Dicionário Colostômico de Bolso

Paulo César de Carvalho

Paulo César de Carvalho, o Paulinho, é bacharel em Direito (USP), mestre em Linguística e Semiótica (USP), professor de Língua Portuguesa (lecionou na ECA-USP) e autor de materiais didáticos de Gramática, Redação e Interpretação de Texto. Publicou seis livros de poesia, constando em antologias literárias no Brasil e em Portugal (como em É agora como nunca, da Companhia das Letras, organizada por Adriana Calcanhoto). Compositor, tem canções gravadas por diversos músicos da cena contemporânea. Foi militante da organização trotskista Convergência Socialista.

“Para bom entendedor, meia palavra: bos”
(José Paulo Paes)
Bolsonaro não é homem de falar pelos cotovelos: é macho que fala reto, curto e grosso, pelos intestinos. Quando o capitão fala merda, fede. Na geometria fisiológica do discurso intestino, a menor distância entre dois pontos é a reta, isto é, o reto: é assim que as palavras chegam diretamente à sua boca de lobo. Quando Jair abre a boca de fossa, espalha merda para todo lado: a semântica é uma questão anatômica, fisiológica; o sentido é sentido. O dicionário discricionário de Bolsonaro é de bolso, é de bolsa colostômica: as suas poucas palavras são sempre concretas; elas têm peso, cheiro, cor e volume (merda é um substantivo marrom, espesso e fedido). É pior Jair se acostumando com a merda no ventilador: se sabedoria popular fosse mesmo sábia, aliás, saberia que ele está cagando para ela (tanto para ela, a sabedoria, quanto para ele, o povo). Nem precisaria fazer tanta força: quem tem merda na cabeça, quando abre a latrina, caga mesmo na cabeça (e no “olvido”) do outro. Quem só percebeu agora que está na merda, demorou para sentir que a coisa está fedendo faz tempo e ainda vai feder muito mais (se o povo não botar uma rolha na boca colostômica do Bolsonazi): “estar atolado na merda”, infelizmente, não é mera expressão idiomática – quem dera “que merda!” fosse apenas uma interjeição… O poeta já tinha avisado que havia uma merda no meio do caminho: quem não olha por onde anda, caminha na merda; quem não vê onde pisa, pisa na merda. Já estava escrito nos “anais” bíblicos: no princípio era a merda. Messias escreveu (não leu o pau comeu) na tábua dos desmandamentos: levantarás falso testemunho; cobiçarás; roubarás; não amarás; matarás! O inferno é vermelho; a cor da pele do Diabo é vermelha; a camisa dos petralhas é vermelha; a bandeira comunista é vermelha… Eles vão cagar no pau; eles vão se cagar de medo: pau no cu dos vermelhos. Pintem os corações de azul anil; tinjam os cabelos de amarelo; embranqueçam as almas; deixem os cérebros verdes! Cagar vermelho é dar bandeira: caguem verde, amarelo, azul e branco! Perfumem a merda! Deus acima de tudo!
PS: Eis o milagre da multiplicação da merda: contra olfatos, há excrementos!