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MUNDO

A nova situação política na Colômbia

David Cavalcante, de Recife (PE)
Presidência da República / Colômbia

Ivan Duque e Donald Trump, em reunião bilateral

Ao contrário do vizinho Equador, a Colômbia não tem tradição contemporânea de tumbar governos pela via da mobilização popular. Neste caso, podemos afirmar que a Greve Geral do 21 de novembro de 2019 e a jornada de lutas que se abriu a partir daí inaugurou uma nova situação política naquele país que desde 1999, final do governo de Pastrana (1998-2002), havia firmado o Plano Colômbia com o imperialismo americano que resultou numa presença direta da DEA e da CIA na cena política e nas políticas de segurança interna do Estado.

A justificativa do Plano Colômbia foi “a guerra às drogas”, mas de fato a estratégia era transformar o território colombiano na principal base militar e de serviço de inteligência dos EUA no Cone Sul, num primeiro momento, a serviço do combate aos movimentos guerrilheiros (FARC e ELN principalmente), mas na sequência para servir de apoio político e operacional para violentas ações políticas e militares nos países vizinhos, notadamente contra a Venezuela soberana.

Os dois governos de Álvaro Uribe (2002-2010) aprofundaram a linha pró-imperialista iniciada pelo seu antecessor, recrudescendo as fumigações generalizadas contra o plantio de coca que atingiu a vida de milhares de pequenos e médios agricultores e populações indígenas combinadas com ofensivas militares estatais contra os movimentos guerrilheiros, em comum acordo com os sanguinários grupos de extermínio paramilitares, igualmente em associação com os carteis do tráfico de cocaína aliados do governo. Lembremos que o contexto mundial foi o auge da contraofensiva militar imperialista no mundo que se inicia em resposta aos atentados das Torres Gêmeas de 11 de setembro de 2001 com a chamada guerra preventiva.

Naquele contexto, Uribe em associação com o governo de George Bush filho, passa a tratar os movimentos guerrilheiros como grupos terroristas, atribuindo-osa permanente associação com o tráfico de cocaína. A política de guerra às drogas prevaleceu e a estratégia foi exterminar o “narcoterrorismo”, leia-se os movimentos guerrilheiros e na esteira perseguir e assassinar o ativismo social.

A suposta“guerra ao terrorismo” envolveu bilhões de dólares do tesouro norte-americano e da União Europeia, transformando a Colômbia no foco das principais ações militares e de inteligência do imperialismo no Cone Sul.

O Plano Colômbia teve um orçamento inicial de US$ 1,32 bilhões, dos quais US$ 860 milhões eram para a Colômbia, com 74,68% diretamente para operações e tecnologias militares e policiais. Os recursos previstos foram de US$ 7,5 bilhões, dos quais US$ 3,52 bilhões vindos do exterior, geridos por organismos imperialistas de ajustes e créditos (BM, FMI, BID), ficando o restante a cargo do governo colombiano.

A tal guerra contra o tráfico de drogas não impediu que 95% do consumo de cocaína nos Estados Unidos ainda hoje tenha origem na Colômbia, revelando que o principal objetivo do imperialismo sempre foi tentar derrotar os movimentos guerrilheiros e o ativismo social. Mas no ano de 2019, novos ventos sopraram para ajudar a mudar o cenário das lutas populares e da relação de forças entre as classes.

A defesa do Acordo de Havana e a virada do 21 de Novembro

A Colômbia é um dos países onde mais se assassina ativistas e dirigentes sociais. Segundo um relatório do Instituto Colombiano de Estudos para o Desenvolvimento e Paz (Indepaz), entre 1º de janeiro de 2016 e 20 de maio de 2019, 837 líderes sociais, incluindo mais de 700 defensores dos direitos humanos e 135 ex-combatentes das FARC foram assassinados no país.

Por outro lado, os impactos para a existência de uma massa migratória recorrente sempre foram gigantes. Segundo a ACNUR, em 2016, a Colômbia foi o país com o maior número total de deslocados internos do planeta, com cerca de 7,4 milhões de deslocados internos registrados. Os deslocados internos são as pessoas forçadas a deixar seus lares por razões similares as dos refugiados (perseguições, conflito armado, violência generalizada, grave e generalizada violação dos direitos humanos), sendo que dentro do território nacional.

As sequelas da guerra civil na sociedade colombiana são gigantes, com um saldo de mortos de aproximadamente 215.000 civis e 46.813 combatentes, segundo o Centro Nacional de Memória Histórica- CNMH. Por isso, também a bandeira do respeito ao Acordo faz parte das mobilizações do atual Comando Nacional de Greve da Colômbia como uma pauta democrática reivindicada pela grande maior dos movimentos sociais e da sociedade civil daquele país.

O Acordo de Havana passou a ultrapassar as aspirações de desarmamento das FARC, pois chegou a ir a referendo, onde metade de população votou a favor. Ocorre que a ruptura de partes do Acordo de Havana por parte do governo Duque gerou as condições para novos assassinatos de ex-combatentes da guerrilha já desarmada.

O antecessor do atual Presidente, Juan Santos, apesar de ter sido Ministro da Defesa de Uribe, agarrou a oportunidade de se mostrar ao mundo e internamente como se fora um pacificador da nação, jogando todo o seu peso para concluir após 4 anos de negociação para o desarmamento com a direção das FARC, em junho de 2016, o Acordo de Havana. Importante salientar que este acordo ocorre após 5 décadas de luta armada e após uma década de retrocessos para uma guerrilha que já chegou a controlar cerca de 20% do território nacional com cerca mais de 10 mil membros e que teve deus principais dirigentes eliminados.

Quebrando essa difícil herança histórica contemporânea, explode a Greve Geral de 21 de Novembro. O 21N foi espetacular, pois abriu uma nova agenda de relação de forças para as mobilizações diretas, dirigidas pelas organizações sociais e políticas de esquerda do país,transferindo a pauta política da agenda estatal repressiva permanente contra o tráfico de drogas e contra a guerrilha para as direções operárias, camponesas e dos setores oprimidos da sociedade e suas organizações legítimas, em uma ampla frente de unidade de ação contra o atual governo Ivan Duque, maior serviçal do imperialismo na região junto com Bolsonaro.

Uma pedra no meio do caminho

 Ivan Duque vem seguindo a ferro e fogo a linha do imperialismo que sob o governo Trump e adotou uma linha de buscar revisar alguns termos essenciais do acordo de paz para tentar extraditar ex-dirigentes para serem julgados no território do império para criminaliza-los como traficantes, daí o motivo do racha das FARC (agora partido político) gerando um retorno à guerrilha do grupo que rompeu com a direção principal, além do cancelamento das negociações com o também movimento guerrilheiro, Exército de Libertação Nacional (ELN), que já estava em curso com o governo antecessor.

Por outro lado, a Colômbia sob o governo Duque tem sido o principal entreposto geopolítico e militar para as operações do imperialismo contra a Venezuela, inclusive como base de operações de mercenários que realizam incursões de sabotagem no país vizinho, entre as quais uma tentativa direta de assassinato contra o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.

Duque também tem sido o braço direito da OEA e de seu Secretário Geral, Luis Almagro, fiel escudeiro dos Estados Unidos, para reuniões e ações diplomáticas contra a Venezuela, servindo de apoio ao golpista ao fantoche Juan Guaidó e ao imperialismo nas ações farsescas de ajuda humanitária e tentativas de invasão do território venezuelano, todas até agora derrotadas e desmoralizadas.

Neste contexto se formou o Comitê Nacional de Greve unificando dezenas de movimentos para lutar contra o projeto de reforma previdenciária e trabalhista, agregaram várias frentes sociais e setores da classe trabalhadora. Aí também se soma o apoio parlamentar de pelo menos 26 senadores, dos 111, bem como de 22 dos 170 deputados.

Mas 2019 entrará para a história colombiana e latino-americana a emergência da nova agenda política pautada pelas dezenas de organizações dos trabalhadores, camponeses e indígenas na Colômbia.A direita reacionária dirigida principalmente pelo uribismo já vinha perdendo força desde as eleições regionais e municipais de outubro, onde inclusive na Capital, Bogotá, foi eleita a primeira mulher lésbica como prefeita, Cláudia Lopez, com um programa de centro-esquerda e ambiental, mas o mês de novembro de 2019, aberto com a Greve Geral do 21N de fato transforma Bogotá e as ruas das principais cidades daquele país em verdadeiros caldeirões humanos de protestos, bloqueios e marchas populares.

As gigantescas mobilizações levaram milhões às ruas que transbordaram toda indignação dos setores explorados e oprimidos contra o governo Duque, no entanto o escudeiro de Trump ainda não foi derrotado. Neste ano 2020, já começou com mais de 25 assassinatos de dirigentes sociais e agenda de espoliação e superexploração dos trabalhadores não foi barrada ainda, apesar de temporariamente freada a reforma da seguridade social e trabalhista, bem como a caída do Ministro da Defesa.

O movimento por sua vez começou a retomar sua agenda para organizar novas ações coletivas e mobilizações, após o refluxo do final de 2019. Os professores marcaram dois dias de greve nacional para o próximo 20 e 21 de fevereiro e há novas datas nacionais de luta para o 25 de março e 16 de abril.

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