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Colunas

A culpa das mulheres

Chaco Urbano (Argentina)

Perfomance ‘Un violador en tu camino”

Gilberto Calil

Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor do curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), integrando o Grupo de Pesquisa História e Poder. É autor, entre outros livros, de “Integralismo e Hegemonia Burguesa” (Edunioeste, 2011) e pesquisa sobre Estado, Poder, Direita, Hegemonia, Ditadura e Fascismo.
A coluna mensal se debruçará sobre a dinâmica da luta de classes, com ênfase no papel das organizações de direita, no Brasil e no Mundo. Para tanto, o debate no Brasil perpassa também os significados do petismo e o papel da colaboração de classes na construção desta nova dinâmica social, bem como recuperar o que foi 2013 e seus impactos na luta de classes desde então. Para isso, a coluna inicia com uma série especial quinzenal sobre Gramsci e o Fascismo, recuperando o debate sobre as condições políticas e sociais da ascensão do fascismo.

É indisfarçável o incômodo de muitos homens com as manifestações feministas promovidas através da encenação da performance Um violador em tu caminho, criada pelo coletivo #lastesis e logo disseminada no mundo todo. (1) As reações são as mais diversas. No Peru, um grupo religioso ultraconservador convocou agressivas manifestações aos gritos de “não sou estuprador”. Na Turquia, a polícia atacou violentamente a manifestação das mulheres e prendeu diversas delas, denunciadas por “crime contra o Estado”, acusação que pode levar a dois anos de detenção. Por aqui já é habitual a violenta campanha de difamação disseminada pelas redes bolsonaristas. Mas para além disto, o episódio tem ensejado outra reação igualmente perversa, ainda que oriunda de círculos antibolsonaristas, pretensamente progressistas.

Trata-se da responsabilização do movimento das mulheres e seu suposto radicalismo, em uma análise que condena o feminismo pela falta de percepção de qual seria o “momento oportuno” para se manifestarem. Nesta perspectiva, no limite, as ações do movimento feminista seriam responsáveis pela ascensão e vitória eleitoral de Jair Bolsonaro. Esta interpretação se expressa e se reproduz em comentários machistas nas redes sociais, que repetidamente propõem que o movimento #EleNão teria sido responsável pela vitória eleitoral de Bolsonaro. Esta é certamente uma explicação cômoda, uma vez que desobriga à reflexão mais profunda (2) e, em uma análise superficial, parece confirmada pelo fato de que logo depois das manifestações de 29 de setembro de 2018 houve aumento das intenções de voto em Jair Bolsonaro. (3)

O #EleNão foi uma mobilização realizada a partir da convocação feira por inúmeras organizações feministas, que reuniu centenas de milhares de pessoas em mais de cem cidades, denunciando o machismo do candidato que então liderava as pesquisas. Para todos que participaram daquelas impressionantes manifestações, é inegável que o anúncio do crescimento das intenções de voto em Bolsonaro poucos dias depois foi uma terrível surpresa. É compreensível, portanto, que no terreno da aparência se apresente uma possível correlação entre ambos os fenômenos. Ocorre, no entanto, que neste caso aparência e essência estão em oposição. A correlação estabelecida é simplória e ignora elementos que hoje são inegáveis: a campanha de Bolsonaro tinha já planejado o bombardeio de Fake News via watsapp para a última semana da campanha, e este planejamento visava produzir um movimento que garantisse a vitória eleitoral de Bolsonaro no primeiro turno. A máquina das Fake News estava já armada e pronta para atirar e sua campanha seguia com terreno livre, enquanto Ciro Gomes e Fernando Haddad se atacavam mutuamente na disputa pelo segundo lugar. Portanto, com ou sem a manifestação das mulheres, este esquema seria acionado e não é cabível duvidar de sua eficiência, que se comprova no fato de que candidatos que apareciam com índices inexpressivos a uma semana da eleição foram eleitos governadores e senadores de vários estados. O fato de que algumas montagens e falsificações da máquina de propaganda bolsonarista abordaram diretamente o #elenao e o movimento feminista não pode levar à conclusão (absurda) de que foi o movimento feminista que “ajudou” Bolsonaro a vencer a eleição. Qualquer outro movimento que naquele contexto aparecesse como obstáculo seria alvo de ataques e falsificações similares.

A questão relevante em nosso entendimento é: o que ocorreria se não tivessem ocorrido os gigantescos atos do #elenão? Ao contrário da hipótese ingênua que imagina que Bolsonaro não teria continuado sua trajetória ascendente, o mais provável é que tivesse vencido no primeiro turno. Faltaram-lhe menos de 4% dos votos, e não é absurdo acreditar que a injeção de ânimo na mobilização antibolsonarista ensejada pelo #EleNão tenha sido decisiva para momentaneamente conter parcialmente seu crescimento, que já estava em curso e que inevitavelmente se acentuaria na última semana como produto do bombardeio de notícias falsas.

É, portanto, razoável sustentar que sem o #elenão, muito provavelmente Bolsonaro teria vencido no primeiro turno. E, embora seja arriscado fazer conjeturas sobre um cenário que não se efetivou, não é absurdo considerar que se Bolsonaro tivesse sido eleito em primeiro turno, iniciaria seu governo em condições muito mais favoráveis, não sendo obrigado a realizar acordos políticos que fragilizaram seu apoio militante, e portanto, teria campo mais livre para a proposição de políticas mais explícitas de fascistização e fechamento político. O movimento de explícita radicalização fascistizante que está em curso nos últimos meses dá se em um contexto no qual Bolsonaro já não conta com o apoio da maior parte da população. E ainda assim, diariamente vemos como é difícil resistir a este movimento e enfrentá-lo. Mas seria certamente muito mais difícil resistir a um movimento com esta característica no contexto de início de um governo recém-eleito em primeiro turno. E não é absurdo pensar que esta tragédia história tenha sido evitada em decorrência de uma iniciativa do movimento feminista.

Efetivamente, a culpa é das mulheres. São culpadas por terem confrontado a estúpida orientação que propunha “não criticar o Bolsonaro”. São culpadas por terem explicitado que a mobilização nas ruas é o único caminho para enfrentar o fascismo. São culpadas por evidenciarem que a luta pelos direitos sociais e pelas liberdades democráticas é indissociável da luta contra as opressões. O fascismo compreende isto perfeitamente, e por isto ataca simultaneamente nos terrenos econômico e social e cultural e moral. Não é possível resistir a ele sem compreender esta vinculação. E este mérito não se pode tirar do #EleNão, tanto quanto do #Lastesis.

NOTAS

1 – O Coletivo Feminista chileno Las Tesis, de Valparaíso,  colocou-se como objetivo adaptar conclusões de investigações acadêmicas sobre a violência de gênero para formatos mais propícios à disseminação ampla, e com este objetivo criou a letra e a coreografia de Um violador nm tu camino, colocando ênfase na responsabilidade do Estado opressor pela violência de gênero em suas distintas forma, em especial o estupro. De acordo com Paula Cometa, uma de suas integrantes, o coletivo Las Tesis trabalha desde abril do ano passado para levar teses de autoras feministas para o teatro, como uma transferência da teoria para a prática, em um formato curto, de cerca de 15 minutos”.  https://www.bbc.com/portuguese/geral-50711095

2  Nunca é demais lembrar que estrategistas da campanha de Fernando Haddad (PT) consideravam Jair Bolsonaro o adversário ideal para o segundo turno, baseados em uma avaliação de que seria facilmente derrotado, e que a própria campanha eleitoral petista optou por não atacar Bolsonaro ao longo de todo o primeiro turno, e mesmo na maior parte do segundo.

3 – Esta forma de argumentação é análoga àquela que reiteradamente propagada por intelectuais próximos ao Partido dos Trabalhadores que busca responsabilizar as jornadas de 2013 pela ascensão da direita. Como já argumentamos, as bases sobrea as quais se deu o avanço da direita foram construídas de forma sistemática e continuada ao longo de ao menos uma década, sob os governos petistas (ver a respeito: http://blogjunho.com.br/reflexoes-sobre-a-ascensao-da-direita/). As manifestações de junho de 2013 se construíram como expressão de uma crescente insatisfação social e seu eixo inicial era a defesa dos direitos sociais e denúncia da repressão policial. Se posteriormente o movimento foi parcialmente sequestrado por uma pauta conservadora, isto só foi possível porque concepções conservadoras eram amplamente compartilhadas pela maior parte da população, como indicamos em https://revistas.pucsp.br/revph/article/view/17155.