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20 de novembro: consciência e resistência negra por uma segunda abolição

Pedro Augusto Nascimento, de Santo André, SP

 

“Poema Sobre Palmares

Nos pés tenho ainda correntes,

nas mãos ainda levo algemas

e no pescoço gargalheira,

na alma um pouco de banzo

mas antes que ele me tome,

quebro tudo, me sumo na noite

da cor de minha pele,

me embrenho no mato

dos pelos do corpo,

nado no rio longo

do sangue,

voo nas asas negras

da alma,

regrido na floresta

dos séculos,

encontro meus irmãos,

é Palmar,

estou salvo!…”

(OLIVEIRA SILVEIRA, obra reunida, p.109).

Ser negro e negra no Brasil sempre foi sinônimo de lutar pela vida e pela liberdade, mas poucas vezes nas últimas décadas a máscara do mito da democracia racial esteve tão mal disfarçada como agora, em 2019. Os avanços e as conquistas arrancados pelo movimento negro desde a luta contra a ditadura empresarial-militar, nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo na formação do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial (MNUCDR), estão fortemente ameaçados por um governo neofascista que não tem medo de defender os privilégios de uma minoria branca e rica, comandada por homens ao mesmo tempo cis-gêneros, heterossexuais, ultraconservadores e hipócritas.

Impossível não relacionar esse avanço da extrema e da ultra-direita racistas com o ressentimento contra o fortalecimento da identidade negra nos últimos anos, que além de expressar uma maior consciência de si, tem aberto portas para uma tomada de consciência para si, que parte das políticas afirmativas e reparatórias conquistadas para questionar a estrutura social e racial que fundamenta a desigualdade no país. A expressão política desses avanços está nos cabelos blacks, nas ruas, nas escolas e universidades cada vez mais enegrecidas, mas também na reorganização da esquerda que desperta “Marias, Mahins e Marielles”. É hora de relembrar a história, honrar os antepassados e fortalecer os quilombos.

De onde vem a Consciência Negra e o seu dia?

Treze de Maio

Treze de maio traição,

liberdade sem asas

e fome sem pão

Liberdade de asas quebradas

como

…….. este verso…”

(OLIVEIRA SILVEIRA, obra reunida, p.109)

Insatisfeitos com o significado do 13 de Maio da abolição da escravatura, foi em 1971 que o Grupo Palmares, liderado pelo poeta brasileiro Oliveira Silveira (Rosário do Sul, 19411 de janeiro de 2009), iniciaram uma jornada de debates pelo país para publicizar a sua mais nova descoberta: a confirmação, através de um cuidadoso trabalho de pesquisa, da data da morte de Zumbi, o principal líder do Quilombo dos Palmares: 20 de Novembro de 1695.

Em contraposição à data da abolição formal e incompleta da escravatura assinada por um braço da família real portuguesa exilada no Brasil, o “vinte” exaltava a maior expressão da resistência do povo negro contra a sua condição de escravizado: o Quilombo de Palmares e a memória de seu principal líder, Zumbi.

A diáspora negra, provocada pela empreitada colonialista dos impérios europeus em África e nas Américas, deixou como uma das marcas o apagamento da história e das conquistas de milhares de povos e nações.

Da mesma forma que o mito do descobrimento das Américas pretende propagar a falsa ideia de que a história por aqui começou a ser escrita a partir da chegada da colonização europeia, o mito da libertação do negro como obra da princesa branca esconde o fato de que negros e negras escrevem a própria história há milênios, e assim continuaram fazendo, também aqui no Brasil, apesar do terror da escravidão e da travessia dos navios do tráfico escravista.

Palmares foi, na verdade, uma reunião de Quilombos localizados na Serra da Barriga, Alagoas, que sobreviveu bravamente por aproximadamente um século, através de organização política e militar, até ser derrotado pelas tropas coloniais brasileiras. Os quilombos eram muito mais do que um refúgio para os negros escravizados que resistiam e fugiam do trabalho forçado e do açoite de seus “senhores” pois, reunidos, eram também um projeto de sociedade e de nação.

Acontece que o Quilombo de Palmares foi a maior expressão dos séculos de rebeliões negras, mas não foi a única, tampouco a última. As senzalas eram também espaços de elaboração e transmissão de cultura, conhecimento, espiritualidade, afetividade e, claro, de política.

Entender a abolição da escravatura como uma concessão da família imperial é um erro duplo: a liberdade não foi concedida porque foi uma libertação sem qualquer garantia de direitos, mas tampouco essa libertação foi “concedida” porque os negros e negras se organizaram e lutaram por essa conquista parcial por séculos, mas especialmente no período que antecedeu 13 de Maio de 1888. Além da resistência das senzalas, diversas associações de negros e negras livres, dentre intelectuais negros, trabalhadores e trabalhadoras das cidades, que produziam e reproduziam a vida social no Brasil do século XIX, se articulavam com abolicionistas, inclusive figuras políticas brancas que cumpriram papel importante na luta contra a chaga sobre a qual se estruturou a nossa formação econômica, social e política.

A luta pela segunda abolição 

QUILOMBOS – fragmentos – SONHOS I

“… Por menos que conte a história

Não te esqueço meu povo

Se Palmares não vive mais

Faremos Palmares de novo.”

(JOSÉ CARLOS LIMEIRA – Atabaques, 1979)

Negros e negras eram homens e mulheres que viviam no continente africano, de diversas nações, etnias, culturas, formas de organização social e diferentes vínculos entre si antes do empreendimento imperialista europeu que colonizou e explorou a África e as Américas, através da mão de obra da diáspora africana.

Raça é um conceito político e ideológico formado historicamente. O racismo surgiu como uma ideologia destinada a justificar a escravidão, que foi a base fundamental da acumulação primitiva de capital que possibilitou o desenvolvimento da economia capitalista, e que se adaptou no decorrer de séculos às mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais.

Portanto, a luta por uma verdadeira democracia racial é, inevitavelmente, a luta contra um dos fundamentos da dominação burguesa em nível mundial que, para se manter, aprofunda a cada dia a desigualdade social no mundo, tendo como parâmetro de superexploração o povo negro em todo o mundo. Em última instância, a luta pela democracia racial é a luta pelo fim das raças, que não haverá sem o fim da exploração imperialista que dela se sustenta.

Mas é fundamental compreender que essa luta já está sendo travada há séculos, e ela veio das senzalas, passou pelos engenhos, adentrou as fábricas, as pequenas e grandes cidades, chegou às universidades, aos sindicatos, aos partidos e aos parlamentos, mas que também está ali na esquina, nos terreiros, nas rodas de capoeira, saraus e batalhas de rap. É compreender que ela também passa pela conquista de o negro poder se reconhecer, se identificar, se autodeclarar, se afirmar, para que, ao longo desse processo, ele possa escrever a história de sua emancipação, que coincide com a libertação da experiência humana.

Por isso, é tão importante divulgar e construir o Dia da Consciência Negra no maior país negro fora da África, e que seja o mês e o ano inteiro, pois não haverá democracia racial sem a unidade do conjunto dos explorados e oprimidos do mundo, negros, indígenas, brancos e asiáticos, e é em nome da segunda abolição que devemos nos organizar.