Sobre cavalos e bolsoasnos na “República da Alfafa”

Paulo César de Carvalho

Paulo César de Carvalho, o Paulinho, é bacharel em Direito (USP), mestre em Linguística e Semiótica (USP), professor de Língua Portuguesa (lecionou na ECA-USP) e autor de materiais didáticos de Gramática, Redação e Interpretação de Texto. Publicou seis livros de poesia, constando em antologias literárias no Brasil e em Portugal (como em É agora como nunca, da Companhia das Letras, organizada por Adriana Calcanhoto). Compositor, tem canções gravadas por diversos músicos da cena contemporânea. Foi militante da organização trotskista Convergência Socialista.

Em 1º de janeiro de 2019, a cerimônia de posse de Bolsoasno e sua intrépida tropa quadrúpede marcou oficialmente o retorno do país a galope à “idade das trevas”, inaugurando no pasto verde-amarelo do cerrado a “nova era” do obscurantismo subdesenvolvimentista da “República da Alfafa”. Abrindo um parêntese, é importante ressaltar que essas metáforas “asininas” não são “arbitrárias”, mas “motivadas” (com o perdão do linguista Saussure pelo uso vulgar de seus conceitos): prova inequivocamente verdejante disso foi a solene saudação do macho alfa à grama da Praça dos Três Poderes, trotando de Rolls-Royce do Congresso Nacional ao Palácio do Planalto. Aliás, só para não perder a carona, vale lembrar que o carro foi inventado para funcionar como se fosse um cavalo de metal sobre rodas: ou melhor, para correr sobre quatro rodas como se cada uma tivesse dezenas de patas. Não é à toa que, na metáfora “equina” da indústria automobilística, a potência da máquina é medida em “cavalos”: o motor do Rolls-Royce presidencial, no caso, tem 53 cavalos; logo, sobre quatro rodas, isso significa que o veículo cavalga com duzentos e doze patas. Abrindo um pouco mais o parêntese, não esqueçamos que o primeiro presidente a subir nesse conversível da raça “Silver Wraith Formal Cabriolet” foi Getúlio Vargas, em 1953. Para não dizer que não falamos de cavalos (ou que trocamos de cavalos para carros, como quem muda “de pato para ganso”), quando o “Bonaparte” do Rio Grande do Sul tomou de assalto o Palácio do Catete, em 3 de novembro de 1930, os soldados gaúchos da tropa golpista amarraram os cavalos no obelisco do centro do Rio de Janeiro, celebrando simbolicamente a derrota da “República Velha”. Mas não é porque os parênteses estão abertos que tudo pode passar indistintamente pela porteira das analogias políticas quadrúpedes: o fato de Getúlio ser baixinho como Napoleão, por exemplo, não implica que ambos ficavam da mesma altura cavalgando; afinal, dois golpistas jamais montam o mesmo cavalo. A propósito, a paráfrase se duplica no dorso proto-dialético da célebre máxima do filósofo Heráclito: dois presidentes nunca andam duas vezes no mesmo Rolls-Royce, porque os presidentes não são os mesmos, porque os “53 cavalos” já são diferentes. Para entender, pois, o que Vargas e Bonaparte têm em comum, além da baixa estatura e dos cavalos (na época do francês, não havia carro), recordemos que ambos aparecem na cena política durante uma “crise de hegemonia”: ou seja, quando “nenhum dos setores da classe dominante possuía capacidade para dirigir politicamente uma nação burguesa ameaçada pela aparição das massas populares” (Felipe Demier, “O longo bonapartismo brasileiro”, Mauad X, Rio de Janeiro, 2013, p.74). Nesse contexto, o cavaleiro populista gaúcho “se colocaria acima dos interesses particularistas das frações dominantes, com o objetivo de assegurar a preservação da ordem capitalista (…). Com o início do Governo Provisório de Vargas (1930-1934), manifesta-se, assim, pela primeira vez na história brasileira, o fenômeno político do bonapartismo. Tinha início, portanto, uma forma de dominação política indireta da burguesia sobre o restante da nação” (idem), que se consumaria em 1937, com o golpe do “Estado Novo”. Posto isso, e bem guardadas as devidas proporções, o Brasil de hoje, no quadro de aprofundamento da crise econômica mundial, vive novamente, em decorrência da agonia do capitalismo, uma grave “crise de hegemonia” política, como comprova a derrota humilhante dos dois partidos tradicionais da burguesia no pleito de 2018: quem negaria que os “cavalos” do PSDB e do PMDB foram impiedosamente atropelados no páreo das urnas? Enfim, apesar das duas conjunturas críticas e do Rolls-Royce compartilhado, há obviamente várias diferenças entre Getúlio e Jair, que não se resumem às letras “G” e “J”, à origem geográfica, à posição social ou aos centímetros de altura. Refrescando a memória, em linhas bem gerais, recordemos que o baixinho fazendeiro gaúcho, vindo da abastada oligarquia agropecuária sulista, chegou ao poder no Rio de Janeiro dando um coice na porta do Palácio do Catete através de um golpe de Estado. Em contrapartida, o mediano capitão campineiro, egresso da baixa classe média, atravessou o gramado de Brasília e cavalgou a rampa do Palácio da Alvorada com o passaporte do voto popular. Olhando mais de perto os dois “Cavaleiros do Apocalipse” democrático brasileiro, enquanto a cavalgada golpista de GV passou por cima da clássica instituição do Estado de Direito, negando a legitimidade dos votos que levaram Júlio Prestes à Presidência da República, o trote trôpego de JB, simulando respeitar o rito eleitoral, dissimulou o golpe judiciário que tirou o cavalo do PT do páreo. Não fosse por meio dessa manobra política ilusionista, convenhamos, o asno – mal disfarçado de alazão – jamais conseguiria subir ao pódio do Planalto e receber a faixa presidencial, exibindo-a arrogante à nação como “meritório” troféu de uma “vitória” que, no fundo, sabemos ter sido forjada pelo acordo espúrio dos Três Poderes pútridos. Em outras palavras, por mais absurdo que isso possa parecer à primeira vista, o “cavaleiro vingador” Getúlio Vargas, apesar de ter dado explicitamente um golpe, aos olhos enfeitiçados do povo era como se tivesse sido democraticamente eleito. No caso limítrofe de Bolsoasno, entretanto, ainda que o jóquei Jair tenha sido colocado no lombo do poder pelo voto popular, o canastrão cowboy “semibonapartista” da trupe terceiro-mundista de Trump mal consegue disfarçar do público tupiniquim menos desatento (para não dizer menos tolo ou não tão ignorante) as grosseiras trapaças em sórdidos tons verdes e amarelos que os desesperados e toscos apostadores golpistas armam despudoradamente, nas já tão escancaradas baias institucionais da decrépita e hipócrita hípica democrático-burguesa da periferia do imperialismo decadente. Voltando ao ponto de partida com Napoleão, cujo sobrenome foi emprestado para denominar o fenômeno político do “bonapartismo”, é tão certo que o conceito se refere à mudança do regime democrático parlamentar inaugurado pela Revolução Francesa para o regime autoritário militar instaurado pelo golpe de Estado (conhecido como “18 de Brumário”), quanto que o cavalo branco de Napoleão era realmente um cavalo e era mesmo branco. Na versão brasileira original do “bonapartismo” getulista, ainda que alguns possam duvidar de que seu cavalo não era verde de verdade, todos têm certeza de que foi mesmo um cavalo que colocou as quatro patas no peito da nossa incipiente democracia. Já no remake “trash” do filme “semibonapartista” prot/agonizado por Bolsoasno, bastaria um olho para ver que a pelagem verde-amarela do bicho é artificial e que o cavalo é fake, quer dizer, na verdade é um jumento. Nas imagens da cerimônia de posse, foi ele quem levantou a pata direita no Rolls-Royce para saudar com o casco o gramado da Praça dos Três Poderes, como se relinchasse com sotaque alemão: “Heil Hitler, grama!”
(Na tradução integralista do chanceler Araújo: “Anauê, verde pasto!”).
Paulo César de Carvalho (Paulinho) é militante da RESISTÊNCIA-PSOL