A rejeição ao governo e a população dividida em três grupos

Direita Volver

Coluna dedicada ao acompanhamento semanal das ações e absurdos dos representantes da extrema direita. Por Ademar Lourenço.

A última pesquisa do Datafolha mostra que o governo de Jair Bolsonaro é considerado ruim ou péssimo por 38% da população e apenas 29% considera a gestão boa ou ótima. Outros 30% acham que o governo é “razoável”.  Isto mostra como o grupo que se apossou do Palácio do Planalto perdeu força. Mas isto não é motivo para achar que o atual presidente está com a corda no pescoço.

Em primeiro lugar, é exagero falar em “queda vertiginosa” de popularidade. Pelo Datafolha, a rejeição ao governo aumentou 5% desde julho (De 33% para 38%). Neste ritmo, apenas no fim do ano 50% da população vai rejeitar Bolsonaro. E aqueles 29% que apoiam o presidente dificilmente vão mudar de posição. São os que apoiam as ideias bolsonaristas ou ainda acreditam que o novo governo seja uma renovação na política.

O próprio presidente está se lixando em ganhar apoio da maioria da população. Ele quer apoio dos banqueiros, fazendeiros e grandes empresários para aplicar seu plano. Está fazendo a Reforma da Previdência, quer privatizar empresas públicas e retirar direitos dos trabalhadores. Para isto, basta ter uma base de 30% que defenda suas ideias. É o suficiente para não ser derrubado até 2022. Na melhor da hipóteses, ele desiste da reeleição para que algum candidato da classe dominante entre na disputa para aplicar o mesmo programa.

O que pode mudar a situação é a mobilização nas ruas. Historicamente, é o que causa as grandes viradas na opinião pública. As jornadas de junho de 2013 chegaram a ter o apoio de 84% da população e mudaram o cenário político do país. Na época, isto fez a popularidade da então presidente Dilma cair de 57% para 30% em poucos dias. As mobilizações contra o presidente Temer em 2017 foram menos intensas. Mas o movimento teve apoio e ajudou a consolidar Temer como o presidente mais impopular da história do país.

Não há previsão de milhões nas ruas contra Bolsonaro. O atual cenário mostra que os 29% que aprovam o governo mais os 30% que acham o governo razoável formam uma maioria que não está disposta a apoiar atos contra o atual presidente. Uma parte apoia suas ideias, e outra prefere esperar algum resultado na economia para se posicionar. Afinal, estamos no primeiro ano de um governo novo. Claro que o quadro pode mudar. Ninguém esperava as grandes manifestações de junho de 2013 uma semana antes delas acontecerem.

A população está dividida em três partes, não em duas

A grande questão é para onde vai aqueles 30% que disseram ao Datafolha que o governo é “razoável”. Uma parcela da população sempre fica na “coluna do meio” e é a chave da disputa política no Brasil. É com ela que cada lado pode conseguir uma maioria social.

Ouvimos de muitos analistas políticos que o país está dividido entre uma parcela da população que se alinha “à direita” e outra que se alinha “à esquerda”. Como se fosse um estádio de futebol com cada ala tomada por uma torcida. Não é bem isso que a gente percebe quando avaliamos as pesquisas de opinião dos últimos anos.

Durante o impeachment de Dilma, em 2016, 68% da população era favorável ao afastamento da presidente, se alinhando com a direita. Durante o governo Temer, que substituiu Dilma e fez um governo de direita, a rejeição chegou a 79%. Em 2017, 85% da população chegou a querer novas eleições, bandeira proposta pela esquerda.

Um fato bizarro é que em agosto de 2018, Lula liderava todos cenários para o segundo turno nas eleições presidenciais. Mas Lula estava preso e não pôde se candidatar. Com isto, Bolsonaro tomou a dianteira e ganhou a eleição. É matematicamente certo que uma parcela que pensou em votar em Lula acabou votando em Bolsonaro.

Estes dados mostram que o Brasil não está dividido entre duas bolhas incapazes de se comunicar entre si. O quadro é bem mais complexo. O Datafolha fez uma pesquisa em 2017 sobre a opinião dos brasileiros em vários temas. Os resultados rendem muitas reflexões.

Por exemplo, 73% da população defende a redução da maioridade penal. Mas apenas 42% respondeu que é a favor da pena de morte para crimes graves. Ou seja, uma parte da população quer que jovens de 16 anos sejam presos como adultos, mas não concorda com a frase “bandido bom é bandido morto”. Outro dado interessante é que 74% acha que a homossexualidade deve ser aceita por toda a sociedade. No entanto, 80% é contra a legalização de qualquer droga. Ou seja, a maioria é de “esquerda” quanto à homossexualidade e de “direita” quanto à legalização das drogas.

Se cruzarmos os dados de várias pesquisas feitas nos últimos anos, vemos que cerca de 20% da população é fortemente alinhada com as ideias e as bandeiras levantadas pela direita. Outros 20% da população é fortemente alinhada à esquerda.

Dois exemplos desses extremos. Bolsonaro chegou a ter 75%  da população dizendo que ele estava no “caminho certo”, isto logo após sua eleição. Ou seja, 25% não aprovava o governo antes mesmo dele começar. Outro exemplo foi o pico de rejeição ao governo Temer em 2017. 79% da população rejeitava o presidente, mas 4% o apoiava e 16% ainda respondia “razoável”, mostrando que para 20%, Temer não era tão ruim assim.

Cerca de 60% da população está fora das bolhas ideológicas e oscila para um lado ou para o outro. Vários fatores determinam para onde vai esta maioria. Um ponto crucial é a economia. Com o desemprego em alta e a economia com baixo desempenho, a tendência é que esse grupo vá para a oposição, independente de quem esteja no governo. As denúncias de corrupção também contam muito.

Um fator determinante é a capacidade de cada direção política de colocar pessoas nas ruas. Quando grandes atos acontecem, esses 60% prestam atenção e tendem a ouvir mais quem se mobiliza. Ou seja, quem leva a própria “bolha” para as ruas tem grandes chances de arrastar para as suas posições aqueles que são oscilantes.

Mas isso não é tudo. Com certeza o trabalho de base conta muito na hora da maioria não alinhada formar sua opinião. O diálogo no mundo real é mais determinante que nas redes sociais. As igrejas fundamentalistas por um lado conseguem estar no dia-a-dia do povo. A mídia tradicional ainda tem poder de influência, “visitando” a casa das pessoas todo dia por meio do rádio de da TV. No outro lado da disputa, os movimentos sociais conseguem um grande respeito onde têm um bom trabalho de base.

Não é fácil decifrar aqueles que aceitam a homossexualidade mas rejeitam a legalização das drogas, que são contra o “bandido bom é bandido morto” mas querem a redução da maioridade penal. O povo brasileiro é mais complexo que qualquer meme de rede social.