaza há apenas 20 casos e, até então não foi registrada mortes. Para maiores detalhes ver http://www.xinhuanet.com/english/2020-05/13/c_139054204.htm. Para o então surpreendente baixo número de caso e morte na Faixa de Gaza (uma das maiores densidade demográficas do mundo em que os palestinos vivem em condições subhumanas) ver notícia divulgada pela Radio França Internacional https://www.bol.uol.com.br/noticias/2020/05/13/apesar-de-superpovoada-faixa-de-gaza-desafia-previsoes-e-evita-surto-de-coronavirus.htm

14 A esse respeito ver o artigo https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/na-palestina-terror-e-pandemia/ (Consultado em 15/05/2020)

15 Mas também nos campos de refugiados palestinos, como ocorreu em Sabra e Chatila, em 1982, em que milícias falangistas cristãs libanesas executaram centenas de palestinos, com a proteção das tropas de Israel que lhe deu total cobertura.

16 Condenada a 8 meses de prisão (dez. 2017 a julho de 2018) por ter reagido a ação repressiva do exército de Israel em Nabi Saleh, povoado onde vive, na Cisjordânia. A resistência continuará até que a ocupação termine, foram suas primeiras palavras quando voltou para sua casa.

17 Pelos denominados “Acordos de Oslo” (1993) os palestinos renunciavam o direito ao retorno dos milhões de refugiados, com a promessa de um estado palestino minúsculo. Edward Said, o mais renomado intelectual palestino chamou tais acordos de “um instrumento de rendição palestina”. Ver https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2210200006.htm (Consultado em 14.05.2020).