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Nem morrer de vírus, nem morrer de fome: aonde vamos?

Valerio Arcary

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

Nem morrer de vírus, nem morrer de fome. Há um outro caminho. A imensa maioria do povo está estarrecida diante da crueldade das opções que estão sendo apresentadas pelas duas alas da classe dominante.

Tanto Bolsonaro quanto Doria, Maia ou Toffoli, Witzel ou Zema estão de acordo em descarregar sobre os trabalhadores os custos da crise, o desamparo dos informais, a redução salarial de quem tem contrato ou do funcionalismo, e manter o teto de gastos da PEC 95.

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Mas a crise mudou de patamar a partir desta semana. Parece incrível, mas, em menos de um ano e meio de mandato de Bolsonaro, a complicada e conflitiva sociedade brasileira está em uma situação de dualidade de poderes entre o governo Federal e os governadores. Bolsonaro girou e desautorizou o seu próprio ministro da Saúde. Ninguém sabe se Mandetta se centraliza pela linha do Planalto, ou se vai para a demissão.

A conjuntura deslocou de forma tão esdrúxula que Dória se posiciona em oposição a Bolsonaro diante da pandemia. O amplo campo político reacionário que se estruturava em torno da defesa da governabilidade e garantiu a aprovação da reforma da previdência, simplesmente, explodiu. Não esquecer que Bolsonaro tem um projeto bonapartista e já pediu estudos sobre a implantação de estado de sítio.

Bolsonaro fez um discurso criminoso, mas não está sozinho. É um neofascista irresponsável, mas há um método neste discurso perturbado, delirante, surreal. Bolsonaro segue Trump. Uma fração nacional imperialista norte-americana que se lançou em uma aventura para preservar a qualquer preço o lugar dos EUA no sistema mundial. O editorial de hoje do Wall Street Journal tinha dado a linha, alertando que a depressão seria pior que a pandemia.

Bolsonaro responde aos interesses de classe em que se apoia. Entre salvar vidas, evitando um calamidade nos hospitais e salvar negócios, fez uma escolha. São mais de trinta milhões aqueles com mais de 60 anos.

Se a taxa de letalidade for equivalente ao que se conhece, internacionalmente, serão muitos milhares de vidas ameaçadas, talvez mais. Bolsonaro dobrou a aposta, quando Boris Johnson recuou na Inglaterra. Decidiu defender a estratégia de que o contágio em massa é o mal menor, para responder à pressão de uma fração da burguesia apavorada com a inevitável recessão.

Há um consenso científico entre especialistas de todas as áreas envolvidas de que a estratégia de distanciamento social, a quarentena, é a única resposta que pode atenuar o cataclismo nos hospitais.

Não há saída que não seja desacelerar o contágio e ganhar tempo. A ciência admite que sabemos ainda muito pouco sobre a biologia do vírus. A ciência é humilde, mas é a nossa maior esperança de que se poderá descobrir medicamento ou vacina. A ciência pede aos governantes do mundo algo simples, mas precioso: tempo. Bolsonaro é um primitivo, um maníaco. Tem que ser detido.

Mas há duas linhas em confronto aberto diante da pandemia. As duas linhas dividem a classe dominante brasileira em duas frações. As duas alas têm presença no poder de Estado. Estamos em situação de poder dual.

Vinha prevalecendo a linha defendida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) que prioriza a contenção do contágio a qualquer preço para salvar milhões de vidas. Esta linha foi acolhida com atraso pelos governos da Itália, Alemanha e Estado Espanhol. Boris Johnson tinha defendido uma linha oposta, mas se viu obrigado a recuar.

A linha é humanitária: implantação gradual do distanciamento social, enquanto se procurava garantir um mínimo de capacidade nos hospitais. A próxima etapa seria garantir a disponibilidade de um estoque para testes em massa. O argumento que sustenta esta linha é que seria incontornável uma suspensão da atividade econômica como um mal menor diante de um cataclismo.

Mas Trump estava contra. E Bolsonaro girou para um alinhamento com Trump. A linha defendida por Bolsonaro é aceitar o contágio em massa, e uma taxa de letalidade elevadíssima, mas concentrada entre os idosos, como um mal menor diante da depressão.

A subestimação do impacto desta necropolítica poderá ser devastador para o futuro do governo. Esta linha obedece aos interesses do nacional imperialismo norte-americano acossado pelo crescimento da China.

Aparentemente, a linha defendida por Bolsonaro é minoritária na classe dominante, mas mantém ainda muita influência na classe média e audiência popular. A boa novidade é que maioria da classe trabalhadora está se deslocando para a oposição. Ela é a portadora da esperança.

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