Qual deve ser a tática eleitoral em 2020? Contra a tática Kirchner

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

Todos na esquerda queremos derrotar o governo Bolsonaro o mais rápido possível. Oxalá seja possível uma queda de Bolsonaro antes das eleições de 2022. Mas a ideia de que Bolsonaro vai cair de “maduro” é errada. Ele tem apoio para completar seu mandato da embaixada norte-americana, das instituições – Congresso, STF, Forças Armadas – da grande burguesia, e da maioria da classe média, além de uma parcela da mídia, e das Igrejas, especialmente, as pentecostais. Terá que ser derrubado. Isso exige uma mudança qualitativa na relação social de forças. Só a experiência prática de milhões com o desastre econômico-social pode potenciar uma irrupção política de massas.

Nesse contexto, temos que pensar em 2020. Pode ser que, até lá, algo explosivo ocorra. O que nos coloca diante da questão de qual deve ser a tática eleitoral. A disjuntiva Frente de Esquerda ou Frente Ampla não é somente sobre cálculos eleitorais. Duas questões são chaves neste debate de tática. Qual é o programa, e quem são os candidatos. São duas táticas eleitorais muito diferentes.

Frente de Esquerda é uma Frente entre os partidos que mantém relações orgânicas com os trabalhadores, essencialmente, o PT, PSol e PCdB, mas, também, sendo possível, com o PSTU, o PCB e a Unidade Popular. Pode ser constituída no primeiro ou no segundo turno. Quando se forma somente no segundo turno, cada partido de esquerda tem seus próprios candidatos, mas eles se comprometem em apoio mútuo naquele que for para o segundo turno.

A tática da Frente Ampla incorpora, pelo menos, o PDT e o PSB e, possivelmente, o PV e a Rede. O que significa que o programa é de centro, não de esquerda. A tática Kirchner é uma variação ainda mais perigosa da tática da Frente Ampla.

Porque significa que, além do programa, se renuncia a uma candidatura de esquerda. Já aprendemos, com o desastre do segundo governo Dilma Roussefff, quais as consequências de vencer eleições e, depois, tentar governar com o programa dos nossos inimigos. Para quê serve uma esquerda que no governo faz a política da direita?

A polêmica sobre a tática eleitoral em 2020 deve ser, portanto, indivisível da tática para derrotar Bolsonaro, nas ruas ou, na pior hipótese, em 2022. Já iniciaram as articulações na esquerda. Não há nada de errado nisso. Uma oposição irreconciliável entre a resistência na ação direta e nas eleições seria um erro anarco-sindicalista. As mobilizações de rua devem ser nossa prioridade porque são elas que abrem o caminho, como em Santiago do Chile.

Mas uma esquerda incapaz de transformar as eleições em uma polarização contra os neofascistas, tampouco, será útil. E ser útil aos trabalhadores e a juventude, que queremos servir e representar, deve ser a nossa razão para existir na luta contra Bolsonaro.

Tenho defendido que o PSol se posicione na oposição frontal ao governo Bolsonaro defendendo a tática da Frente Única de esquerda, mas, também, em torno de reivindicações concretas, a tática da unidade de ação com os partidos e líderes da oposição que não têm relações orgânicas com o movimento dos trabalhadores. Mas são duas táticas diferentes, de “geometria variável”.

Foi a tática da Frente Única que, no fundamental, favoreceu o tsunami da Educação, em maio, e um dia nacional de greve contra a reforma da previdência, em junho. Foi a tática da unidade na ação que impediu a transferência de Lula para a prisão de Tremembé, onde correria risco de vida.

Como essas duas táticas devem se traduzir nas eleições? Devemos considerar, em primeiro lugar, três problemas. O primeiro é metodológico. É impossível prever, sem margens de erro muito elevadas, qual será a situação daqui a um ano. Podemos desenhar cenários de probalbiidades, considerando mantidas as atuais condições de “temperatura e pressão”.

Porém, isso é insuficiente. Porque, a rigor, não sabemos: (a) como vai evoluir o desgaste do governo, se a economia não sair, para o fundamental, do quadro recessivo dos últimos cinco anos; (b) como vão evoluir as investigações policiais que avaliam a relação do bolsonarismo com as milícias e o escritório do crime no Rio de Janeiro; (c) como vai evoluir a crise política do bolsonarismo com o seu partido PSL; (d) mais importante, como vai evoluir a resistência social e política à ofensiva reacionária do bolsonarismo contra todos os direitos conquistados.

O segundo é que parece provável que, nas principais capitais, uma candidatura de extrema-direita chegará ao segundo turno. A grande incógnita é que, hoje por hoje, é impossível saber se chegará como favorita ou não.

Do que decorre o terceiro e mais complexo problema. Qual será a melhor tática para derrotar as candidaturas aliadas de Bolsonaro?

A ideia de que candidaturas de centro serão mais competitivas do que candidaturas de esquerda parece lógica, mas não é. Esse foi o argumento de Ciro Gomes, e dos defensores da tática Kirchner na Argentina. A verdade é, frequentemente, contraintuitiva. Diante de um problema complexo, a resposta mais simples parece fascinante, mas é, quase sempre, errada. Parece lógica, porque a mente humana prefere a simetria. A situação na Argentina é muito diferente da brasileira. Macri foi derrotado depois de governar desde as eleições de 2015.

O raciocínio é simples, mas anacrônico. O argumento é que, em 2018, Haddad foi para o segundo turno contra Bolsonaro, e perdeu. E nos garantem: “se o PT, mas, também, o PSol e o PCdB tivessem apoiado Ciro Gomes, teria sido evitada a rejeição à esquerda, e derrotado Bolsonaro; não podemos correr o risco de perder outra vez; deveríamos, portanto, evitar a polarização da esquerda contra a extrema direita”.

Esta hipótese parte de duas premissas erradas. A primeira é a suposição de que uma candidatura de centro-esquerda, por exemplo, em São Paulo, de Marta Suplicy ou Márcio França poderia até ter menos votos do que a esquerda no primeiro turno, mas mais chances de vencer no segundo turno. Essa tática não é genial, é uma aventura.

A ideia oculta é que a esquerda seria capaz de transferir votos para o centro, mas o recíproco não seria plausível. Em outras palavras, o eleitorado da classe trabalhadora e da juventude da esquerda votaria em uma candidatura de centro contra os neofascistas, mas uma parcela do eleitorado classe média do centro não votaria na esquerda, de jeito nenhum. Em resumo, a ideia de que somente uma Frente Ampla que unifique toda a oposição a Bolsonaro, desde o primeiro turno, poderia vencer. Esta premissa é eleitoralmente falsa e, politicamente, perigosa. Por quê?

Devemos considerar duas questões. Primeiro, não é verdade que essa transferência de votos iria acontecer. Muitos se recusarão a votar em Marta Suplicy ou Márcio França, mesmo contra Datena ou Joyce Hasselmann. Porque ambos passarão a campanha eleitoral reivindicando as façanhas de suas gestões anteriores na prefeitura e no governo estadual.

Segundo, devemos lembrar que a tática para 2020 é indivisível da tática para 2022, e o futuro da esquerda. Estamos dispostos a ser um vagãozinho auxiliar no trem dirigido por uma dissidência da burguesia brasileira, que quer manter, a qualquer preço, o ajuste fiscal neoliberal, mas se desembaraçar dos alucinados neofascistas?

Ou queremos derrotar o perigo bonapartista, e acreditamos na capacidade de mobilização da classe trabalhadora, mais cedo do que tarde, contra Bolsonaro? Para isso, precisamos de um programa de esquerda e de candidaturas de esquerda. Se o PT não o fizer, o PSol fará.