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TEORIA

Karl Marx estudante de Direito (1835-1841)

Este texto é o segundo de uma série que aborda a vida e obra de Marx

Wesley Carvalho, do Rio de Janeiro,

Desenho de 1836. Marx está sinalizado, com uma seta

Em 1835, Karl Marx foi estudar Direito na universidade de Bonn, a dois dias de distância de sua cidade natal (1). No ano seguinte, iria para Berlim onde concluiria seus estudos em 1841. A universidade berlinense era a principal da Prússia, contando com cerca de 1.700 alunos. (2)

Alguns eventos desta época atraíram a atenção de biógrafos. Um deles é o de que Marx foi preso por “perturbar o sossego noturno e por embriaguez”. O outro tem relação com um duelo. Veiculadas sem cuidado, estas informações podem formar a imagem de um jovem irascível e violento em espaços públicos.(3) Na verdade, a prisão de Marx não foi nenhuma excepcionalidade da vida estudantil. Fazia parte da estrutura universitária a atuação de bedéis que percorriam tavernas para que estudantes se retirassem delas em horários devidos, bem como outras atividades de policiamento similares. Sua detenção, de apenas um dia, se deu no cárcere universitário, um espaço onde eram permitidas visitas e inclusive bebida e jogo, sendo a punição mais significativa a taxa que deveriam pagar por estarem ali. Quanto ao duelo, a referência é uma carta de seu pai onde não fica claro nem mesmo se Marx de fato lutou. O mais provável é que, se de fato houve combate, tenha se tratado de um duelo de esgrima, esporte ao qual Marx se dedicava. Algumas invenções sobre o suposto confronto, entretanto, acabaram sendo bastante repetidas, como o uso de pistolas e um ferimento próximo ao olho. (4)

Durante algum tempo, Karl Marx esteve secretamente noivo de Jenny von Westphalen. Alguns relatos dão conta de Jenny ser uma pessoa desenvolta intelectualmente e de personalidade enérgica. Sua família tinha título de nobreza, mas um baixo e não antigo. Na década de 1830, a renda de sua casa era inclusive menor que a da família de Marx. O casal que os dois formaram era pouco comum em relação à diferença de idade. O mais normal era que um homem da camada social de Marx apenas se tornasse noivo após os 25 anos, depois de já estabelecido em uma carreira, e tendo seis ou sete anos a mais que a mulher. Entretanto, Jenny era mais velha que Marx e, quando tinha 21 ou 22 anos, noivou com ele, que era um estudante de 17 ou 18 em uma cidade distante. O noivado foi bastante apoiado por Ludwig, pai de Jenny, que havia sido uma influência intelectual para Marx na adolescência. (5)

Nos primeiros anos na universidade, uma das principais atividades de Marx era escrever poesias, muitas dedicadas a Jenny. Tinha como principais temas o amor trágico e o culto de um gênio isolado da sociedade. Dedicou-se também a uma novela cômica e a uma peça de teatro. O pai de Marx via com alguma preocupação as atividades artísticas do filho, preferindo que este se concentrasse na carreira jurídica. A primeira coisa que Marx publicou na sua vida foram justamente dois poemas, em 1841. (6 ) Entretanto, enquanto na universidade, suas atividades artísticas não ficaram em primeiro plano por muito tempo. O biógrafo Michael Heinrich levanta a hipótese que o abandono de Marx em relação à poesia e aos escritos ficcionais poderia ter relação com a leitura que fez de Friedrich Hegel, filósofo morto em 1831 e que era a principal referência intelectual na universidade. Através das ideias de Hegel – que, aliás seria fundamental para todo o pensamento que Marx desenvolveria na sua vida -, Marx questionaria a capacidade de através da arte se trabalhar pelo bem da humanidade. Hegel apareceu para Marx como um filósofo que valorizava o realismo, sendo portanto crítico do idealismo e do romantismo presentes na obra lírica do jovem universitário. Ou seja, ao abandonar a pretensão de escritor, Marx estaria rompendo com um certo projeto estético e político. Como o próprio Marx registrou, foi um grande momento de sua trajetória intelectual. (7)


Universidade de Berlim

No curso de Direito em Berlim, dois professores se destacavam. Karl von Savigny compunha a chamada “Escola Histórica de Direito” que entendia as leis justificadas nos costumes e tradições de um povo. Apesar de soar algo democrática, tratava-se na verdade de uma linha reacionária, que mirava em uma imagem do passado alemão para ideologicamente reforçar seus princípios. O outro professor era Eduard Gans. Era de tendência liberal e preocupava-se com questões sociais. Politicamente, defendia uma monarquia como a britânica, o que significava limites ao poder do rei. A divergência entre os dois intelectuais tinha claros significados políticos. (8) Mas no contexto de espionagem e censura, as ideias críticas à monarquia não poderiam tomar muitas formas explícitas. Um aluno de Gans registrou que havia tensão e suspense em suas aulas, mas que o professor tinha um talento especial ao falar de forma que nada fosse comprometedor. Certa feita, Gans anunciou um curso sobre a história de Napoleão, mas o cancelou ao ser informado que isto “desagradaria Sua Majestade.”. Gans, que tinha sua correspondência vigiada pelo governo, também pensava relações de classes sociais e teve algum engajamento em ocasiões de arbitrariedade na Alemanha. Savigny, por outro lado, era anti-iluminista (teve também sua obra criticada por Hegel) e professor do príncipe. 

A filosofia do Direito ocupou bastante Marx, que chegou a escrever um manuscrito de 300 páginas quando esteve na universidade. (9) Mas foi com filosofia e religião que teve sua experiência intelectual mais marcante nesse período de estudante, em debates que animavam a juventude em Berlim com energia crítica e revolucionária.

 

 

NOTAS

1 – MCLELLAN, David. Karl Marx: his life and thought. Londres: the Macmillan Press, 1973. p. 16

2 –  HEINRICH, Michael. Karl Marx  e o nascimento da sociedade moderna. Biografia e desenvolvimento de sua obra.Vol.1 (1818-1841). Tradução de Claudio Cardinali. São Paulo: Boitempo, 2018. p 203.

3 –

Ver por exemplo o capítulo “Berlim, 1838” em GABRIEL, Mary. Amor e Capital.A saga familiar de Karl Marx e a história de uma revolução. Zahar, 2013.

4 – HEINRICH, Michael. Karl Marx  e o nascimento…. pp. 157-62.

5 – Idem. pp. 169-74

6 – MCLELLAN, David. Karl Marx: his life and thought…. pp.20-5.

7 –HEINRICH, Michael. Karl Marx  e o nascimento da sociedade moderna….pp. 222-35

8 – MCLELLAN, David. Karl Marx: his life and thought…. pp.25-6.

9 – HEINRICH, Michael. Karl Marx  e o nascimento da sociedade moderna….pp.192-203

 

 

 

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