Annabelle 3: Uma análise dos antagonistas e das protagonistas

Eduarda Johanna Alfena

Seguindo o embalo do meu texto A Freira, este será dedicado ao mais novo e, até agora, mais sombrio capítulo do Invocaverso, o universo compartilhado de Invocação do Mal.

Importante salientar que eu não tive oportunidade de assistir ao Spin-Off anterior “A Maldição da Chorona (The Curse of La Llorona)”, pois ele saiu de cartaz em menos de 3 dias. O quanto antes ele saia em DVD e eu possa adquirir, será feito texto sobre ele também.

Aviso: este texto contém revelações de enredo (spoilers).

Assim como no texto anterior, deixo abreviações, para facilitar a compreensão: Lorraine Warren (LW), “Ed” Warren (EW), Padre Gordon (FG), Mary Ellen (ME), Daniela Rios (DR), Vestido Assombrado (HD), Boneca Annabelle (AD), “Demônio Annabelle” (ADE), Bob Palmeri/ Bob “das bolas” (BP).

Pretendo analisar as personagens do filme. Diferentemente do texto anterior, começarei pelos “vilões”. Um diferencial que esse filme trouxe foi a enorme quantidade de vilões secundários. Geralmente os filmes do Invocaverso se focam em uma entidade poderosa, raramente ajudada por um demônio mais fraco. Nesse filme, são pelo menos 5 vilões secundários.

A ordem segue o critério de quantas vezes as entidades aparecem e o grau de periculosidade que elas representam.

A Boneca do Demônio

É a personagem que ajuda a vilã principal de Invocação do Mal e que mereceu 3 filmes só dela. Trata-se de uma raríssima boneca de porcelana inspirada na filha do seu construtor (que abordarei quando fizer texto dos demais filmes do Invocaverso). Porém, devido a uma série de eventos, acabou por servir de canal de um poderoso demônio cujo nome desconhecemos, mas identifica-se por Annabelle, como se chamava sua primeira dona.

Boneca demoníaca no banco de trás do carro dos Waren. Dependendo do jogo de luz e sombra, sua feição muda de boneca inocente para endemoniada.

Tem uma aparência extremamente desgastada que contribui para o clima de terror que seu “hospedeiro” causa. Apesar de jeito inocente, ela não está trancada à toa: matou pelo menos duas pessoas e foi responsável pela morte de outras quatro. As pessoas que não matou, feriu gravemente, tanto física quanto espiritual e psicologicamente.

Entre seus poderes estão uma velocidade muito acima da média, telecinesia, leitura da mente e das emoções, geralmente ataca criando uma série de ilusões profanas que desnorteiam as vítimas. Porém, quando precisa, ela assume a sua forma demoníaca que tem mais de 2 metros de altura, além de uma força e resistências fora do comum.

Como estava em seu território, ela “acorda” outros espíritos para que eles a ajudem em sua meta: Tomar a alma da filha dos Warren, Judy. Ou pelo menos matá-la. Ela segue à risca as regras do Invocaverso: para possuir alguém, a vítima tem que estar fraca de mente e espírito, fé e vontade.

Mesmo aprisionada em um armário sagrado, ela demonstra ter uma influência que trespassa essa barreira, como quando ela consegue manipular DR a libertá-la.

Nos outros filmes geralmente está sozinha, mas como nesse tem uma enorme quantidade de “servos”, ela apenas os comanda para que façam o trabalho duro por ela. Tal fato também demonstra que ela é um ser de maior força do que os demais espíritos do museu, evidenciando sua liderança sobre estes.

Uma outra característica marcante dela é sua rígida paciência. No segundo filme, que conta sua origem, ela esperou 12 anos até surgir a vítima adequada para ser manipulada a libertá-la. Nesse, ela aguardou por um ano por uma nova presa.

Apesar de quase ter conseguido, ela não rouba a alma de Judy, que com a força de suas parceiras a tranca novamente. Porém, mesmo após todo o final feliz do filme, as cenas dos créditos terminam por mostrar uma imagem sua em vermelho. Em minha visão isso simboliza que apesar de vencida, ela continua lá: Esperando, paciente, até que outro humano tolo a libertará.

Imagem: o demônio em uma de suas formas favoritas, de “Abelhinha”. “A Annabelle pode sair pra brincar?”.

Uma Marcha Nupcial Sangrenta

O segundo vilão tem uma aparência ainda muito mais inocente do que a boneca: um vestido de noiva.

Imagem: Noiva do vestido assombrado. É sempre vista com uma faca em punho, e vestido ensanguentado.

Pouco é contado sobre a história desse vilão. Sabe-se que é um vestido possuído que torna as pessoas que o vestirem extremamente agressivas. Aparentemente as noivas acabam matando seus nubentes poucos momentos antes de subir ao altar.

Este é um exemplo de como o Invocaverso mescla os dois maiores subgêneros do universo de terror: sobrenatural e Slasher. No universo mesclado, boa parte das entidades diabólicas (ou seja, sobrenaturais) são do tipo “homicida de possessão”, que induz suas vítimas a se tornarem assassinas sanguinárias (isto é, Slashers) e depois a cometerem suicídio, muitas vezes pela culpa. O objetivo é levar suas almas a serem condenadas à danação eterna. Inicialmente perseguindo Judy, o vestido se preocupará em perseguir DR.

O Cão nem sempre é o melhor amigo do Homem

Em certo período do filme, BP vai fazer uma serenata romântica para tentar ganhar o coração de ME. Logicamente Annabelle não iria permitir a manifestação de sentimentos bons perto dela. Da neblina surge esse novo vilão. Não sabemos se é um Lobisomem ou um Cão Infernal (Hellhound). O que sabemos, porém, é que ele é capaz de causar violentos danos físicos.

Pague por seu Transporte

O último vilão potencial que vemos é uma entidade conhecida apenas como “O Barqueiro”. Trata-se de uma entidade que mata as pessoas e coloca um par de moedas pesadas sobre seus olhos. Aqui faz-se a referência ao Barqueiro Caronte da mitologia grega que levava as almas dos mortos para Hades. Também é o barqueiro que faz a mesma função, só que dessa vez no Inferno, como exposto na Divina Comédia, de Dante. Como ME ficou com mais medo dele, será ela a perseguida por este.

Imagem: Desenho do Barqueiro. Só seus olhos cobertos de moedas e aparência esquelética proporcionam o terror.

Menções (Des)Honrosas

Dois vilões menores que aparecem para fechar trama são uma armadura de

Imagem: Antes um nobre guerreiro, armadura é agora habitada por um espírito maligno.

samurai possuída e um televisor possuído. A Armadura aparentemente funciona da mesma maneira que HD. Ela tenta as pessoas a vesti-la. Quando ME chega próxima a esta, dá pra ouvir várias vozes em desespero. Pelo que fica compreendido ela foi usada por um samurai que assassinava pessoas indistintamente com o fio de sua Katana (as famigeradas espadas samurai).

Já o Televisor se relaciona com vários outros objetos do Museu dos Warren e mostra um momento ligeiramente no futuro. O televisor demonstra ter um controle sobre as vítimas, uma vez que estas fazem exatamente o que ele mostra. Como o museu dos Warren está lotado de objetos assombrados, os fãs já correram para pedir Spin-Offs desses objetos.

A Babá Sempre Protetora e Zelosa

A partir de agora, iremos analisar as protagonistas. A babá ME aparenta ser uma moça boa e, com muita boa vontade, toma conta de Judy enquanto seus pais saem em mais um caso.

Desde o começo demonstra ser uma pessoa educada e zelosa, preocupada apenas em fazer o melhor trabalho que possa. ME demonstra um carinho especial por Judy, que percebe ser uma menina muito triste e solitária. Terá papel fundamental para salvar o dia na casa dos Warren. Tudo o que ela quer é deixar essas entidades ruins longe de Judy.

Juntamente com Judy, ME será o alvo dos espíritos malignos. Ela foi perturbada pela outra forma de ADE, a Abelhinha, será perturbada por vários tipos de Poltergeist, será alvo do Barqueiro, da Armadura Samurai e ainda será quase assassinada por sua possuída amiga. Apesar de todos esses ataques, ME não foi possuída nenhuma vez, pois conseguiu se manter firme e forte a todo momento.

Imagem: Mary Ellen confrontada com o Poltergeist. Batem na porta, mas nunca há alguém lá.

Amiga intrometida

Uma outra personagem importante para o filme é a garota Daniela Rios. Ela nos é apresentada como uma chata enxerida. Tudo o que ela quer é convencer sua amiga ME a deixa-la ficar com ela e Judy na casa dos Warren. Ela também demonstra uma curiosidade, em certa medida irritante, pela casa. O filme inicialmente a retrata como tendo a típica “curiosidade feminina” que sempre causa imensos estragos, como Eva (personagem da Bíblia) e Pandora (da mitologia grega).

Imagem: Daniela diante do maior erro de sua vida: Libertar a boneca.

Mais adiante, entretanto, aparece que a verdadeira intenção de Daniela é conversar com seu falecido pai, pois sente culpa pela sua morte (aqui, sim, uma característica que somos ensinadas: a sentir culpa por tudo). ADE manipula oportunamente este sentimento para seu objetivo de libertar-se.

O uso do sentimento de culpa de DR fica evidente na cena onde ela, de volta ao museu, vê seu pai num reflexo. Ao virar-se, ele grita que a culpa é dela. Fica evidente para quem está assistindo que não é o espírito dele, afinal, ele não gritaria dessa forma. Mas é possível, talvez provável, que DR tenha pensado que era realmente ele. Se esse foi o caso, o temperamento agressivo dele seria uma amostra de que ele não aceitaria as desculpas dela. Assim, o demônio busca mergulhá-la ainda mais na culpa.

Após ser torturada emocionalmente pelo “seu pai”, ela nota que AD não está em sua caixa, mas ela está trancada no museu. Agora vítima do televisor fantasma, quase cairá na armadilha mortal do “telefone demoníaco”, sendo salva por Judy no último segundo. Finalmente livre do museu, ela será perseguida pelo HD.

Imagem: Daniela prestes a receber castigo espiritual das entidades sombrias do museu enquanto se pergunta: “Aonde a boneca foi parar?”.

Daniela não consegue escapar da ira assassina do vestido e leva uma facada no abdômen. Mas, ao cair, percebe que era apenas uma ilusão e a noiva do vestido a possui.

Neste momento, ela se torna vilã, contra sua vontade, e ataca as duas outras protagonistas. A história parece nos induzir à ideia que a possessão foi, ao menos em parte, culpa dela. Quem a salva é Judy, após ligar o projetor com um vídeo de seu pai realizando um exorcismo. A imagem da cruz é projetada bem no rosto de DR.

Imagem: Daniela sendo exorcizada. Uma das cenas mais assustadoras do filme. Impressão minha ou tem semelhança com a “Llorona”?

Despossuída, DR dará ajuda a suas amigas trancafiando AD de volta no armário. Findo o filme, ela será orientada por LW que ela não deve mais sentir culpa alguma e que seu pai morre de saudades dela. Ela ajudará Judy levando várias crianças para sua festa.

Uma legítima Warren

Esta é a última personagem analisada e também mais importante: Judy Warren, a filha única do casal. e desde os princípios do filme ela demonstra ter herdado a clarividência de sua mãe.

Ela aparenta ter um grande medo de ir à escola. Em parte por sentir-se perseguida pelo espírito do padre fundador, em parte por ser vítima constante de bullying por ter pais diferentes. Suas colegas acreditam que tudo que vem dela é assombrado. Isso também a leva a uma forte solidão: ninguém vai a suas festas por medo da casa dos Warren. Avançando no filme, vemos que Judy começa a sentir coisas estranhas na casa, mesmo sem saber que DR abriu o armário da AD.

Judy se diferencia das demais não apenas por ter algum conhecimento bíblico e sobre os seres sobrenaturais, mas também clarividência e por ter mais fé. É ela quem mais utiliza crucifixos para se defender das entidades das trevas e sua habilidade a faz sentir o perigo.

Relembro uma das cenas mais memoráveis do filme, quando a sombra da noiva se move por trás das paredes, aparecendo nas janelas e nos espelhos. Ao passar pelo crucifixo, ele se inverte. Outros objetos vão caindo quando ela passa por eles. É uma cena semelhante a outra em A Freira, na qual Valak passa em sombra até chegar no espelho e rugir para Sister Irene.

Entretanto, surpreendentemente ela não sai de um espelho, como Valak, mas ela abre a porta e se prepara para atacar Judy com uma faca de açougueiro. Isso induz à ideia de que ela seria morta rápida e dolorosamente ou possuída. Ao ouvir seu grito, ME e DR vão socorrê-la e a encontram abaixada, segurando o crucifixo com força enquanto reza.

Fica nítido que a filha dos Warren é uma vítima especial. Será ADE quem clamará pra si a honra de possuí-la. Não à toa, é em seu quarto que ADE mostra sua forma demoníaca. Relembrando, Judy, à noite, no pânico, derruba sua luminária com o mosaico colorido. A boneca iluminada exibe sombras diferentes a depender da cor. Cada sombra representa um estágio diferente da vilã: na luz verde, a sombra tem a forma da boneca; na amarela, a da gentil Abelhinha; na azul, a da assassina Janice/Annabelle Higgins com a faca em punho; na luz vermelha, sua forma mais sinistra, a real.

Quase ao fim do confronto, quando Judy coloca a boneca na caixa, ADE a segura e começa a sugar sua alma. Ela agarra uma cruz próxima e a enfia na cabeça do demônio, queimando-o dolorosamente. Com a ajuda de DR, as três conseguem trancar a boneca novamente. Note-se que Judy continua com o crucifixo forte em sua mão, pronta para enfrentar o que quer que tenha sobrado.

Imagem: Novamente dentro do jogo de luz em sombra, a boneca Annabelle com expressão enraivecida e extremamente odiosa. Parece estar olhando diretamente para as moças, principalmente para Daniela.

Conclusão

Apesar de não dirigido por James Wan, o filme mantém seu norte de personagens femininas de destaque, com peito e coragem para enfrentar “as forças do mal”. O único homem de coragem do filme é EW. Mas ele está fora do cerne da trama. Os demais, com exceção do Bob “das Bolas”, não fazem nada e beiram ser personagens terciários.

Até podemos afirmar que Bob fora pra cima do Cão Negro, mas, por causa deste, aquele acaba ficando preso dentro do galinheiro por muito tempo. Novamente são as mulheres que são perseguidas, que enfrentam os espíritos malignos e os vencem.

Justiça seja feita ao espírito do Padre, que aparece para ajudar Judy, o que reforça o dizer de ME que “nem todos os fantasmas são maus”. Mas o desencarnado funcionário de Deus faz muito pouco no filme. E só nesse ponto percebemos sua função “heroica”. Tudo leva crer, até esse momento, que ele seria um espírito a perseguir e atormentar Judy. Ela está sempre armada de um crucifixo, que sempre que evocado, o Padre vai embora, dando a ideia de ser um espírito maligno. “O Freiro”, como brinquei na hora.

Mais uma vez, mulheres de peito e coragem enfrentando seus temores mais profundos e salvando o dia.