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Três problemas teóricos e uma aposta estratégica

Valerio Arcary

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

O marxismo como a ciência deve ser, teoricamente, humilde. Atribui-se a Noam Chomsky uma elaboração instigante sobre a construção do conhecimento. Ele afirmou que nossa ignorância pode ser organizada na forma de problemas e mistérios.

Um problema é uma questão nova que deve desafiar nossa curiosidade. Ou o desejo de conhecer o que sabemos que não sabemos. Um problema é algo que deve ser formulado como uma pergunta, e pode ser resolvido com uma pesquisa. Diante de problemas podemos construir hipóteses. Os desdobramentos da investigação do objeto de estudo, e o debate das diferentes hipóteses abre o caminho. Abrir o caminho é a descoberta de quais ideias estavam mais erradas.

Um mistério é algo muito diferente. Mistério é aquilo que provoca nosso espanto. Diante de um mistério ficamos apreensivos, estupefatos, perturbados, ou maravilhados, mas não temos condições de encontrar uma resposta. Simplesmente, não temos a menor ideia. Com o tempo, mistérios se transformam em problemas, porque o conhecimento é um processo.

Estamos diante de três novos problemas teórico-programáticos complexos e com possíveis desdobramentos trágicos, senão calamitosos. Nenhum deles é um mistério. São três grandes conflitos, cada um com seus ritmos próprios de amadurecimento. Devem ser desenvolver em forma desigual, porém, combinada. A questão do tempo das três crises é central, e está longe de ser clara: (a) a possibilidade de que a próxima crise econômica do capitalismo se transforme em uma depressão mundial mais grave do que a crise de 1929; (b) a possibilidade de que a crise geopolítica potencializada pelo crescimento da China ameace a supremacia norte-americana no sistema internacional de Estados, portanto, o perigo de guerra mundial; (c) a possibilidade de que a crise ambiental provocada pelo aquecimento global não seja controlada, e venhamos a sofrer, nas próximas décadas, desastres incontornáveis.

Existe a possibilidade, também, que as três crises se agravem, simultaneamente, em um cenário apocalíptico. Um marxismo aberto é aquele que dialoga com as investigações que a ciência mais avançada do tempo em que vivemos produz. Podemos não saber as respostas, mas devemos formular as perguntas corajosas. Os três problemas são cruciais para o futuro.

Diante dos três problemas encontraremos análises negacionistas e catastrofistas. Mas não são perigos simétricos. São, qualitativamente, distintos. O negacionismo é, incomparavelmente, mais grave. Negacionismo não deve ser confundido com ceticismo. Um saudável ceticismo crítico é indispensável em qualquer campo de investigação. Os negacionistas são aqueles que rejeitam o consenso científico. O marxismo revolucionário deve ser hostil a teorias de conspiração. O cálculo de probabilidades é um campo da ciência que merece ser levado a sério.

O primeiro problema nos remete à dinâmica da economia no século XXI. A ideia negacionista de que o capitalismo teria superado a pulsação na forma de ciclos que alternam expansão e contração não tem fundamento. A crise de superacumulação de 2008 só foi superada depois de uma massiva desvalorização e destruição de capital. O que prevaleceu desde então foi um gigantesco endividamento estatal na forma de relaxamento monetário ou QE (Quantitave Easing).

O crescimento econômico das potências centrais, em ritmo catatônico-vegetativo, não ilude as sequelas sociais e políticas que explicam a eleição de Trump e o Brexit, e tem potencializado o crescimento da extrema-direita. Existem duas hipóteses em discussão entre os economistas marxistas. A primeira é que a crise é iminente porque já estaríamos, outra vez, diante de uma insustentável pirâmide de capital fictício, embora seja imprevisível qual será desta vez o gatilho ou faísca, e a dimensão. A segunda é que a força da ofensiva internacional contra os direitos dos trabalhadores e do povo, portanto, as novas condições de superexploração, possa adiar a forma explosiva da crise. O sistema ganha tempo, à custa de um aumento global da desigualdade social. Mas não, indefinidamente.

O segundo problema nos remete ao tema da decadência lenta, porém, contínua da supremacia norte-americana e a ascensão da China. A ideia negacionista de que a globalização era a antessala de uma época de paz, prosperidade e democracia, evidentemente, não se confirmou. Nenhuma potência, nos últimos 350 anos ascendeu à posição dominante sem guerra. Nenhuma nova potência foi integrada ao centro do sistema mundial de Estados, desde a assimilação do Japão como imperialismo associado sem Forças Armadas, ao final da Segunda Guerra Mundial. A disputa pela hegemonia entre Alemanha e Inglaterra esteve na raiz das duas guerras do século XX. O Reino Unido só aceitou o seu deslocamento como potência dominante, na forma de uma associação privilegiada com os EUA, diante do perigo de uma onda revolucionária na Europa continental depois da derrota do nazi-fascismo.

Existem duas grandes hipóteses: (a) a potência do crescimento chinês continua a ser tolerada pelos EUA, ainda que com acesso mais restrito ao financiamento externo, e renegociação das condições comerciais dos últimos vinte e cinco anos; (b) o conflito entre os EUA e a China se transforma em uma nova corrida armamentista, e abre uma etapa de guerra fria, com todas as possíveis consequências.

O terceiro problema nos remete à crise ambiental provocada pelo aquecimento global. A ideia negacionista de que teria causas naturais é insustentável. A Terra já conheceu várias transformações no seu passado de milhões de anos. O clima já foi muito mais quente, e não havia geleiras, e muito mais frio, com várias glaciações. Mas estas mudanças se explicam por causas naturais: variações na atividade solar, irrupções vulcânicas, deslocamento na posição dos polos e até na órbita planetária.

As evidências de que o aquecimento global é provocado pela atividade humana são incontroversas Existem dois cenários previsíveis entre os especialistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). A primeira defende que já é inevitável uma elevação da temperatura média acima de 1,5 °C. Seria o máximo tolerável antes de se produzirem consequências irreversíveis. Num cenário de elevação de 3,5 °C se prevê a extinção provável de até 70% de todas as espécies hoje existentes, um cataclismo.

A aposta estratégica dos socialistas deve repousar em um robusto otimismo de que a classe trabalhadora e a maioria de muitas centenas de milhões de pessoas oprimidas não deu ainda a última palavra. São a força social mais ponderosa da história. Não caminharão para o abismo da destruição da vida civilizada sem lutar. Tropeçarão, mas voltarão a se levantar. A eles pertence o futuro. Levam nas suas mãos uma esperança do tamanho do mundo.