Para Bolsonaro, bandido bom é bandido parente

Direita Volver

Coluna dedicada ao acompanhamento semanal das ações e absurdos dos representantes da extrema direita. Por Ademar Lourenço.

Em um mundo ideal, seria um absurdo falar de familiares da primeira dama envolvidos com o crime. Afinal, ter parentes criminosos não define o caráter da pessoa. A matéria da revista Veja expondo a avó de Michele Bolsonaro, que foi envolvida com o tráfico, ultrapassa certos limites éticos. Mas a maneira como seu marido, o Presidente da República, reagiu, é algo que merece nossa atenção. 

Veja estes dois vídeos, cada um com menos de um minuto: Vídeo 1. Vídeo 2. No primeiro, ele demonstra preocupação com uma senhora que já cometeu um crime mas pagou pelo que fez. Inclusive se preocupa com a possibilidade dela ser alvo de preconceito por parte dos vizinhos. No segundo vídeo, ele tem outro comportamento. Comemora a morte de presidiários e diz que quem comete algum crime “tem que se fuder e acabou”. São dois Bolsonaros totalmente diferentes. Qual deles é o verdadeiro? 

Na verdade, os dois. Não é difícil explicar. Se Bolsonaro tivesse noção de como funciona um país civilizado, ele entenderia que o mesmo tratamento aplicado a um desconhecido também deve ser aplicado a um parente dele. Se um criminoso que ele não conhece “tem que se fuder e acabou”, a avó da esposa dele também “tem que se fuder e acabou”. Se ele se preocupa com os direitos humanos básicos da avó de sua esposa, também tem que se preocupar com os direitos humanos básicos de um desconhecido.  

Mas Bolsonaro não sabe o que é uma coisa chamada “impessoalidade”. É um princípio que diz que você deve defender o direito de uma pessoa independente da relação que você tem com ela. Se seu filho é homossexual, você com certeza vai achar ruim que ele sofra preconceito. Mas você também deve achar ruim que todos os homossexuais sofram preconceito. Mas para Bolsonaro, apenas seu filho homossexual não pode sofrer. Os outros homossexuais que não têm parentesco com ele, “tem que se fuder e acabou”.  

Aos amigos tudo, aos inimigos, aplica-se a lei

Esse comportamento do presidente também é típico de seus apoiadores, os bolsominions. Isto foi denunciado na época das eleições, com a hashtag #meubolsominionsecreto. É o homem que acha o aborto um absurdo mas não paga pensão alimentícia, é a pessoa que cometeu um crime durante a adolescência e defende a redução da maioridade penal, é o usuário de drogas que comemora a morte de traficantes, e por aí vai. 

Essa hipocrisia é bem estudada por um grandes intelectuais brasileiros, Raimundo Faoro. Em seu livro “Os donos do Poder”, ele fala do patrimonialismo, que é o vício de achar que a sociedade deve se comportar de maneira diferente a depender da pessoa. Nessa visão de mundo, a lei não é a mesmas para todos. Se você tem parentes importantes, “é apenas um menino bom que andava em más companhias”. Se não tem parentes importantes e, principalmente, se for negro, “tem que se fuder e acabou”. 

Isso vem desde o Império Romano, continuou com o Império Português e se estabeleceu no Brasil. Como é um vício que reforça o machismo, o racismo, a homofobia e o domínio das elites sobre o povo, o patrimonialismo foi abraçado com vigor pelos bolsominions. 

Por isto eles comemoram a morte de cinco jovens sem envolvimento com o crime no Rio de Janeiro. Não é da família deles, não tem o “perfil” digno de pena. São inimigos. E aos inimigos aplica-se a lei. Se eles fossem coerentes, também deveriam desejar a morte da avó de Michele Bolsonaro. Mas ela é parte da família presidencial. Como se fosse da família deles. É uma amiga. E aos amigos, tudo. 

A esquerda não defende bandidos, só defende tratamento igual a todos

Todo bolsominion vira defensor dos Direitos Humanos quando tem um familiar enrolado com a polícia. Até inventa direitos que não existem para “o menino bom que só andava em más companhias”. Mas para o negro, o favelado, o desconhecido, aí “bandido bom é bandido morto”. 

Essa é a diferença entre nós da esquerda e eles. Não defendemos regalias para criminosos. Se uma pessoa errou, deve ser julgada e punida de maneira proporcional ao crime que cometeu. Também deve ter seus direitos básicos garantidos. Se for familiar de Marcelo Freixo ou de Guilherme Boulos, deve ter o mesmo tratamento que um familiar de Bolsonaro. 

A esquerda não defende bandidos, defende os valores civilizatórios básicos. Os bolsominions não defendem os rigores da lei, defendem privilégios para seus aliados e a eliminação de seus inimigos.