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Colunas

Mentiras genocidas: o negacionismo bolsonarista frente à ameaça do Covid-19

Gilberto Calil

Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor do curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), integrando o Grupo de Pesquisa História e Poder. É autor, entre outros livros, de “Integralismo e Hegemonia Burguesa” (Edunioeste, 2011) e pesquisa sobre Estado, Poder, Direita, Hegemonia, Ditadura e Fascismo.
A coluna se debruçará sobre a dinâmica da luta de classes, com ênfase no papel das organizações de direita, no Brasil e no Mundo. Para tanto, o debate no Brasil perpassa também os significados do petismo e o papel da colaboração de classes na construção desta nova dinâmica social, bem como recuperar o que foi 2013 e seus impactos na luta de classes desde então. Para isso, a coluna inicia com uma série especial quinzenal sobre Gramsci e o Fascismo, recuperando o debate sobre as condições políticas e sociais da ascensão do fascismo.

Desde o criminoso pronunciamento de Jair Bolsonaro no último dia 24 de março, cresceu enormemente nas redes sociais a disseminação de falsas informações sobre a pandemia do Covid-19 e os riscos que representa (ou que supostamente não representaria) ao Brasil. Falsificações, montagens grosseiras e em alguns casos construções mais sutis que usam dados parcialmente verdadeiros para deduzir conclusões inteiramente falsas, tornam-se a tônica e articulam-se com as iniciativas empresariais que pretendem a volta à “normalidade”. Estas iniciativas se intensificaram nos últimos dias, tomando forma com as carreatas da morte, que pretendem a reabertura do indiscriminada do comércio, a manutenção de todas as fábricas abertas e em alguns casos, até mesmo o retorno às aulas em plena pandemia. De forma geral, estes materiais retomam o amontoado de absurdos que constituiu o pronunciamento presidencial, e buscam justificá-las.

Fake News e Negacionismo

A disseminação de fake news é o modus operandi do Bolsonarismo, especialmente evidente desde a campanha eleitoral de 2018. Seu conteúdo varia de acordo com os objetivos e circunstâncias de cada momento – desmoralizar adversários, propagar concepções fundamentalistas, atacar o conhecimento. Seu efeito pernicioso se potencializa em um contexto de calamidade pública, assumindo a forma do negacionismo em relação aos riscos e ameaças expressos pela epidemia de Covid-19. O conceito de negacionismo é oriundo da crítica à subliteratura neonazista que, contra todas as evidências e provas, nega a existência de campos de concentração. O conceito se aplica perfeitamente ao discurso de Jair Bolsonaro de 24/3 e à campanha orquestrada pelo chamado “gabinete do ódio”. Parte substancial da campanha é constituída de falsificações grosseiras, as quais reagem ao acelerado crescimento do número de óbitos sustentando que são decorrentes de outras razões e que foram atribuídos ao Covid-19 para prejudicar Bolsonaro. Os dois comentários abaixo, bastante típicos, foram colocados como comentários à postagem minha no facebook que mencionava a curva de evolução dos óbitos:

Há ainda outra postagem que circulou muito nas últimas horas, postada nos mais diferentes estados, mas afirmando sempre que “o primo do porteiro aqui do prédio morreu pq foi trocar o pneu do caminhão e o pneu estourou no rosto dele. Receberam o atestado de óbito como se fosse Covid-19. Eles estão indignados”.  A sistemática propagação de mentiras como esta, mais do que criminosa, é genocida, pois pretende produzir comportamentos que levariam à multiplicação dos números de contaminados e de vítimas fatais. São falsificações tão grosseiras que não há contraposição racional possível. Esta condição é bastante característica da propaganda bolsonarista. Além disto, efetiva um procedimento de inversão da realidade, na medida em que sabemos que os dados relativos às vítimas no Brasil são insuficientes e têm problemas graves, mas não porque existam mortes falsamente atribuídas ao COVID-19, mas, justamente ao contrário, porque há um grande número de óbitos à espera de confirmação e que não estão contabilizados, afora outros nos quais eventualmente sequer foi feita a testagem, sendo considerados pneumonia ou insuficiência respiratória. Mas há ainda outra forma de desinformação com efeitos semelhantes, ainda que sua construção seja um pouco mais sutil, utilizando informações parcialmente verdadeiras mas tirando conclusões injustificáveis, como indicamos a seguir.

Manipulando números e falseando a realidade

Espalharam exatamente a sensação de pavor, tendo como carro chefe o anúncio do grande número de vítimas na Itália. Um país com um grande número de idosos e com um clima totalmente diferente do nosso. Jair Bolsonaro, 24/3/2020

 

Este segundo conjunto em geral se distingue do primeiro porque não se recusa a admitir que os mortos contabilizados são decorrentes do coronavírus, pois pretende dialogar com um público mais amplo que o espectro do bolsonarismo estrito. Para isto, mobilizam argumentos diversos, quase sempre remetendo ao pronunciamento presidencial, para reduzir a relevância da pandemia e apresentar uma perspectiva de evolução mais favorável, sempre articulado ao argumento de que paralisando a economia o prejuízo seria maior.

  • Argumento climático. Segundo este argumento, o vírus teria baixa propagação no Brasil, em virtude do clima mais quente. Há versões mais fantasiosas (como as que dizem que o vírus não sobrevive a determinadas temperaturas) e outra que afirmam corretamente que o tempo de sobrevida do vírus diminui com clima mais quente, mas omitem que não se pode afirmar que isto modifique substancialmente o ritmo de expansão da pandemia. A hipervalorização do argumento climático deixa sem respostas dados inegáveis, como o fato de que estados mais quentes como Rio de Janeiro (588) e Ceará (322) tem mais casos confirmados que outros de clima mais temperado como Paraná (137) e Rio Grande do Sul (226).
  • Densidade populacional. O segundo argumento é que a expansão no Brasil seria lenta por conta da baixa densidade populacional. Na comparação apresentada, o Brasil tem 23 hab/km2, enquanto a Itália teria 192 hab/km2, e a Espanha 91 hab/km2. É um caso nítido de recurso a uma informação verdadeira, mas usada para conclusão enganosa. De fato, quanto maior a concentração da população, mais favorável é a condição para e expansão da pandemia. No entanto, omite-se que a maior parte da população brasileira vive em estados com densidade populacional muito mais elevada, como São Paulo (177 hab/km2), Rio de Janeiro (365 hab/km2) e Distrito Federal (446 hab/km2), além de que parte dela se concentra em grandes cidades com mais de 7.000 habitantes por km2, como São Paulo, Fortaleza, Recife e Belo Horizonte (IBGE, 2016). Isto sem levar em consideração que a estrutura urbana brasileira é muito distinta, que forma geral nos países citados inexistem favelas e palafitas, e que a população de rua é muito mais reduzida.
  • Índice de mortos por milhão. Uma forma recorrente de minimizar a relevância da expansão da pandemia no Brasil é comparar o número de mortos por milhão de habitantes. Neste momento, o Brasil tem 0,6 mortos por milhão de habitantes, a Itália 166 e a Espanha 140. Na linha de argumentação utilizada, isto significaria que a situação no Brasil estaria sob controle. Para isto, desconsidera a informação mais relevante, que é o estágio de desenvolvimento da pandemia, ou seja, há quantos dias a pandemia está instalada no país, há quanto tempo ocorre a transmissão comunitária e há quanto tempo ocorreu o primeiro óbito. Afora isto, o fato de contar com uma população maior implica em maior possibilidade de expansão da pandemia, e não o contrário.
  • Argumento da co-morbidade. É verdadeira a informação de que a existência de doenças prévias eleva significativamente os riscos. Segundo a última atualização, o índice de letalidade, que é de 0,9% para os que não possuem nenhuma doença prévia, sobe para 10,5% para cardíacos, 7,3% para diabéticos, 6,3% para portadores de doenças respiratórias crônicas, 6% para hipertensos e 5,6% para pacientes oncológicos.[1] Desta informação verdadeira, nem sempre apresentada de forma correta, extrai-se uma conclusão estritamente eugenista, que naturaliza e minimiza as mortes, com o argumento de que todos os mortos, ou “são velhinhos” (como se isto significasse que não devem ser protegidos) ou “iriam morrer de qualquer forma”. Ora, um indivíduo portador de qualquer uma das patologias elencada, desde que a mantenha sob controle, pode ter décadas de vida saudável. Pportanto é absolutamente enganosa a argumentação que faz parecer que já estariam todos à beira da morte.
  • Argumento etário. É provavelmente o mais utilizado e se desdobra em diferentes argumentações, cujo exemplo mais elucidativo é a fala de Bolsonaro de que “o que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos”, e que portanto os demais deveriam seguir a vida “normal” sem preocupação. Assim pretende sustentar que quem tem menos de 60 anos não tem com o que se preocupar, a não ser “em não transmitir o vírus para os outros, em especial aos nossos queridos pais e avós”. Sem falar na afirmação absolutamente fantasiosa de que “90% de nós não teremos qualquer manifestação caso se contamine”, algo tão dissonante de toda informação disponível que nem há como contrapor. No mesmo sentido, Bolsonaro já havia antes afirmado que “a Itália é uma cidade… é um país parecido com o bairro de Copacabana, onde cada apartamento tem um velhinho ou um casal de velhinhos”.

O cruzamento dos índices até aqui consolidados de letalidade com o quadro a população brasileira indicam um quadro radicalmente distinto. O índice de letalidade de acordo com faixas etárias, até este momento é o seguinte:

A partir disto, é possível fazer um exercício, cruzando este percentual de letalidade com a composição etária da população brasileira, de forma a determinar qual seria o teto de óbitos, em uma hipotética (e irreal, temos claro) situação de contaminação de toda a população do país, sem considerar o fato de que com o colapso do sistema de saúde a letalidade aumentaria e que se produziria também o aumento de mortes decorrentes de outras causas:

População Brasileira em 2018 (209.300.000)

Idade
%
Pop.
Total
%
Letalidade
Total
Até 10 anos
13,2%
27.676.600
0
0
11 a 20
15,3%
32.022.900
0,2%
64.046
21 a 30
14,7%
30.767.100
0,2%
61.534
31 a 40
14,8%
30.976.400
0,2%
61.952
41 a 50
13,9%
29.092.700
0,4%%
58.185
51 a 60
12,2%
25.534.600
1,3%%
331.949
61 a 70
8,9%
18.627.700
3,6%
670.597
71 a 80
4,8%
10.046.400
8%
803.712
+ de 80
2,2%
4.604.600
14,8%
681.149
2.737.124

Que fique claro: não estamos considerando provável a hipótese de contaminação de toda a população, apenas enfatizando que nossa composição etária absolutamente não justifica minimizar os riscos e a dimensão da ameaça que enfrentamos. Se por hipótese, por absurda que seja, considerássemos que por alguma solução mágica fosse possível seguir a indicação presidencial e “tomar cuidado” de forma a não transmitir o vírus a ninguém com mais de 60 anos, mas tendo em contrapartida a contaminação do restante da população, teríamos, só aí, a morte de mais de 575.000 brasileiros de menos de 60 anos, os quais, segundo recomendação presidencial,  não precisam se preocupar, a não ser em não transmitir o vírus aos próprios pais e avós. Nossa intenção não é realizar projeções abstratas, mas indicar parâmetros que mostram o quadro que podemos enfrentar se seguirmos o caminho preconizado por Bolsonaro. Com a contaminação de 20% da população (uma decorrência quase inevitável da manutenção da “vida normal”), por exemplo, já teríamos mais de 500.000 vítimas fatais. Temos o dever ético e político de impedir que isto se concretize!

Nossa ênfase, portanto, não deve ser nos sombrios prognósticos, mas na afirmação da urgente necessidade de confrontar a desinformação e a campanha de mentiras e garantir condições para que se tornem efetivas as necessárias e urgentes medidas de isolamento social, para uma efetiva política de supressão da pandemia no país. É necessário #pararpelavida.

 

[1] worldometers.info

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coronavírus