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OPRESSÕES

O Feminismo BBB e as mulheres da vida real: é possível falar de GirlPower para as mulheres trabalhadoras?

Gladys Pontes*, de Fortaleza (CE)
Reprodução / TV Globo

Há muitos anos não assisto televisão, muito menos o famigerado Big Brother Brasil, que esse ano realiza a sua 20ª edição. O que me fez passar alguns minutos do meu dia assistindo a programação do reality foi a repercussão do caso de assédio totalmente explícito, praticado pelo integrante Petrix. O participante foi amplamente criticado nas redes sociais e a discussão tomou tanta visibilidade que o agora ex-BBB foi intimado a prestar esclarecimento sobre o caso na polícia. 

É importante ressaltar o perfil de mulheres que está presente no reality, para melhor compreender o fenômeno: sua maioria branca, classe media e com acesso à educação formal, muitas empresárias. Outro elemento importante é a disseminação da palavra GirlPower, que não é de se admirar a proporção que ela tem tomado no vocabulário das jovens, viabilizada pelas mídias digitais e que também tem tomando conta do discurso das sisters. O que está por trás do GirlPower e do seu discurso é o feminismo liberal. O feminismo que fala sobre empoderamento (sob a lógica individual), a representatividade feminina e ascensão social de mulheres no mundo capitalista. Agora devemos nos perguntar: para quais mulheres esse feminismo se torna possível? As que suportam a violência doméstica cotidianamente para conseguir alimentar os seus filhos? As que estão na informalidade ou simplesmente não conseguem um emprego por não serem escolarizadas? As que estão sendo usadas pelo tráfico de drogas? Não! Para essas mulheres essa palavra GirlPower nem possui significado. 

Mas o que hoje está nos trending topics do Twitter é a articulação entre as mulheres da casa para combater as posturas machistas do grupo masculino. Precisamos entender que, fazendo uma análise classista da temática, não acreditamos que seja negativa a tentativa de união entre as mulheres, com o objetivo de fortalecer a tática de jogo e também de combater o machismo que incomoda e constrange diariamente as integrantes no convívio da casa. Uma das participantes, Rafaela, conhecida por seu ativismo e por criticar constantemente as posturas machistas dos homens da casa, falou às outras mulheres sobre a importância de “inspirarem” outras as mulheres, em um momento em que a luta das mulheres é por respeito. Será mesmo que a luta das mulheres é tão somente por respeito? 

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, houve um crescimento de 0,8% dos casos de violência doméstica no país, registrando um caso a cada 2 minutos (FBSP, 2019). Além disso, o Atlas da Violência (IPEA; FBSP, 2019), divulgou o crescimento de 30,7% do número de mulheres assassinadas, entre os anos de 2007 e 2017, em que se registrou 4.936 mortes de mulheres vítimas de violência, totalizando cerca de 13 assassinatos por dia. A taxa de “homicídios de mulheres” não negras teve crescimento de 1,6% entre 2007 e 2017, enquanto a taxa de homicídios de mulheres negras cresceu 29,9% (IPEA; FBSP, 2019), mostrando o quanto a questão racial perpassa a questão da luta das mulheres pela vida. Sim, a luta é pela vida, pois as mulheres estão sendo assassinadas. 

Diante desses dados alarmantes, qual é a nossa tarefa militante? Disputá-las sobre a compreensão de um feminismo, mas não um feminismo que as diga que é “ok” ser explorada pela patroa branca porque ela é quase da família, afinal somos todas mulheres e a “sororidade” nos une. Precisamos de um feminismo que lute pela vida das mulheres negras e também de periferia, pelas LGBTs, pelas indígenas, pelas quilombolas, pelas imigrantes. É deseducador dizer para as mulheres da classe trabalhadora que se ela  se esforçar, um dia ela também será vai ser patroa, porque lugar de mulher é onde ela quiser. No capitalismo, que produz e reproduz a desigualdade social, basta mesmo querer? Mas o feminismo liberal vai saber utilizar a maneira certa para tornar esse discurso aceitável.

É importante sim que as mulheres se unam, mas com as mulheres negras e da classe trabalhadora, para que haja uma transformação radical dessa sociabilidade, que nos coloca sempre do lado onde a “crise” capitalista arrebenta primeiro. E somente um feminismo classista, anticapitalista e antirracista, de orientação marxista, é capaz de apontar para esse caminho. Podem nos acusar de sonhadoras, por almejar uma sociedade livre do patriarcado, do racismo e da classe, mas não podem jamais nos acusar de desonestas, como as que afirmam que é possível alcançar a igualdade de gênero no capitalismo.

 

*Gladys Pontes é Psicóloga, pesquisadora sobre feminismo, militante do Afronte em Fortaleza, Ceará*