Extrema direita cresce na Alemanha e consolida o segundo lugar em duas eleições estaduais

Resultado aponta enfraquecimento da esquerda radical em regiões em que teve forte apoio nas eleições passadas

Rafael Zanvettor, de Berlim

Neste domingo (01/09), ocorreram duas importantes eleições estaduais na Alemanha: uma em Brandemburgo, estado que circunda Berlim, e outra na Saxônia. Na Alemanha, os votos as eleições são realizados para os partidos que ocuparão o parlamento estadual. A depender do resultado, forma-se uma coalizão de maioria simples e define-se o gabinete que governará o estado indiretamente.

O resultado confirmou a tendência prevista tanto pelas pesquisas de opinião quanto pela opinião dos analistas: o crescimento do partido de extrema direita AfD (Alternativa para a Alemanha). A extrema direita angariou 23,5% dos votos em Brandemburgo e 27,5% na Saxônia, o que representa um crescimento gigantesco de, respectivamente, 11,3% e 17,8% em relação à última eleição. Para a extrema direita, o resultado está em consonância com os números da eleição para o parlamento europeu de maio desse ano, da qual o AfD saiu vitorioso, em primeiro lugar, nos dois estados. Se já era extremamente forte na região desde sua criação, o AfD mostra agora que sua base se consolidou e tende a crescer, tirando votos dos dois lados do espectro político-partidário.

Conservadores e sociais-democratas

O primeiro lugar ainda ficou nas mãos dos dois partidos tradicionais: o SPD (Partido Social-Democrata), em Brandemburgo, e o conservador CDU (União Democrata-Cristã), na Saxônia. No entanto, a vitória vem com ares de derrota, pois acarretou, no caso do SPD, uma perda de 5,7% dos votos e, no caso do CDU, uma diminuição drástica de 7,3% em relação ao último parlamento. Com isso, o resultado mostra que os dois partidos sofrem com uma erosão cada vez maior de suas bases, apesar de serem ainda hegemônicos. Suas perdas só não foram maiores do que a da esquerda radical.

A esquerda radical

As eleições deste domingo mostraram também a mudança na influência política do partido Die Linke (A Esquerda) na região que era a Alemanha oriental. Nela, a esquerda radical sempre teve uma base eleitoral consolidada, formada por aqueles afetados pelo choque de capitalismo que veio após a queda do muro e por gente de esquerda que nunca deixou de crer na possibilidade do socialismo em uma estrutura democrática progressista.

Em Brandemburgo, de 2004 até 2014, a esquerda radical ocupou o segundo lugar no processo eleitoral, atrás apenas do SPD. Em 2014, perdeu lugar para o CDU, ficando em terceiro, mas mesmo assim conseguindo participar no governo em uma coalizão com o SPD e os verdes (Bündnis 90/Die Grünen). Agora, o partido ocupa o quarto lugar, empatado com os verdes e atrás do SPD, AfD, CDU. De 2014 para cá, a queda foi de 7,9%. Ainda assim, se a esquerda radical se juntar com os verdes e o SPD novamente, é possível que o AfD fique longe do governo.

Já na Saxônia, o Die Linke ocupa o segundo lugar desde 1999, a segunda eleição após a unificação da Alemanha. Na região, o primeiro lugar foi sempre ocupado pelo CDU. Agora, com o crescimento da AfD, o Die Linke caiu para o terceiro lugar. Em um percentual similar ao resultado de Brandemburgo, o partido perdeu 8,5%. No ano passado, a esquerda radical ficou fora do governo, que foi dirigido por uma coalizão entre SPD e CDU, o que deve se repetir para deixar o AfD de fora.

De qualquer modo, o resultado se coloca como uma pesada derrota para a esquerda radical, que parece não ter conseguido aproximar a população de seu projeto nem nos estados onde sempre teve apoio. Agora, parece que o AfD tem conseguido obter não apenas votos do conservador CDU – marcado por anos de administração federal relativamente aberta à imigração – como também da esquerda progressista e democrática.

Os verdes e o futuro da Alemanha

A segunda previsão para estas duas eleições, o crescimento do partido verde, não se confirmou. O resultado das eleições para o parlamento europeu, em que o partido verde ficou em segundo lugar, havia dado a impressão de que seriam uma nova potência nessas eleições estaduais. Acreditava-se também que o partido iria dobrar o número de votos. No entanto, não foi isso o que ocorreu e o crescimento moderado do partido deu sinais de que sua plataforma não foi atraente como o esperado em um local onde os verdes sempre tiveram dificuldades. Ainda assim, em Brandemburgo eles conseguiram empatar com a esquerda radical e garantiram 10 assentos no parlamento estadual.

Em centros urbanos importantes, como Bremen e Berlim, eles têm mais apelo e têm governado em coalizões com a esquerda radical e o SPD, mostrando uma certa afinidade com o espectro mais progressista do cenário partidário alemão. Assim, foi nas grandes cidades que os verdes tiveram seus melhores resultados neste domingo. Em Potsdam, capital de Brandemburgo, e Dresden e Leipzig, maiores cidades da Saxônia, eles conseguiram garantir votações expressivas. Nas eleições municipais deste ano, eles já haviam garantido primeiro lugar em Leipzig e segundo lugar em Dresde, atrás do Die Linke.

No entanto, as eleições deste domingo mostraram que o entusiasmo ecológico não foi capaz de superar o ressentimento que alimenta a extrema direita, apesar de ter sido responsável por ter tirado pequena parcela de votos da esquerda radical e, em maior grau, dos partidos tradicionais

Por todos esses motivos, o resultado das eleições estaduais deste domingo se comprova como um dos principais indícios dos novos rumos da política na Alemanha e um sinal preocupante para a próxima eleição federal. Isso porque, independentemente do resultado, uma grande mudança política deve ocorrer em nível federal, dado que Angela Merkel deve deixar o cargo depois de 20 anos à frente do país. Somado a isso, tudo indica que já há uma recessão em curso no país, o que tende a inflamar ainda mais a extrema direita.