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A educação crítica incomoda

A educação crítica incomoda

Chico Alencar

Chico Alencar é professor de História graduado pela UFF, mestre em Educação pela FGV e, atualmente, integra o projeto Universidade da Cidadania, da UFRJ. Tem 27 anos de experiência na política institucional: foi deputado federal por quatro legislaturas, deputado estadual e vereador no Rio. Ganhou nove vezes o prêmio de Melhor Deputado do site Congresso em Foco e foi escolhido o parlamentar mais atuante do Brasil. Tem 69 anos e 33 livros publicados. É filho de um piauiense e uma paulista, pai de quatro filhos e avô de cinco netos.

A educação, em especial na sua forma “ensino”, ministrado pelas redes públicas, é um incômodo para os governos autoritários e regressistas. Inclusive por envolver milhões de pessoas, crianças, jovens, adultos – e suas famílias. No Brasil de hoje, são nada menos do que 56 milhões no ensino básico (fundamental e médio) e 8,3 milhões no ensino superior.

O estrangulamento da educação pública é um projeto do governo Bolsonaro. Faz parte da sua “guerra cultural cruzadista” e retrógrada contra o avanço do conhecimento. O obscurantismo não suporta o pensamento vivo, pois ele aniquila preconceitos e dogmatismos.

Essa cruzada bolsonarista contra a educação está criando, entretanto, uma “frente” de desgaste que pode levar à deterioração não do ensino público, já bastante precarizado, mas do arranjo que ocupa o Poder Central no Brasil.

Nada é para já. Aparentemente, o ensino público parece perder a batalha contra as forças do privatismo e do interesse tosco, mesquinho e imediato. Essa disputa vem de longe e tem a ver com concepção de mundo. José Saramago ao receber o merecido Prêmio Nobel de Literatura, em 1998, disse que “vivemos uma quadra estranha da humanidade, onde as pessoas chegam até a Lua mas não conseguem bater, solidárias, na porta do vizinho”.

Educar, hoje, é tão difícil quanto necessário.  Educar, mais do que nunca, é acumular saber para humanizá-lo, distribuí-lo e dar-lhe um sentido ético, solidário, coletivista.  É contribuir para dar às pessoas um instrumental que as permita emancipar-se e dizer: “sou o que faço com o que fazem de mim”. Essa educação não interessa aos atuais donos do Poder. Reafirmá-la, nas salas de aula e nas praças públicas, é resistir.

O primeiro saber, básico para qualquer educadora ou educador humanista, é o da compreensão da realidade.  Realidade do mundo globalizado que chega ao final da segunda década do século XX.  Globalizado mesmo?  Mundo “redondo”, com relações igualitárias entre povos e nações?   De jeito nenhum.  Mundo globalitário, isso sim.  De capitalismo neoliberal: superador do modelo  taylorista-fordista, que não detém mais a hegemonia exclusiva ou mesmo incontrastável no processo produtivo.

A classe operária tradicional, das fábricas. perde a centralidade na cadeia realizadora de bens e serviços.  Mundo globalitário de trabalhadores fragmentados, dispersos, e uma multidão, que supera a casa do bilhão, de desempregados ou, no dizer pervertido de “pálidos economistas” das agências internacionais do dinheiro, inempregáveis.

No Brasil, nas últimas duas décadas, três milhões de postos de trabalhos foram extintos.  No ABC das indústrias automobilísticas, o contingente de peões foi reduzido praticamente a um terço, em cada grande fábrica, sem contar as que fecharam. Junto com esse novo cenário, trágico para tantos, surgem novos atores: os trabalhadores urbanos do setor terciário ou das terceirizações. E o crescente número de subassalariados: é o precariado. É a agudização da desigualdade social.

Mundo globalitário de fluxos comerciais que aprofundam a divisão norte-sul, promovendo uma espécie de neocolonialismo das nações ricas sobre os povos pobres, de industrialização retardatária e passado recente de escravidão e dependência, com reprimarização de suas economias. Mundo da financeirização do capital. Onde, como disse, num acesso de sinceridade, um megaempresário alemão, “os organismos financeiros governam e os governos administram”.

Mundo do consumo, sociedade do espetáculo, do virtual, do imaginário – e é especialmente aí que os educadores atuam. Em condições adversas, contra os poderosíssimos e sedutores meios eletrônicos de comunicação de massa, que reproduzem a idolatria de mercado.

Mundo do “território livre” da internet, onde a “pós-verdade” e as fakenews predominam. O planeta virtual vai criando uma espécie de “cidadania de escritório”, onde cada um é propagador de si mesmo e vai se estiolando a noção do gregário, do presencial afetuoso, dos laços de fraternidade. Nesse caldo de cultura, os autoritarismos “liberais” (protofascistas, na verdade) estão em franca ascensão. Vale lembrar, porém, que não são imbatíveis, muito menos eternos.

Cresce a tacanha ideologia do combate às… ideologias. Falácia similar às propostas, no Brasil, pelo movimento “Escola Sem Partido”, por exemplo. Como se pudesse existir ensino sem espírito crítico, sem questionamentos da realidade, sem construção de posição diante dos fatos.

Há sempre uma ideologia dominante. Ideologia como amálgama, como cimento do edifício social. A que predomina hoje está fundada no deus-mercado, onde tudo é troca, tudo tem um preço.  E o preço que todos, pobres em especial, pagam, é o de viver numa civilização medíocre, onde se cultua a “sorte grande”, o “prazer imediato e infinito”, o “vale tudo por dinheiro”, a demissão histórica.

Universo também da insegurança, da falta de perspectivas, da dilução da idéia de valores coletivos, ideais comunitários, projetos societários. Há até aqueles que, dotados de alguma visão crítica, acabam cedendo, desistindo de lutar, acomodando-se numa espécie de neoconformismo esclarecido.

A educadora e o educador humanista não podem apenas constatar a realidade. Um outro saber, também básico, que deve ser sua segunda atitude,  é compreender a realidade para querer transformá-la e acreditar nos grupos e classes como sujeitos da História.

No mundo atual, movido a símbolos e calcado na reprodução do imaginário, estes valores têm uma centralidade jamais vista.   O(a)s trabalhadore(a)s da educação precisam se assumir como combatentes: combatentes da contestação, guardiães da dúvida no tempo do pensamento único.

Ser educador, e não “educastrador”, é saber-se arauto da solidariedade na época da competição, reinventor da utopia nos dias do pragmatismo absoluto e da aversão às mudanças.  É ser negador da idéia de que “preparar para as novas realidades” seja tão somente, como se apregoa, formar trabalhadores para as novas engrenagens, “softs”, do sistema neoliberal. A Sociologia e a Filosofia ajudam, e não por acaso também estão sob ataque.

Mais do que nunca educar é humanizar. É contrapor à compartimentalização do conhecimento, formadora de pseudoespecialistas que não enxergam nada além da telinha do computador ou do microscópio, a visão interdisciplinar e holística.  É atualizar o sempre necessário internacionalismo proletário com o solidarismo planetário, na opção preferencial pelos condenados da terra, que estão na nossa esquina.  É operar na recuperação do público, do social, do espaço da política (digna desse nome, superadora da politicagem), questionando essa renitente indução ao privado, ao particular, à despolitização, que não é outra coisa senão consolidação do desinteresse pelo social, pelo outro, pelo meio-ambiente do qual somos parte.

A professora e o professor-educador-humanista têm um papel revolucionário a cumprir. Tudo grandioso, no anônimo heroísmo do cotidiano, do miúdo e libertador trabalho da sala de aula, que desborda, em saudável rebeldia, para as ruas.  Com a consciência de que, como ensina Carlos Rodrigues Brandão, “a escola não muda o mundo: pode e deve mudar as pessoas. E estas sim, é que mudam o mundo”.   Transformar é preciso!

 

*Chico Alencar, ex-deputado federal, é escritor e professor da UFRJ