Pular para o conteúdo
MUNDO

Os 30 Anos do Piquenique Pan-Europeu e os Neofascistas da Áustria

Há 30 anos ficara evidente que a rígida Cortina de Ferro apresentava vultuosos sinais de oxidação. Pelos seus poros, alemães orientais fugiram para a amistosa Áustria. 

Eduarda Johanna Alfena, de Campinas, SP

Memorial do evento em Sopronpuszta, a pouco metros da fronteira austro-húngara.

Era para parecer mais um artigo criticando o antigo Bloco Soviético e suas políticas. Mas era mais que isso. Trata-se de evento ocorrido em agosto de 1989, portanto três meses antes da queda do Muro de Berlin. Primeiro peço que seja lido o artigo referente ao evento no portal da Agência pública de notícias alemã Deutsche Welle.

O que foi a Cortina de Ferro?

Cortina de Ferro é o nome dado a uma política informal feita no seio do conflito conhecido como Guerra Fria. O maior vencedor da Segunda Guerra Mundial foi sem sombras de dúvidas a União Soviética, comandada por Josef Stálin. Mesmo sendo o segundo país mais destruído no conflito, a União Soviética foi o país que teve mais perdas civis e militares. Findo o conflito, tanto URSS quanto Estados Unidos (EUA) eram membros permanentes do conselho de segurança da ONU, porém, as duas nações ficaram em lados opostos durante a Guerra Fria.

Mas por qual motivo a URSS seria então o maior vencedor da Guerra? Simples. Os países do leste europeu que ficaram sob a ocupação do Exército Vermelho (EV), se tornaram repúblicas controladas a rédea curta pela URSS. A única exceção foi o segundo estado Iugoslavo, comandado pelo Marechal esloveno-croata Tito.

Imagem completa do Memorial do evento em Sopronpuszta, a pouco metros da fronteira austro-húngara.

Sob a luz do Direito Internacional (de Juris) Hungria, Polônia, (Segunda República da) Tchecoslováquia, Romênia, Bulgária, Albânia e a famigerada (ou infame) República Democrática Alemã (Alemanha Oriental) eram estados independentes. Na prática (de Facto) eram estados títeres controlados pela URSS.

Até a Iugoslávia entrou no Pacto de Varsóvia (aliança militar do Leste) uma vez que a URSS, sob o poder desse tratado, ameaçaria deveras sua autonomia. Do mesmo jeito que os EUA possuem bases militares em um monte de países, a URSS mantinha unidades do poderoso (e violento) EV em todos esses países.

Revoltas por mudanças no Regime Estalinista na Hungria (Revolução Húngara de 1956) e na Tchecoslováquia (Primavera de Praga, de 1968) foram duramente massacradas. Mas e a reação internacional? Sob a política da Cortina de Ferro a URSS não se via obrigada a revelar ao mundo o que acontecia nela ou em seus satélites. Foi a mesma política adotada no acidente de Chernobyl.

República “Democrática” alemã?

Brasão da polícia secreta alemã oriental.

Dois países foram ocupados e divididos entre os aliados (URSS, EUA, França e Reino Unido) ao término da Segunda Guerra Mundial: Áustria e Alemanha. Os países ficaram sob quatro zonas de ocupação e suas capitais (Viena e Berlim) divididas entre os 4 também. Porém, em 1955 a Áustria recobraria sua soberania pelo Tratado de Estado Austríaco.

A Alemanha não teria a mesma sorte. A 7 de Outubro de 1949 seria fundada a Deustche Demokratische Republik, a República Democrática Alemã, ou Alemanha Oriental (AO). Democrática. Pero no mucho.

Enquanto EUA e URSS se lambuzavam em admitir o ingresso  de cientistas nazistas (que usaram milhares como cobaias humanas no Holocausto) e a Alemanha Ocidental reciclava a antiga administração judicial nazista, a AO criava, das ruínas da GESTAPO (a polícia secreta nazista), a sua própria inteligência: o Ministério para a Segurança Estatal (Ministerium für Staatssicherheit), a temida STASI.

Sim, um estado que se dizia comunista engloba a outrora polícia política nazista, em seus métodos e tradições. Não me parece bem democrático. Um dado importante, a STASI tinha mais agentes de fronteiras que a quantidade de membros das forças armadas alemães orientais. Já ia me esquecendo: A STASI tinha estreitas relações com a temida (de muitos nomes) KGB. Logo podemos concluir que de facto a AO não era tão independente assim.

E a Áustria nisso?

O objetivo deste artigo não é bater, pelo menos não apenas, nos governos autoritários que sujaram todo o sangue derramado em 1917. Mas nos atuais e vergonhosos personagens que governam o país conhecido por seu frio, suas montanhas, seus vinhos e suas valsas. Sim, o mesmo país que foi tão hospitaleiro com os sofridos alemães orientais, a Áustria.

Desde a crise de imigração que se principiou em 2015, a Áustria vem se endireitando, apesar de não receber tantos imigrantes islâmicos assim. Quem era ministro do exterior desde 2013 é um pirralho que mais parece querer brincar de adulto chamado Sebastian Kurz. Este, entre 2016 e 2017 chegou a propor fechar as fronteiras da Áustria para que não entrassem mais imigrantes. E olha que a coalizão formada era entre os Conservadores e os Social-Democratas.

Em 2017, Kurz decidiu que estava cansado de brincar de Ministro do Exterior, e decidiu que iria brincar de ser Primeiro-Ministro (que na Áustria se chama Chanceler). Conseguiu, fez uma coalisão do seu cristão conservador Partido Popular Austríaco (Österreichische Volkspartei – ÖVP) com os neofascistas, populistas de direita e eurocéticos do Partido da “Liberdade” da Áustria (Freiheitliche Partei Österreichs – FPÖ).

Kurz chegou até a deslocar tropas do exército austríaco para as fronteiras com a Alemanha e Itália para impedir imigrantes de entrarem em seu país, desistindo pouco tempo depois. A Itália é um dos principais países usados como porta de entrada por imigrantes africanos que desejam adentrar o bloco europeu. Mas também, por sua posição geográfica, a Áustria chegou a ser atravessada pela “Rota dos Bálcãs”, que refugiado Sírios usavam para sair da Grécia e chegar a Alemanha.

Não durou muito, Kurz tentou concentrar todo o poder para si, e o FPÖ e os Social-democratas declararam extinto o Governo que estava. Talvez Kurz tenha aprendido que ser chanceler da Áustria é coisa de “Gente Grande”.  Quem governa o país interinamente é a Presidenta da Suprema Corte Austríaca, a mesma que aprovou no ano retrasado o Casamento Igualitário.

Neste mesmo 2017, o Presidente da Áustria (Presidente em Países parlamentaristas, como é o caso na Áustria) pediu que todas as mulheres islâmicas usassem seus trajes tradicionais islâmicos se assim quisessem. O mesmo até apareceu vestindo uma burca para total escândalo dos conservadores. O que Kurz e seus asseclas logo trataram de proibir.

Então já entendemos. Quando são pessoas vindas de países estalinistas, estas são deveras bem-vindas. Pega bem pro mundo, e mostra o quanto a Áustria se esforça sem ser um país neutro que preza pelas liberdades individuais. De fato, a Áustria nunca adentrou nenhuma aliança militar depois de 1945), e serve de sede europeia de vários organismos internacionais. E de fato as liberdades legais austríacas sobre políticas de diversidades sexuais e de gênero vem se expandido nos últimos anos.

Portanto, se a Áustria é um país aberto, por que isso agora? Pelo visto imigrantes brancos loiros de olhos azuis são deveras bem-vindos na Áustria, mas imigrantes negros ou de etnia muçulmana não o são. Principalmente se seguirem uma religião islâmica, ainda mais se não quiserem abdicar desta ao cruzar a fronteira.

Já tem algum tempo fiz um amigo “tiozão” austríaco, sob circunstâncias que não vem ao caso agora. Ele vive me dizendo o quanto eu deveria largar o Brasil e terminar meu ensino musical na Áustria. Levar minha noiva também. Certa vez eu brinquei com ele que se eu fosse pra Áustria, eu tinha medo de não voltar.

A resposta dele foi enfática: “Não volta então, ué. Fica aqui mesmo. Você gosta vem”. Isso antes dele saber que eu tenho descendência portuguesa, o que me facilitaria conseguir ser livre de visto pra UE. Quando ele soube, aí me disse mesmo: “Eu e minha esposa estamos esperando sua visita. Você vai adorar isso aqui”. Aí um dia o questionei sobre a crise de imigrantes, ao meu espanto ele se diz contra “esses imigrantes que são rudes, e se recusam a respeitar a cultura e tradições da Áustria”.

Então eu ir pra Viena fazer faculdade de música, pode. Eu gostar do idioma e do Romantismo Tardio Austro-Alemão do Século XIX pelo visto deve me facilitar. Mas talvez se eu fosse uma mulher síria ou somali, islâmica, que gosta de usar véu, e não abrisse mão da minha religião e hábitos, aí já é outra coisa.

Ele é casado com uma, agora senhora, asiática. Seus filhos e netos todos têm traços étnicos asiáticos. Ele é louco por viajar. Adora conhecer outros povos e outras culturas. Mas não se esses outros povos e culturas forem pra Áustria, pelo visto.

Tenham a hombridade que vocês tiveram em 1989! Por favor amigos e amigas austríacos, não permitam que seu país seja visto de forma tão hipócrita pelo mundo. Não sejam as pessoas que adoram gente etnicamente europeia, mas tem asco das outras etnias. Não forcem ninguém a se diluir na cultura de vocês. Logicamente eu sou contra regimes islâmicos totalitários, que majoritariamente são teocráticos e patriarcais, mas desde que se mantenha a tradição democrática, cada um tem direito de manter ou não suas tradições.

A proibição de “objetos que cubram o rosto” levou a polícia de Viena a ter que prender um pôster em tamanho real dos bonequinhos ninjas do filme da Lego.

 

 

 

 

 

 

 

 

Marcado como:
áustria / neofascismo