O Conto da Aia: a ficção incomodamente familiar que revela a pior face da reprodução social do capital

Tatiana Poggi*, de Niterói (RJ)
Reprodução

Originalmente um romance escrito por Margareth Atwood em 1985, O Conto da Aia ganhou adaptações cinematográfica em 1990, para o teatro em forma de ópera  em 2000 e finalmente virou seriado de televisão em 2017. A série viralizou, alcançando nível e popularidade e notoriedade nunca experimentados pelo romance original ou pelas demais adaptações anteriores.

O enredo, uma ficção distópica extremamente violenta e pesada, conta a história de June Osbourne, uma mulher transformada em escrava sexual, que luta para sobreviver em um regime autoritário, teocrático e cristão que subjuga brutalmente as mulheres como forma de manter taxas de natalidade regulares. O conto encena um futuro fictício relativamente próximo, no qual se observa uma queda vertiginosa nas taxas de fertilidade devido ao aumento da poluição e do avanço de doenças sexualmente transmissíveis. Em meio ao desespero social, a dificuldade em se encontrar uma solução para o problema, movimentos conservadores ganham espaço nos EUA, propondo soluções autoritárias e violentas como a República Cristã de Gilead. A solução de força incide sobre a sociedade norte-americana, desviando oportunamente a discussão sobre o impacto do capitalismo na destruição do meio ambiente, na natureza humana, nas condições de vida, informação e saúde para culpabilizar minorias e grupos subalternizados pela crise social. Sua justificativa é puramente religiosa, assentando-se em uma interpretação fundamentalista do texto bíblico, levado ao pé da letra e distorcido quando conveniente. A partir daí instaura-se um regime patriarcal, autoritário, fortemente hierarquizado e controlado. Censura, medo e violência estão na ordem do dia.

Nessa sociedade, as mulheres assumem funções específicas, todas submetidas a severos níveis de controle e subjugo. Esposas dos comandantes, ainda que gozem de nível sócio-econômico confortável, são subjugadas pelos maridos, proibidas de estudar, trabalhar, participar politicamente e da tomada de decisões em todo e qualquer ambiente. As tias são encarregadas de manter e organizar o regime de escravidão sexual, cabendo-lhes a função disciplinadora, que envolve desde a prática pedagógica do subjugo à punição na forma de castigos físicos, incluindo a mutilação das aias mais rebeldes. Às aias, últimas mulheres férteis da sociedade, cabe a função de escrava sexual. Levadas à força para casas de famílias de alta hierarquia social, essas mulheres são constantemente estupradas pelos senhores em um ritual macabro, com a esposa presente, até que engravidem, deem à luz, sendo então encaminhadas a outra casa, onde iniciam o processo novamente. Os níveis de objetificação são tão profundos que ao serem encaminhadas às casas de família dos “cidadãos de bem” as aias devem deixar pra trás todo traço de individualidade, toda a sua vida pretérita, inclusive seus nomes, tornando-se pertences do marido. Offred, “do Fred”, assim passa a ser chamada a nossa protagonista, June.

A primeira temporada da série é um soco no estômago. Somos transportados diretamente para esse mundo e apresentados explicitamente à toda essa violência naturalizada pela narrativa. Cenas fortes de violência física e simbólica, mostradas como cotidiano, uma sensação de desespero toma conta. A temporada consegue transmitir muito bem tanto o aspecto de horror quanto o de impotência. Todas as cenas de resistência que vibramos como forma de canalizar a revolta resvalam em algo pior que não conseguíamos mensurar. Horror e desespero é a tônica da primeira temporada.

A segunda temporada inicia marcada por flashbacks, nos remete ao tempo da crise, dos conflitos, do crescimento das propostas autoritárias, das primeiras medidas de fechamento e cerceamento das liberdades. Nos mostra tudo isso aos olhos do cidadão comum, como isso vinha sendo percebido, como aos poucos o moralismo e fundamentalismo cristão foram ganhando espaço, com medidas aparentemente aleatórias, justificadas a partir do cuidado com a família, incentivando mulheres a terem filhos e a se dedicarem aos cuidados do lar. Não eram exatamente proibições, mas estímulos, uma valorização das atividades domésticas, até com incentivos financeiros. Isso atraía alguns, principalmente famílias passando por dificuldades financeiras, uma parcela crescente no capitalismo contemporâneo. Paralelamente condenava-se abertamente práticas homoafetivas, casais eram perseguidos, humilhados, intimidados, perdiam seus empregos, muito se suicidavam ou tentavam emigrar. Aos poucos, homens heterossexuais, principalmente os casados, galgavam pequenas vantagens sociais; só eles podiam deter conta em banco ou cartão de crédito, deveriam aprovar o estudo da esposa e filhas, etc.

As transformações ocorriam de forma tão molecular, que os cidadãos pouco percebiam a gravidade do absurdo que estava sendo posto. No mais das vezes achavam estranho, até meio exagerado, porém havia um certo entendimento de que aquilo tudo era temporário, necessário em um momento de crise, mas que não ia vingar, que aquelas medidas não iam durar muito, não iriam se consolidar. E assim um monte de absurdos foi sendo aceito a conta gotas.

Aqueles que se insurgiam ou se pronunciavam sofriam retaliações, eram afastados de cargos ou empregos, publicações censuradas, jornais fechados. Mas o povo pensava, “bem, eram muito radicais mesmo”, e deixava passar. Os preconceitos estruturais foram também muito bem instrumentalizados nesse período para conseguir níveis de aceitação voluntária. E assim como os LGBTs foram perseguidos por comprometer a reprodução social, feministas, ativistas políticos de esquerda, intelectuais e profissionais liberais que expressassem qualquer tipo de crítica às medidas, imigrantes (não sequer retratados na história, como se não existissem), desempregados, moradores de rua foram igualmente perseguidos sob a alcunha de traidores do povo ou fardos para a sociedade. Esses cidadãos eram paulatinamente retirados do convívio social, sem maior empatia ou revolta, afinal era só um “bêbado”, um “vagabundo”, um “veado” e uma “sapatona”, uma “feminista mal amada”, um imigrante “aproveitador e terrorista”. “Não servem de nada, menos um.”

Soa familiar? Alguns expectadores e amigos próximos chegaram a comentar que essa segunda temporada era ainda pior que a primeira. Por que será? Se as cenas de violência explícita são bem menos recorrentes, as cenas de estupro quase não são transmitidas, por que essa sensação de que a segunda temporada “é ainda pior”? Por que essa temporada causa tamanho desconforto? De onde vem esse incômodo que nos faz quase levantar da sala e desligara TV? Se nem o estupro nos fez levantar!

A segunda temporada nos coloca em um novo lugar, em um lugar realmente muito próximo a realidade de Gilead. Novos sentimentos afloram; medo e vergonha são dois deles. Medo, pois uma coisa é ver uma ficção que, por pior e mais distópica que seja, se apresenta como algo tão irreal, tão longe do vivido que nos confortamos em saber que é só um filme, uma ficção mesmo. Outra coisa é assistirmos a esse filme/episódio e vermos ali representada, ainda que em parte, nossa vida real. Bem, aí o medo se torna real. Porque o episódio termina, mas nossa vida nesse estranho e desconfortável paralelo continua.

Vivemos em um mundo cada vez mais violento, um mundo no qual é possível observar um crescimento da cultura do ódio, desde as atitudes mais cotidianas como a indiferença para com as discriminações e o sofrimento alheio na forma de desdém do tipo “é tudo mimimi”, “no meu tempo não tinha essas frescuras”, “gente chata”; a banalização da injustiça social a partir do reforço da lógica da meritocracia, atribuindo à indivíduos nas condições sociais mais adversas a responsabilidade por seu sucesso ou fracasso; até formas politicamente organizadas do fundamentalismo cristão e de grupos de extrema-direita.[1]

Esse cenário não é restrito ao Brasil, faz parte da ascensão de uma onda conservadora mundial que tem tido êxito em eleger políticos com pautas profundamente conservadoras, intolerantes e excludentes. Em alguma medida a reação conservadora é sim uma reação ao avanço de pautas democráticas e inclusivas, às conquistas ainda que parciais dos movimentos feminista, negro e LGBT no mundo.[2] Essas lideranças se pronunciam defendendo publicamente coisas que há 30 anos seriam inimagináveis como tortura, censura, preconceitos e práticas de intolerância, perseguição aberta à oposição política e deportações em massa de imigrantes, recebendo aval de setores crescentes em suas sociedades.

Quem são eles? A) Setores do empresariado, ávidos por maiores taxas de lucro em cenários de crises constantes. Entre eles, destacam-se alguns grupos em particular como: a indústria bélica, beneficiada em momentos de grandes convulsões sociais e guerras; o setor produtor e exportador de commodities e os bancos, afetados diretamente com a queda dos preços no mercado internacional; o empresariado fundamentalista religioso, com pautas claramente reativas à conquistas de minorias e grupos subalternizados. B) setores populares esmagados por anos de políticas neoliberais que ceifam direitos trabalhistas e sociais conquistados ao longo ao século XX. C) a grande mídia, que não deixa de ser um setor do empresariado, promotora dos pacotes de austeridade e encarregada de convencer os trabalhadores e pequenos produtores que perder direitos trará mais empregos e outras vantagens para suas vidas.[3]

Racionalmente, a grande maioria de nós não quer viver no mundo do Conto da Aia e certamente não há como dizer que necessariamente iremos caminhar nesse sentido. O romance mostra uma exacerbação ficcional de aspectos que vivenciamos e observamos hoje. E isso é assustador! Isso nos constrange, nos obriga a termos que nos defrontar com aquilo que relutamos em admitir: que vivemos e somos condescendentes com a violência, com a intolerância e com a barbárie. O seriado joga na nossa cara que os germes da barbárie vivem nós. E que não estamos fazendo muito pra lutar contra isso.[4]

“não te estupro porque não merece” quão longe estamos na ficção?

 

O Conto da Aia é uma ficção, mas baseada e produzida em cima de aspectos sociais reais. Como qualquer outra ficção, o Conto da Aia é uma projeção dos nossos desejos, sonhos e medos; é uma projeção dos desafios do nosso mundo, do presente.[5] O Conto da Aia é o mundo do Capital levado às últimas consequências, tal como um dia foi o fascismo histórico. É um capitalismo organizado em torno de um regime patriarcal-teocrático, que em última instância busca garantir a reprodução social a qualquer custo, mesmo a custo da vida e da integridade das mulheres, transformadas em objetos de reprodução da mão de obra para o Capital, uma vez que só o trabalho humano produz lucro e só através da troca este se realiza.

 

  • Tatiana Poggi é professora do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). Artigo publicado originalmente no site Prosa Crítica.

 

NOTAS

[1] DEJOURS, Christophe. A banalização da injustiça social. Rio de Janeiro: FGV, 1999.

VIANA, Silvia. Rituais de Sofrimento. São Paulo: Boitempo, 2012.

POGGI, Tatiana. Direitos humanos, cidadania e crimes de ódio: um ensaio sobre o problema na Europa contemporânea. Oficina do Historiador, v. 9, p. 208-227, 2016.

[2] VON MERING, Sabine; McCARTY, Timothy. Right-Wing Radicalism Today: perspectives from Europe and the US. New York: Routledge, 2013.

ARRUZA, Cinzia; FRASER, Nancy; BHATTACHARYA, TiThi. Feminismo para os 99%: um manifesto. São Paulo: Boitempo, 2019.

[3] McCHESNEY, Robert. Rich media, poor democracy. New York: New Press, 2000.

WOOD, Ellen. Democracia contra capitalismo: a renovação do materialismo histórico. São Paulo: Boitempo, 2003.  DEMIER, Felipe; HOEVELER, Rejane. A onda conservadora: ensaios sobre os atuais tempos sombrios no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 2016.

[4] AGAMBEM, Giorgio. O que resta de Auschwitz. São Paulo: Boitempo, 2008.

[5] CARDOSO, Ciro. A Ficção Científica, Imaginário do Século XX. Uma introdução ao gênero, 1998. Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/48165239/A-FICCAO-CIENTIFICA.