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Precisamos falar sobre parto

Politiza

Jovem e mãe, Iza Lourença é feminista negra marxista. Iza tem 26 anos, trabalha no metrô de Belo Horizonte e coordena o projeto Consciência Barreiro – um cursinho popular na região onde mora. É ativista do movimento anticapitalista Afronte e do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

“O parto é a pior coisa que pode acontecer na vida de uma mulher” e “Nada dói mais que a dor do parto”, ou ainda, “Nada é mais sofrido do que um parto”. É assim que a nossa sociedade entende o ato de parir uma criança. A dor do parto, que deveria ser condição para entender e celebrar a força que as mulheres possuem por viver esse momento e garantir as suas necessidades para que o processo ocorra da melhor forma possível, infelizmente, tornou-se motivo para entender a mulher gestante ou parturiente de maneira vulnerável e incapacitada de tomar decisões.

A gestação se tornou uma enfermidade e o parto um procedimento cirúrgico. O Brasil é campeão em realizar cirurgia cesariana: cerca de 55% dos partos no Brasil acontecem via cesárea – enquanto o indicado pela Organização Mundial de Saúde é um índice de 10 a 15%.

Tudo isso porque a cesárea é mais lucrativa que o parto normal. Um parto normal é imprevisível, pode demorar 4 horas ou pode demorar 72 horas. Um parto normal não acontece em dias marcados, pode acontecer em um sábado, domingo ou feriado. Diante disso, muitos médicos convencem a maior parte das mulheres de que o melhor é fazer uma cesárea – agendada ou assim que as contrações começarem.

Nós mulheres convivemos com a ideia de passar pelo parto deitada em uma cama no ambiente estressante de um hospital, sentindo muita dor. Sabemos que na hora de nascer, rotineiramente médicos fazem a episiotomia, um corte temeroso no períneo. Nesse cenário e diante do incentivo dos médicos pela cesárea, é perfeitamente compreensível que muitas de nós prefiram a cirurgia cesariana, que é considerada mais fácil.

Acontece que essas situações são parte da violência obstétrica. Para começo de conversa, nenhuma posição é mais contraindicada para um parto do que a posição horizontal – deitada em uma cama. Mas a maioria dos hospitais insistem em deixar as mulheres assim, contrariando a lei da gravidade e a anatomia do corpo humano. O corpo humano foi feito para parir na vertical: sentada, em pé, de cócoras, ajoelhada, entre tantas possibilidades. Se o hospital e o médico insiste em deixar a parturiente deitada está dificultando e não ajudando o corpo a parir.

Junto com a posição horizontal, vem a anestesia. Os hospitais em geral não oferecem nenhuma estrutura de alívio da dor durante o parto, como a possibilidade de a mulher caminhar, encontrar posições mais confortáveis, gritar, relaxar, ficar em contato com água quente, ficar em um ambiente acolhedor para que seu próprio corpo produza a analgesia necessária… Nada disso! A única saída oferecida para o alívio da dor é a anestesia. Por que? Porque anestesia gera dinheiro. O problema é que a anestesia é uma substância química, uma droga, e não existem certezas sobre possíveis danos que causa ao bebê. Além disso, prejudica o trabalho de parto, fazendo com que o corpo deixe de produzir os hormônios necessários para expulsar o bebê. Assim o parto passa a ser caso de analgesia médica: Anestesia para dor e Ocitocina para acelerar o trabalho de parto – uma geralmente depende da outra.

O contrário também acontece. Para acelerar o trabalho de parto, muitos médicos aplicam Ocitocina sem necessidade, uma vez que o corpo já produz esse hormônio. A Ocitocina artificial gera dor insuportável e faz com que a anestesia seja necessária. Obviamente existem casos que a aplicação da Ocitocina e da Anestesia são necessárias. O problema é que aplicando-as como regra, médicos e hospitais agem como se o corpo da mulher não fosse capaz de dar à luz.

E, finalmente, a episiotomia, o corte feito no períneo das mulheres para facilitar a passagem do bebê. Algumas vezes esse corte é necessário, principalmente em caso de sofrimento fetal. Porém, esse procedimento é utilizado em larga escala de forma rotineira, mas a maioria das mulheres não precisam! Além dos procedimentos mal executados. Muitos médicos fazem cortes enormes, muito maiores que a laceração que uma mulher teria se não tivesse a intervenção médica. Tudo como forma de acelerar o parto.

É importante ressaltar que a culpa da violência obstétrica não é exclusivamente do profissional de medicina. Desde a formação nas faculdades, o parto é visto como coisa de médico e não um processo fisiológico do corpo. Tratam os partos que não precisam de nenhuma intervenção como exceção, quando na verdade deveria ser a regra. Por isso, as faculdades ensinam a fazer episiotomia de rotina, anestesia para toda parturiente, puxar o bebe durante o nascimento, incentivar as mulheres a fazerem força no intervalo das contrações… Isso quando não ensinam aos médicos a literalmente empurrar os bebês pra fora da barriga, com a Manobras kritelles. A estrutura dos hospitais, principalmente os privados, operam na lógica produtivista na realização do parto e sequer possuem estrutura possível para que um médico acompanhe a parturiente e respeite seu tempo de parir. Os planos de saúde pagam pouco aos profissionais e pagam por parto, ou seja, por produção – isso gera a necessidade de acelerar os partos ou roubá-los, realizando cesáreas sem necessidade.

O ROUBO DO PARTO

Certa vez, durante uma consulta, o médico que me acompanha no pré-natal usou a seguinte expressão: “dependendo do médico, ele pode roubar o seu parto”.

Essa expressão marcou minha visão sobre o ato de parir. Afinal de contas, o parto é realmente meu. O parto sempre foi das mulheres, das fêmeas. As fêmeas mamíferas trazem seus filhos ao mundo sozinhas, em um local seguro, na posição vertical. A história da humanidade é a história das parteiras, das mulheres que auxiliavam outras mulheres a ter um filho, em casa, em um momento somente delas. Essa história não é tão antiga. É a história de nossas avós. Está logo ali, com pessoas que conhecemos.

Atualmente, parece muito moderno e seguro o modelo hospitalar do parto. Mas quando olhamos para os dados, o Brasil tem um número muito alto de cesárias e de mortalidade materna. Em 2015, a ONU divulgou que nosso país, um dos que mais realizam cesáreas no mundo, é o quinto mais lento na busca da redução de mortes maternas.

Que fique claro: é verdade que uma intervenção médica pode salvar a vida de muitas mulheres. A cesárea pode cumprir esse papel. Inclusive, o próprio mapa da Organização Mundial de Saúde abaixo demonstra como os países mais pobres apresentam dificuldade em realizar essa intervenção médica e por isso também possui alto índice de mortalidade materna.

Ainda assim, realizar intervenções médicas desnecessárias é sim roubar o parto de uma mulher. É impedir que ela se sinta capaz de dar à luz. É impedir que ela confie em seu corpo. É desrespeitar os corpos das parturientes. Já passou da hora de aplicarmos uma nova filosofia de parto no Brasil. É por isso que hoje ganha notoriedade as discussões sobre o parto humanizado.

Parto humanizado nada mais é que respeito ao corpo da mulher. A mulher pode e deve ter um parto ativo, onde ela decida como parir. O papel do médico é informar a parturiente para que ela decida sobre qualquer intervenção. Parto humanizado nada mais é que uma luta contra o roubo dos partos.

Se quer um conselho, estude o máximo que puder, tente manter contato com pessoas que entendem sobre o assunto, faça um plano de parto e tente fazer valer sua vontade. Pouquíssimas situações são condições absolutas para uma cesariana. A maioria dos casos devem ser avaliado caso a caso. Por exemplo, se o bebê está sentado, é possível nascer sentado. Se o bebê está virado, pode desvirar com o trabalho de parto. Se está com o cordão enrolado no pescoço, pode nascer com o cordão enrolado no pescoço. Se teve mecônio (fezes do feto ainda no útero), pode nascer de parto normal se não for identificado nenhum sofrimento fetal. Se tem diabetes gestacional, pode ter parto normal. Se já fez uma cesárea, pode ter parto normal. Se está com até 41 semanas e 7 dias, pode ter parto normal. Se você não está com nenhuma dilatação antes do trabalho de parto, isso não significa que você “não tem passagem” pois o seu corpo dilata durante o trabalho de parto. Se tem miopia, pode ter parto normal. São inúmeras as desculpas dos médicos para realizar uma cesariana, enquanto tudo deveria ser amplamente informado, conversado e decidido de acordo com as escolhas das mulheres.

Mas quanto custa um parto humanizado?

Reprodução Sofia Feldmann Em Belo Horizonte, temos apenas um hospital 100% voltado para filosofia do parto respeitoso – Hospital Sofia Feldman, hospital filantrópico que atende pelo SUS. Sofia é um exemplo nacional que possui, entre outras coisas, um Centro de Parto Normal, Casa de Parto, Casa da Gestante, equipe de Parto Domiciliar, além de ter todos os seus profissionais educados na política do parto humanizado. Nas outras cidades do país, não tenho conhecimento de nenhum hospital como o Sofia.

Diante disso, grupos de mulheres se organizam para auxiliar outras mulheres em trabalho de parto. Essa é uma iniciativa linda e fundamental para as parturientes. Porém, por não ser uma política pública, essa prática fica nas mãos de quem pode pagar por esse auxílio. Se formos mais longe ainda, fica nas mãos de quem pode pagar por um médico particular. Ou seja, gerar uma vida de maneira física e emocionalmente saudável em uma sociedade que prioriza a insalubridade produtivista, custa muito caro para a maioria das brasileiras.

O que fazer?

Essa é a pergunta que martela na minha cabeça desde que decidi engravidar. Primeiramente é preciso lutar para fortalecer a política de parto normal pelo SUS, investindo na estrutura dos hospitais, criando Centros de Parto Normal, Casas de Parto, entre outras ações para uma política completa de atendimento à mulher. É importante pensar em estruturas como essas nas regionais, perto das casas das mulheres que vão dar à luz. Em Belo Horizonte, estamos lutando pela abertura da maternidade Leonina Leonor Ribeiro, na região de Venda Nova – que já está montada há dez anos com sete suítes, banheira e toda estrutura para atender bem as gestantes, mas a prefeitura se recusa a inaugurar. Mulheres da periferia precisam das políticas públicas como o SUS e deviam ter o direito a um parto respeitoso.

Individualmente, se você está começando a pensar sobre o parto, comece pesquisando. Os cartões de gestantes dos postos de saúde tem muitas informações sobre parto normal e o acompanhamento dos centros de saúde à gestante são excelentes.

Você pode pesquisar os índices de cesáreas dos hospitais da sua cidade e dos médicos do seu plano. Pesquise se na sua cidade tem casa de parto. Visite a casa de parto ou o hospital com atenção. Peça indicação de amigas, pergunte como foi o parto das mulheres que você conhece. Procure se na sua cidade tem uma parteira ou uma Doula, converse com elas sem compromisso, pergunte sobre tudo. Muitas vezes é possível encontrar uma Doula voluntária. Peça indicações de Doulas, médicas, enfermeiras, hospitais, casas de parto… Converse com pessoas que estudam parto humanizado e, acima de tudo, estude por você. Para que você conheça o seu corpo na gestação e no parto. Esse é o momento de se conhecer e cuidar de você!

 

Ai vai algumas indicações de filmes e livros:

Parto Ativo: Guia Prático Para o Parto Natural – livro

O Renascimento do Parto 1,2,3 – documentário (contém cenas fortes)

A Tenda Vermelha – filme

Papo de Parto – Canal no Youtube

Esse texto tem o objetivo de fazer um alerta para a necessidade de pensar políticas públicas voltadas às parturientes, bem como auxiliar mulheres (gestantes ou não) que querem se preparar para um parto humanizado.

Qualquer dúvida, estou à disposição: [email protected]