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Não é ignorância, é neoliberalismo

Reprodução TV Gazeta AL

Fila em agência da Caixa em Alagoas para receber auxílio emergencial

Juliana Fiuza Cislaghi

Mestre e Doutora em Serviço Social pelo PPGSS/UERJ, Especialista em Saúde e Serviço Social, Professora Adjunta da Faculdade de Serviço Social da UERJ e pesquisadora do GOPSS – Grupo de Estudos e Pesquisas em Orçamento Público e Seguridade Social. Diretora da Associação de Docentes da UERJ (Asduerj) entre 2011 e 2015 e diretora do ANDES-SN entre 2016 e 2018.

Então dizemos aos idosos fiquem em casa. Os mesmos idosos que foram atacados, em todas as reformas da Previdência, como o motivo do desequilíbrio nas contas públicas, que tiveram suas aposentadorias expropriadas, que estão endividados porque têm empréstimos consignados cotidianamente empurrados pelos bancos. Meu avô morreu convencido que roubavam a aposentadoria dele todos os meses. Era difícil convencê-lo que foi o Estado que, depois dele ter contribuído a vida inteira sobre 10 salários mínimos, só lhe pagava dois.

Então dizemos aos moradores das favelas: fiquem em casa. Aqueles que veem cotidianamente seus filhos espancados, abusados, mortos pelas “balas perdidas” do Estado. Aqueles que vivem todos os dias a roleta russa.

Então dizemos aos moradores de rua: se abriguem, usem máscaras, lavem as mãos. Aqueles que sempre foram invisíveis e devem estar se perguntando por que alguém lhes dirigiu a palavra, repentinamente.

E ainda dizemos fiquem em casa aos trabalhadores precarizados, que sempre ficaram doentes, não é nenhuma novidade, dengue, cólera, câncer e nunca tiveram tratamento adequado no sistema público de saúde. Agora não terá respiradores para todos. Só agora? Vocês têm direito a um benefício para ficar em casa. Temos?

Do outro lado da moeda, a classe média indo para sua casa em Búzios. Tão acostumada a seus privilégios, à falta de empatia, tem certeza que o plano de saúde não faltará se for preciso, porque paga por ele, pela saúde, pela comida, pela educação, e que, portanto, esta tragédia não a atingirá.

A mim parece que sobra, no meio, o que chamamos de bolha, quem sobrou na classe trabalhadora que sobreviveu à total precarização: os funcionários públicos. Que com muita luta conseguiram manter alguns direitos, algum acesso ao conhecimento, algum salário, quase sempre, garantido. Não acho que seja privilégio. De classe certamente não é, mas é uma vantagem, dentro da classe. Também não penso que as parcelas mais desfavorecidas da classe tenham ódio de nós, somos o que restou de atendimento público para elas e seus filhos que em muito nos defendem. Mas não somos iguais e provavelmente nos entendemos pouco, nas nossas lutas e nas nossas estratégias. E eis que agora, estamos nos dando o direito ao ressentimento da sua suposta ignorância.

Isso não foi inventado pelo governo Bolsonaro. Nosso país vive sob a lógica neoliberal pelo menos desde o governo FHC e isso não foi interrompido quando a esquerda chegou ao poder por meio do PT. Isso num país que, ao contrário do capitalismo no centro, sequer pode ter uma memória de direitos de um Estado de Bem Estar, porque aqui ele nunca existiu.

O ciclo petista pode ter avançado em reconhecimento, e então me inspiro em Nancy Fraser que chama esse ciclo histórico de “neoliberalismo progressista”. Política social focalizada, fundamental num país de tanta desigualdade mas imensamente insuficiente para a reversão estrutural dessa desigualdade. Ascensão pela universidade, mais privada do que pública, para segmentos historicamente excluídos, sem abrir mão da meritocracia. Na política econômica tudo ficou praticamente igual, para garantir a governabilidade. Os ganhos para o conjunto da classe trabalhadora continuaram muito menores que suas perdas históricas: econômicas e, sobretudo, de organização e consciência. Cooptada o que a classe tinha de organizado, não acertamos o veado e perdemos, ainda, nossa arma no processo, em referência à Rosa Luxemburgo. Pior, perdemos nossa imaginação para o que parecia o horizonte possível. Voltando à Fraser. O neoliberalismo progressista com sua política de reconhecimento derrotou as tendências mais reacionárias, racistas, misóginas, é verdade e que bom, mas derrotou também toda a possibilidade de uma esquerda antineoliberal. Progressistas ou reacionários, os neoliberais nos lucros do capital se reencontram.

Assim é que Bolsonaro personaliza a volta dos ressentidos: dentro da classe trabalhadora aqueles que perderam suas “vantagens” violentas de status, homens, brancos, heteros, cis, como aponta Silvio Almeida; na classe média, que quer ser burguesia, seus privilégios de Casa Grande na exploração e submissão de seus empregados. Mas afora o grande capital, entre esses trabalhadores que não se reconhecem e se enfrentam, todos perderam.

Quando Bolsonaro diz “vão trabalhar para sobreviver porque ninguém (o Estado) vai ajudar!”, não é a concordância com ele que move a classe trabalhadora precarizada (tirando, claro, o fascismo de verdade, que estou convencida que é minoritário, mas disputa e convence), mas o que ele fala para a classe que sobrevive assim faz sentido, porque não queremos, mas é o real. É sua vida, é o que ela faz, com doença, epidemia, há muitas décadas.

Por isso paremos. Não é ignorância individual, ou não é só. É a experiência histórica da classe trabalhadora que não sabe mais o que é direito, auto organização, dignidade, serviço público, solidariedade. Empatia, para aqueles que estão sobrevivendo em melhores condições, é entender isso, esse é o maior desafio. Partir da realidade da maioria para retomar a imaginação histórica que possa nos levar, superando os ressentimentos entre nossa classe, absorvendo todas as vitórias do reconhecimento, a novos caminhos. Antineoliberais, anticapitalistas, sem concessões.