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MUNDO

La Mano de Dios de Maradona, 33 anos depois

Gabriel Santos, de Marechal Deodoro, AL

De acordo com a fé e com a história que nos contam, 33 seria a idade de Jesus Cristo quando Ele foi crucificado em uma Sexta-Feira na cidade de Jerusalém, há 2019 anos.

Sem nenhuma relação com o fato, há exatos 33 anos atrás, outro ser que é adorado como um Deus, para ser exato, como o mais humano dos Deuses entrava para a história operando diante do mundo seus milagres.

O ano era 1986. O acidente de Chernobyl criava uma nuvem tóxica e iniciava a luz vermelha para as usinas e energia nuclear. Simone de Beauvoir deixava a vida na terra. O cometa Halley cruzava os céus terrestres. O ditador Doc Duvalier fugia do Haiti com medo do povo e levava em seus bolsos e nos bancos a riqueza do país.

O ano era 1986. O México recebia as melhores seleções do mundo na décima terceira Copa. Aquilo que nunca havia sido visto aconteceu. Zico, Sócrates e Platini perdendo pênaltis, e todos na mesma partida.

Foi há 33 anos, em 22 de junho, o ano de Diego Armando Maradona. Ou simplesmente Don Diego, ou somente Maradona. Com Ele o orgulho argentino ferido foi recuperado. Com Ele a América Latina subia as alturas, tendo direito a uma a ajuda divina de Deus para derrubar seu algoz. Diante de 114 mil pessoas. No estádio que 16 anos antes viu Pelé conquistar o tri-campeonato para o Brasil, agora assistia e reverenciava aquele que com seu segundo gol, deixou os jogadores ingleses deitados no chão, e deu uma caminhada para a eternidade. Maradona, o mais mortal dos Deuses, o mais espetacular de todos aqueles que ousaram jogar esse esporte chamado futebol.

Maradona é um personagem único do grande teatro que é o futebol e do espetáculo que é a vida. Desde cedo se recusou a ser mero figurante. Aos doze anos já era conhecido. Ainda um menino jogou contra os adultos, 20 anos mais velhos. Ainda menino, dentro de campo, apanhou destes adultos. Humilhou estes adultos. E ganhou destes adultos. Aprendeu desde cedo a ser reverenciado e ter seu nome gritado por multidões de milhares de pessoas em um estrondoso coro.

O menino das ruas pobres de Buenos Aires aprendeu a driblar a pobreza, se tornou um novo rico, conviveu com carros mais caros, bebidas mais caras e com as drogas. Maradona fugiu da fome, encontrou o luxo, e achou que este era eterno.

Eduardo Galeano escreveu que Don Diego cometeu o “pecado de ser o melhor”, e que “Maradona carregava o peso de ser Maradona”. E cá entre nós, não deve ser fácil ser Maradona. A cada drible. A cada gol. E em especial, depois do feito há 33 anos. Toda vez que Maradona pegava na bola tinha sobre suas costas o peso da fé, esperança e das orações de milhões de torcedores. Todos os argentinos. Todos os moradores da parte Sul da Itália. E outras milhões de pessoas ao redor do mundo. Colocavam a expectativa diante da coluna vertebral daquele homem que passava a ser reverenciado como um Deus.

Quando se diz que Maradona era um Deus na terra não é mera licença poética. Na mega católica Nápoles dos anos 80, a imagem de Diego se misturava no imaginário popular com a dos santos cultuados na cidade. Hoje, existe inclusive a Igreja Maradoniana. A mais pagã das santas religiões.

Analgésicos, aplausos, gritos, ovações, dores, calcanhar inchado, coluna que não funcionava, insônia, sexo, cocaína, desejo de sumir e ser invisível, dribles, gols, mais dor, outra carreira de cocaína, mais analgésicos e mais sexo para terminar a noite. A rotina de um Deus entre os seres humanos. Maradona queria ser apenas Diego, um jovem argentino que pudesse caminhar nas ruas de Buenos Aires durante aqueles últimos anos da década de 80. Mas Maradona era Maradona.

O ereto Maradona aos poucos parecia que cairia. Continuava com a bola no pé, grudada, disparando no gramado, deixando seus adversários no chão, mas com o passar do tempo, era notável que Don Diego jogava mais curvado. Seus ombros se deitavam sobre seu próprio corpo. Maradona carregava uma cruz nas costas. Era, como descreveu Galeano, o pecado de ser o melhor. Assim como Jesus, Maradona caiu. Tropeçou fora de campo. Nas polêmicas. Na marcação da imprensa. Nas regras injustas de uma Fifa mercenária e poderosa.

Maradona é arrogante, é bêbado, é drogado, é fútil, falastrão e mulherengo, é incontrolável. Diego não se parece tanto com o Deus da mitologia judaica-cristã. Cheio de perfeição, que do alto do Céu nos mostra o caminho e nos castiga. Diego lembra mais os deuses de tempos antigos, do Egito, da Grécia, dos Maias. Maradona lembra um Deus com facetas humanas, que falha, que erra e por isso tantas pessoas se reconhecem nele.

ReproduçãoO ano era 1986. Há exatos 33 anos atrás. Sob o peso da guerra, diante da pressão de milhões de torcedores. O já curvado Maradona correu com a pelota. Os ingleses foram ficando pelo caminho. Maradona transformou um gol em um gol do século. Uma partida de futebol virava uma revanche de um conflito bélico. Maradona correu com a pelota, só parou quando não tinha mais ingleses. As Malvinas eram novamente da Argentina e a América Latina era livre. Pela perna esquerda de Deus.

Trinta e três anos depois, Diego ainda sente o peso de ser Maradona. A FIFA ainda o odeia. O povo ainda o ama. Os ombros ainda doem. Em sua pele traz o rosto de Che Guevara tatuado. Em suas declarações, como de costume, traz polêmicas. Dedica vitórias a Nicolas Maduro. Se diz soldado da Revolução Bolivariana. Defende Lula com unhas e dentes.

Minha fé no socialismo me faz um materialista irredutível. Mas caso minha alma necessitasse adorar um Deus, com certeza seria o mais humanos dos deuses. Aquele argentino e socialista de um metro e sessenta e cinco, que derrotou o imperialismo e resgatou milhões.

Viva Don Diego! Viva a América Latina! Viva o Socialismo! Viva Maradona!

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Argentina / futebol