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Colunas

Crianças passam fome com a falta da merenda em São Paulo

Secom via Fotos Publicas

O prefeito Bruno Covas. Ao fundo, o governador João Doria.

Silvia Ferraro

Feminista e educadora. Professora de História da Rede Municipal de São Paulo e integrante do Diretório Nacional do PSOL. Ex-candidata ao Senado por São Paulo. Formada pela Unicamp.

Desde o dia 19 de março as aulas foram suspensas na cidade de São Paulo. A rede de educação paulistana é a maior do Brasil, com cerca de 1 milhão de alunos. A merenda escolar é um instrumento primordial para garantir a segurança alimentar de crianças, numa cidade em que existem bolsões da fome e 50 mil famílias em situação de desnutrição.

Com a crise do coronavírus a insegurança alimentar foi agravada pois muitas famílias perderam suas rendas de uma hora pra outra, ou por dispensa do emprego, ou porque a fonte de renda do trabalho informal acabou.

Famílias que já ganhavam pouco e contavam com a merenda pra garantir a alimentação das crianças, agora sem os ganhos, estão vivendo em desespero. É o caso de Natasha Silva, 28, mãe de três filhos e auxiliar de limpeza que foi dispensada por 15 dias pelo patrão. Seu salário de mil reais caiu pela metade, e os três filhos, de 6, 8 e 12 anos, que se alimentavam na escola, estão sem este recurso. (Reportagem da Folha de S. Paulo, em 28/03).

Eu leciono em uma escola com muitos filhos de imigrantes bolivianos que trabalham em oficinas de costura que vendem roupas no Brás, mas com o comércio fechado, a renda dessas famílias diminuiu, já que recebem por peça de roupa.

Esta é a realidade em vários bairros da cidade. A prefeitura anunciou dia 16 que estava estudando como distribuir cestas ou vales durante a quarentena, mas até agora nenhuma saída foi dada.

Além de terem menos recursos para comprarem os alimentos, as famílias também estão tendo que gastar mais com gás de cozinha que teve o preço disparado depois da epidemia. Um botijão de gás está custando uma média de 100,00 e está em falta por que tem gente estocando o produto. Tudo isso pressiona para as famílias a saírem de casa à procura de bicos e doações, arriscando ainda mais a proliferação do vírus. Por isso medidas como a distribuição de cestas básicas para todas as crianças e adolescentes matriculados nas escolas seria um fator de contenção da própria epidemia, além de garantir a alimentação.

Como a fome não pode esperar, em várias escolas professores e funcionários estão arrecadando cestas básicas para casos emergenciais. Na região da Mboi Mirim, o professor Alessandro, através de doações conseguidas na escola, está entregando as cestas na casa dos alunos cadastrados em programas de vulnerabilidade. Esta iniciativa está se multiplicando. Na minha escola, região do Belenzinho, estamos fazendo o mesmo, e no Capão Redondo a professora Regiane relatou que “Vamos montar 150 cestas, a solidariedade foi muito grande”

Mas a solidariedade não vai substituir a necessidade da prefeitura garantir a cesta básica para todos os estudantes pelo tempo que durar a suspensão das aulas. É inadmissível a demora em resolver a situação.