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TEORIA

Diferenças e semelhanças entre nazismo e stalinismo

Jéssica Milaré, colunista do Esquerda Online

Existem diferenças muito importantes, mas também semelhanças entre o nazismo e o stalinismo. Nem mesmo as grandes distorções do regime stalinista e outros regimes derivados puderam apagar a importância da Revolução Russa. Entretanto, não coaduno com a onda que pretende mascarar o fato que a URSS tornou-se uma ditadura sanguinária. Que as semelhanças sirvam para que aprendamos com os erros e que as diferenças nos lembrem porque somos socialistas.

 

As diferenças

Trotsky discutiu extensamente com outros socialistas nos EUA que havia uma grande diferença entre Stalin e Hitler. O motivo da polêmica foi o pacto entre Stalin e Hitler para dividir a Polônia. Obviamente, este ato foi uma traição e, ao mesmo tempo, uma estupidez. Stalin esperava que Hitler realmente cumpriria o acordo de não-agressão.

Pois bem. O nazismo não cumpriu o pacto e continuou seu plano de dominar toda a Europa, a União Soviética e mais alguns territórios, tudo ao mesmo tempo, mesmo quando já estava dado que perderia a guerra. Queiram ou não, Stalin aceitou não explodir o mundo todo com bombas atômicas e praticamente exterminar a humanidade.

Além disso, as conquistas sociais da Revolução Russa, por mais distorcidas que foram pelo stalinismo, forçaram muitos outros países a tomarem medidas semelhantes para evitar revoltas populares. Foi assim que nasceu o Estado de Bem Estar Social, que garante os direitos mínimos da população como educação, alimentação e moradia. Como ficou historicamente comprovado, este é um jeito muito mais eficaz de impedir protestos gigantescos nas ruas das capitais do que a repressão violenta.

Um exemplo disso foi a entrevista do jogador sérvio Dejan Petkovic por Ana Maria Braga. Ao ser questionado sobre como era viver numa ditadura, Dejan respondeu que não era tão ruim. Ana Maria insistiu se não era um problema não ter o direito de votar e Dejan respondeu que sim, mas, ao menos, todo mundo tinha um emprego, ninguém passava fome.

Está aí uma lição que a direita, particularmente a brasileira, ainda não aprendeu. Os coxinhas, os ricos e os mimados não imaginam e nem sequer querem tentar imaginar o que é viver sem saber se amanhã você ainda terá comida na mesa, um trabalho e um lugar para morar. Talvez um dia eles resolvam esse grande mistério: por que alguém escolheria a segurança de ter um emprego, um lar e comida em vez do direito de votar?

 

Por outro lado…

 

Ambos regimes utilizaram extensivamente a repressão e até o extermínio de quem ousava dizer que pensava diferente. Quem concordava com o regime, mas já havia demonstrado alguma divergência, também foi vítima. Julgamentos-espetáculo eram usados por ambos para condenar, com apoio da opinião pública, pessoas inocentes. Usava-se a imprensa para divulgar, com muito sensacionalismo, só um lado da história (à moda da Lava Jato).

A repressão não era feita apenas pelo Estado, mas com apoio de denúncias de parte significativa da população. Em ambos países, nunca se sabia se seu vizinho iria denunciá-la. Algumas brigas comuns acabavam em falsas denúncias. Uma vez feita a denúncia, você iria ser torturada até confessar — e, às vezes (ops!) falecia no processo.

Um exemplo desta sanha maluca de exterminar a oposição foi o XVII Congresso do Partido Comunista da URSS, em 1934. Uma minoria expressiva votou contra Stalin. Nos famosos expurgos de 1936–38, mais da metade dos delegados deste congresso foi condenada à morte acusados de… trotskismo! Quanta burrice, os trotskistas poderiam ter ganhado a votação e tirado o Stalin do poder se soubessem contar!

Ironias à parte. Para quem ousou criticar o “grande líder” ou confessou, sob tortura, ser “contrarrevolucionária” ou o raio que o parta, pouca diferença fazia se a bala que levaria na nuca era nazista ou stalinista.

 

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A questão central é que a Revolução Russa instituiu um sistema socioeconômico pré-socialista, no qual a propriedade é pública e a economia é planificada para as necessidades sociais. A burocracia estatal soviética vivia uma vida muito privilegiada, mas protegia esse sistema econômico porque dependia dele. É por isso que Trotsky lutou para que essa burocracia fosse derrubada, mas garantindo a permanência das conquistas socioeconômicas.

Já o regime nazista, por mais autoritário que era com as empresas, preservou a propriedade privada. Mais ainda, várias multinacionais fizeram negócios altamente lucrativos vendendo produtos e utilizando prisioneiros dos campos de concentração como mão de obra forçada. Entre elas: Standard Oil de Nova Jérsei, Volkswagen, BMW, Coca-Cola, Hugo Boss e I.G. Farben (que deu origem a Bayer, Basf e outras 10 empresas). As empresas, inclusive as estadunidenses, continuaram com esses negócios até o final da Segunda Guerra. Sem eles, os nazistas teriam tido uma derrota muito mais rápida.

Justamente pelo seu caráter reacionário e anticomunista, muitos grandes capitalistas, em particular do capital financeiro, colaboraram com o nazismo para que ele chegasse ao poder, vendo-o como a solução para impedir novas revoluções socialistas na Europa. Sem o apoio financeiro dos capitalistas, os nazistas não teriam alcançado o poder.

Por outro lado, tanto no stalinismo quanto no nazismo, o regime era ditatorial. No caso do stalinismo, isso era uma faca de dois gumes: se, por um lado, ele garantia a continuidade da burocracia estatal e de seus privilégios, por outro, ele minava, aos poucos, a base do socialismo, sendo a principal delas a própria participação popular na política. É como cavar um buraco cada vez maior embaixo de um prédio: ele pode parecer indestrutível, mas eventualmente vai desmoronar.

 

Mas e a propaganda dos EUA na Guerra Fria?

 

Sim, é verdade que foram divulgados números absurdos, irreais do número de pessoas presas e mortas no regime stalinista. Não foram dezenas muito menos centenas de milhões de pessoas mortas, como divulgaram alguns liberais oportunistas e mentirosos. Porém, foram (pelo menos) quase 700 mil só nos expurgos, o que, por si só, já é de dar arrepio na espinha.

Devido aos exageros nos números, alguns intelectuais apresentam outros para defender que o regime stalinista não teria sido “tão ruim assim”. Prefiro não seguir essa linha. Como diz o ditado, quem conta os mortos é cúmplice da barbárie.

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