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A natureza não precisa de nós, nós precisamos dela

Jéssica Milaré

Jéssica Milaré, travesti, bissexual, doutoranda em Matemática pela Unicamp, militante LGBT, transfeminista e do PSOL, membro da Associação da Parada do Orgulho LGBT de Campinas. Travesti socialista que adora debates polêmicos, programação e encher o saco de quem discorda (sem gulags nem paredões pelo amor de Inanna)

Sucedemos em tirar essa foto e, se você olhar bem, verá um ponto. É aqui. Nosso lar. Somos nós. Todo mundo que você já ouviu falar, todo ser humano que já viveu, viveu suas vidas nesse ponto.

O conjunto de todas as nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e forrageiro, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilizações, cada rei e servo, cada casal apaixonado, cada criança esperançosa, cada mãe e pai, cada inventor e explorador, cada professor de moral, cada político corrupto, cada superstar, cada líder supremo, cada santo e pecador na história de nossa espécie morou ali — em uma nuvem de poeira suspensa num raio solar.

A Terra é um pequeno estágio em uma vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramado por generais e imperadores para que em toda sua glória e triunfo pudessem se tornar mestres temporários de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim realizadas pelos habitantes de um canto do ponto sobre habitantes quase idênticos de outro canto do ponto. Quão frequentes seus desentendimentos, quão ansiosos eram para matarem uns aos outros, quão fervorosos eram seus ódios. Nossas poses, nossa grandeza imaginária, a ilusão de que estamos em alguma posição privilegiada no universo são desafiadas por este ponto de luz pálida…

Na minha mente, talvez não haja melhor demonstração da tolice das concepções humanas que a distante imagem de nosso pequeno mundo. Para mim, ela sublinha nossa responsabilidade de lidar com mais gentileza e compaixão uns com os outros e preservar e celebrar esse ponto pálido azul, o único lar que conhecemos.

Carl Sagan, discurso na Cornell University, 13 de outubro de 1994. Tradução nossa.

 

A sonda espacial estava a seis bilhões de quilômetros no momento da foto. Nossa única casa nos parece tão grande, nós nos parecemos tão grandiosos. Na verdade, em nossa vultuosa insignificância, somos menores que um grão de poeira. Verdade seja dita: o ponto pálido nessa foto ainda amplia nosso real tamanho. Se a sonda espacial Voyager 1 tirasse uma foto de nós agora, não seria possível sequer nos enxergar.

Ultimamente, tem acontecido grandes catástrofes na América do Sul. De um lado, a devastação de nossas reservas florestais está longe de ser novidade. De outro, temos consciência, mais do que nunca, do poder desastroso e catastrófico de nossas mãos. Sabemos, ao contrário de nossos antepassados, que a natureza é limitada. Todo o desenvolvimento científico e tecnológico humano, o maior da história da Terra, demonstra justamente agora sua fabulosa fraqueza.

Se, por um lado, parecíamos ter atingido o ápice do controle racional da natureza, por outro, a própria humanidade está descontrolada. Produção em larga escala, computadores, inteligência artificial, robôs, androides. Apesar de tudo isso, nunca chega a hora de parar, refletir, pensar na nossa própria existência. Cuidar da humanidade.

Joga-se comida fora enquanto humanos morrem de fome. Prédios ficam vazios e ai de quem tentar habitá-los! Há terrenos férteis desocupados, mas algum pedaço de papel em alguma gaveta diz que eles pertencem a alguém. Os tubarões ainda assim querem mais: devastam florestas nativas para vender a madeira, plantar soja, criar gado. Camponeses que usam terrenos vazios para trabalhar são chamados criminosos. Desempregados protestam por emprego e são rotulados como vagabundos. Garotas cis, trans, travestis, na maioria das vezes por falta de alternativas, passam a trabalhar com sexo e ouvem: vão fazer algo de útil! Engraçado é que buscar prazer sexual é muito mais útil e humano do que produzir lixo e destruir florestas.

No momento mais patético da História, obtemos tecnologia, ciência, recursos que poderiam ser usados para garantir todas as necessidades básicas e a sobrevivência da humanidade. Ainda assim, sobraria muito para desenvolver a própria existência humana: artes, filosofia, ciência, religião, esportes… Preferimos, em vez disso, produzir para jogar no lixo. O Ser Humano parece um rinoceronte gigante e bêbado: tem um enorme poder, porém, nenhum controle.

Há quem fale em salvar a natureza. Se ela tivesse dentes e voz, estaria rindo de nossa magnífica estupidez: “Vocês não conseguem nem salvar a si mesmos e querem salvar a mim?”

Se poluirmos todas as águas do mundo, a vida no planeta continuará. Humanos não suportam sequer cinco dias sem água.

Se nossas mãos destruírem todas as florestas, o tempo as trará de volta. A dúvida é se nós, com as bruscas mudanças no sistema ecológico, conseguiremos sobreviver.

Todo o lixo que deixamos para trás, embora nos seja insuportável, será o novo solo de uma nova vida a ele adaptada.

Se todo o gelo dos polos derreter e toda a superfície ficar coberta de água, para a natureza, não fará muita diferença. Foi na água que a vida primeiro nasceu.

Não podemos destruir a natureza, não somos tão potentes assim.

Ainda que consigamos a admirável proeza de extinguir todas as espécies de animais, ainda restarão as bactérias. Toda a vida no planeta descende de células que surgiram há 4 bilhões de anos. Se fosse capaz de se importar, a natureza não ligaria de ter de esperar alguns milhões ou bilhões de anos para que a Terra fosse novamente povoada por diversas espécies. Ela tem todo o tempo do mundo. Seremos, nesta hipótese, só mais uma espécie extinta, mais uma mutação que faliu à prova da existência.

Se a Voyager 1 virasse e tirasse uma nova foto, ver-nos-ia exatamente como somos: nada. A natureza não precisa de nós, ela vai sobreviver. Com ou sem a humanidade.

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Desmatamento