Lula Livre! Nem quietismo, nem ofensiva permanente, em defesa da frente única de esquerda

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

Uma pedra rolando não junta nenhum musgo.
Sabedoria popular francesa

Você não pode fazer um omelete sem quebrar os ovos.
Sabedoria popular latina

Lula é um preso político. A sua liberdade provisória é a maior vitória política democrática desde a posse de Bolsonaro. Mesmo parcial, merece ser comemorada. A presença de Lula nas manifestações abre a possibilidade de mobilizações populares em uma escala muito maior. Muito da evolução da conjuntura, nesse terreno, vai depender do próprio Lula.

O lugar que Lula irá ocupar na luta contra o governo de extrema-direita é a maior incógnita da conjuntura. A recuperação de seus plenos direitos políticos tem imensa importância, e vai encontrar uma inflexível resistência burguesa.

Lula deve sair da cadeia com a decisão do STF, mas a Lava Jato só saiu enfraquecida, não foi derrotada. A anulação dos dois processos já julgados em Curitiba depende da aprovação do Habeas Corpus em julgamento no STF agendado para o fim de novembro. E não há garantia alguma do que virá pela frente, porque há mais sete processos para serem julgados em Curitiba. A luta política pela sua plena liberdade está ainda longe de terminada.

O papel de Lula na resistência passa a ser um fator chave. E reforça a necessidade da tática da frente única de esquerda. Se Lula estiver disposto a sair pelo país em campanha para ajudar a construir mobilizações contra Bolsonaro, toda a esquerda deve estar disposta a participar.

Acontece que a esquerda brasileira está muito dividida, pulverizada em duas dezenas de organizações e correntes que se estruturam no interior dos partidos legais, e com graus de influência muito variados.

Mas, em uma análise rigorosa são três, somente, as táticas. Há aqueles que defendem o quietismo, os que defendem a ofensiva permanente e os que defendem a Frente Única. Estes conceitos têm uma história e remetem ao repertório acumulado pela esquerda marxista mundial.

O quietismo está associado à orientação do SPD, o partido da socialdemocracia alemã sob a orientação de Kautsky. A ofensiva permanente era a posição de Bela Kun, líder húngaro da III Internacional para a situação alemã, que resultou na derrota da revolução em 1923. A tática da Frente Única foi elaborada sob a inspiração de Lenin e Trotsky.

Os que defendem o quietismo partem da premissa de que sofremos uma derrota histórica. Concluem que a situação é contrarrevolucionária, e exigirá anos para uma recuperação da capacidade de luta, e o maior perigo é um autogolpe, portanto, não podemos provocar.

Os que defendem a ofensiva permanente partem da premissa que a derrota foi, essencialmente, eleitoral, as forças da classe trabalhadora estão intactas, a situação é pré-revolucionária, e a expectativa é uma derrubada, mais ou menos iminente, do governo, e não podemos hesitar.

Por último, estamos aqueles que consideramos que ocorreu uma derrota político-social grave, de tipo estratégico, avaliamos a situação como reacionária, e temos a expectativa de um período defensivo, em que a resistência precisa acumular forças para ter capacidade de contraofensiva, e não podemos vacilar.

Devemos considerar que o governo mantém uma devastadora ofensiva, até o momento, incontível. Por que apoiado, em primeiro lugar, na embaixada norte-americana, no apoio da imensa maioria dos capitalistas animadíssimos com os pacotes sucessivos de Paulo Guedes; nas Forças Armadas e nas polícias; na maioria reacionária no Congresso Nacional; no Supremo Tribunal Federal e na maioria da classe média abastada. Enquanto na classe trabalhadora e no povo ainda prevalece o desânimo e a insegurança, quando não a confusão.

Nos atos dos últimos meses – ações de vanguarda com alguns milhares de abnegados ativistas – tem tido ampla adesão o ‘Fora Bolsonaro’, como expressão de ‘Basta’, ‘Chega’, e isso alimenta ilusões. Ao que parece teve repercussão no Rock in Rio, o que é ótimo. O ‘Fora Bolsonaro’ como palavra de ordem de agitação, sinônimo de Basta, Chega, é útil.

Mas abraçá-lo como eixo da estratégia política, ou seja, ‘Abaixo o Governo’, significa que se considera que estão reunidas as condições objetivas e subjetivas para tentar derrubar Bolsonaro, aqui e agora, e isso é precipitado. Porque essas condições, infelizmente, ainda não existem. Dedicar todas as forças empenhadas em uma campanha que não podemos vencer, porque não temos forças, só pode gerar desmoralização.

Oxalá a situação evolua, rapidamente, e então será correto e oportuno.