Irmã Irene e as Corajosas Freiras no filme “A Freira”

Análise sobre o filme de Gary Duberman e James Wan

Por Eduarda Johanna Alfena, de Campinas. Com colaboração de Jéssica Milaré
Reprodução

Escrevo esse texto para descontrair um pouco. Eu sou uma grande apreciadora de filmes de terror, apesar de achar que poucos são os filmes desse gênero que me assustaram de verdade.

Será um texto mais comprido. Como o título deixa mais ou menos claro, abordarei sobre o papel que as mulheres tiveram na estória. Vou abordar as revelações sobre o enredo (os famosos “Spoilers”), portanto se você não viu o filme e quer ver, não leia agora.

O filme, como já dito, é do gênero de Terror Sobrenatural. Ele foi lançado no ano passado e faz parte do Invocaverso, o universo de Invocação do Mal.

Importante frisar que esse texto não é uma apologia do Cristianismo Romano, ao voto de virar freira nem à existência de demônios. Trata-se de analisar como o gênero feminino foi tratado no filme.

Vamos usar as seguintes abreviações: Irmã Irene (SI), Padre Burke (FB), Maurice/Frenchie (FG), Madre Superiora/Abadessa (MS), Valak (VLK), Irmã Oana (SO), Irmã Victoria (SV).

As freiras do Convento de Santa Carta

Elas são mulheres que se revezam desde a Idade Média em oração constante e aparentemente interminável. Seu objetivo é preencher o lugar de energias sagradas para impedir que o Portal criado pelo velho e malvado Duque se abra novamente, e dele saia Valak.

As Freiras do convento aparentemente sabem da existência do Portal e mesmo assim se mantêm firmes na sua missão de enfrentar o temível demônio. Lógico que o Convento é regrado pela Igreja em Roma, mas estando em uma localidade tão remota, todas as MSs têm certa autonomia e controle sobre o espaço.

O local tem sua parte externa cercada por cruzes para que VLK não escape. Durante a 2ª Guerra, o portal novamente se abriu, quer pela energia negativa daquele conflito, quer pelo impacto de uma bomba. O demônio passou pelo portal aberto, mas para sair do Convento necessitava de um hospedeiro humano.

Uma a uma, as freiras foram sendo buscadas para servir aos interesses de VLK, morrendo no processo. O filme começa com a atual MS acompanhada da última freira viva para dar um basta em VLK. Não se nota inicialmente, mas a relíquia contendo o sangue de Jesus está na mão dela.

Incapaz de derrotá-lo, ela entrega a relíquia para SV, na esperança que a mesma derrote o temível inimigo. Porém, SV não tem chances de resistir a VLK. Ela entra em desespero, pois sabe que, sendo a última Freira viva, VLK invariavelmente iria atrás dela.

A franquia de Invocação do Mal deixa claro que, para um humano ser possuído, ele precisa estar fraco do ponto de vista físico, emocional e espiritual. Por isso, creio que VLK não tenha conseguido possuir nenhuma freira, pois todas ainda se mantinham bem fortes em sua fé, principalmente a experiente MS. Mas talvez não a jovem SV. Ela deveria estar esgotada fisicamente; destruída emocionalmente; e talvez, depois de ver todo um convento destroçado, devia estar com sua fé abalada.

Estando a poucos passos de VLK, SV toma a decisão: “já que não posso vencê-lo, ele não me pegará com vida. Não irá me possuir”. Ela então se amarra a uma corda que já estava montada e se enforca pulando da janela, deixando VLK preso no convento vazio. A Relíquia a esta altura está muito bem trancada em local secreto e a chave para abri-la está em volta do pescoço enforcado de SV, do lado de fora do Convento, onde VLK não pode chegar sem um hospedeiro humano.

O Rei não está em Xeque, mas está paralisado. A única arma que pode derrotá-lo está em seu tabuleiro, mas trancada. A chave está fora de seu alcance e, além de não ter peões para obtê-la, ele não conseguiu um hospedeiro humano e não há mais humanos vivos para tentar possuir.

Ao longo do filme vemos o quanto essas mulheres tiveram uma extrema determinação. Poderiam ter apenas fugido, deixando o convento vazio. Mas deviam saber que mesmo preso, VLK conseguiria manipular sua influência maldita a longas distâncias e que alguém poderia entrar no convento, tornando-se vitima dele.

Não. Elas ficaram até a última, literalmente. Não iriam embora. Foram caçadas à exaustão e continuaram lá. E se matar não é uma decisão fácil. Mas para SV, a vida dela não valia nada se milhares de outras corressem risco.

As freiras tinham tanto senso de dever, que voltaram em espírito para orientar SI em sua missão de derrotar o temível oponente. Em nenhum momento elas apelam a SI ou FB para fugirem. Ao contrário, SI é instada o tempo todo a rezar, sempre manter sua fé inabalada, e enfrentar o perigo.

Muitos simplesmente interditariam o local e deixariam tudo lá, inclusive VLK vagando livremente em seu pequeno domínio. Não essas mulheres. Não deixaram o mal se apossar de seu espaço sagrado, nem mesmo depois da morte. Elas todas se sacrificaram por sua fé e sua missão. Mesmo SV hesitando e percebendo não ser páreo na luta direta, não deixou o inimigo obter o que ele precisava.

Irmã Irene, a protagonista

Interessante notar que a protagonista é uma mulher, como nos filmes anteriores do Invocaverso. Ela mostra sua força desde o início, desafiando a fé mais conservadora quando afirma que os dinossauros existiram, por exemplo, bem quando diz que a Bíblia é uma carta de amor de Deus para as pessoas, não um código rigoroso de regras para se seguir à risca.

SI é a protagonista absoluta. É ela quem salva FB, é ela quem vai sozinha investigar a noite a capela e dá de cara com VLK. É ela quem entra sozinha no Convento e o explora. Na cena em que as freiras entram correndo e trancam a capela, ela é a primeira a começar as orações. Ela segue rezando mesmo enquanto é açoitada por VLK, com dolorosos cortes nas costas.

É notável sua expressão de dor diante dos ataques. Sua fé é tão inabalável que VLK só a possuiu fazendo-se de um truque, que não durou muito. Ela é quem pega a Relíquia para enfrentar VLK e, apesar de salva por FG, é ela quem derrota o temível demônio.

Homens corajosos, pero no mucho

Os protagonistas masculinos, por outro lado, são pessoas que já “jogaram a toalha” faz muito tempo. FB é um padre que ficou abalado após fazer o Exorcismo de um jovem francês chamado Daniel, que acabou morrendo em decorrência de ferimentos.
FB demonstra o tempo todo que sua fé está em estilhaços: suas falas são frias, vazias, e ele de antemão se mostrou relutante em aceitar a investigação, durante a reunião no Vaticano. Percebe-se que o exorcismo de Daniel o deixou tão abalado, que na cena em que ele conta o ocorrido a SI, nota-se que ao fim da estória sua taça de vinho está completamente vazia.

VLK não precisa de nenhum esforço para incomodar FB. A simples voz do garoto já serve para moer seu emocional. Ele cai com a maior facilidade diante de uma armadilha. Quando ele foi acordado pelo som do rádio, a música que tocava era “You Belong to Me” (“Você me Pertence”, em tradução livre). VLK conseguiu dominar e enganar um experiente padre sem nenhum esforço.

Não fosse SI, ele teria certamente definhado naquele caixão, ou sido eviscerado por VLK. Concordo que ver uma cobra saindo da boca de uma criança que você não conseguiu salvar é uma cena que já ultrapassou o limite do grotesco, mas FB, como um clérigo experiente, deveria ter fé o bastante para lutar contra isso, mesmo ainda muito antes de saber quem estava enfrentando.

FB só retoma sua fé ao final do filme, conseguindo “queimar” o cadáver de SO e evitando um ataque maciço de espíritos de freiras demoníacas, mas ainda é a forte SI quem encara VLK. FB dessa vez enfrenta a ilusão do demoníaco garoto Daniel. Mas levou esse tempo todo para isso, diferente de SI.

Outra personagem masculina sem coragem é FG, um jovem franco-canadense que largou tudo e foi morar no interior mais remoto de um país remoto. Mais tarde se descobre que ele fora abusado pelo pai e teve uma vida difícil. Ele é apresentado como uma pessoa vazia, que só quer beber, levar uma vasta vida sexual e que leva comida para o convento.

Ele leva FB e SI para o Convento com a maior relutância e sai correndo após ser perseguido pelo cadáver “possuído” de SV. Ao voltar à vila, ele vai beber e jogar conversa fora. Sua coragem só volta quando descobre que uma menina da vila se suicidou por razões desconhecidas. Com isso ele percebe que algo diabólico naquele Convento está se espalhando. Ele volta para salvar seus novos amigos.

Ele ajudará os protagonistas, mas é clara a relutância dele em enfrentar VLK. Seu ímpeto heroico irrompe quando SI está possuída. Ele é rapidamente domado, mas astutamente tira um pouco de sangue de Jesus da Relíquia e passa no rosto sombrio de SI, fazendo com que VLK seja instantaneamente expulso do corpo dela.

VLK não conseguirá mais possuir SI e fica extremamente furioso. FG é novamente domado por VLK e, como prova de sua fé inexistente e emocional triturado, depois sabemos que ele é possuído.

O Marquês das Serpentes

Agora vamos para o antagonista. VLK é um demônio poderosíssimo. Originalmente descrito como uma pequena criança com asas, dois chifres salientes e que monta um dragão bicéfalo, VLK é representado no Invocaverso, pelo menos até aqui, sob a forma de uma demoníaca freira.

 

Mas qual seria o motivo disto? Tanto neste filme quanto em Invocação do Mal 2, ele responde pelos Epítetos de “The Defiler, the Profane, the Marquis of Snakes”. “Defiler” seria algo mais ou menos como corruptor. “Profano” não demanda explicação. “Marquês das Serpentes” é explicado devido a sua perceptível predileção pelas cobras, animais sem caráter moral (sem bondade ou maldade, apenas instintos) que são temidas, agressivas e fatais.

E convenhamos, andar por aí na forma de uma freira em um Convento chama menos atenção do que uma criança satânica montada num dragão… de duas cabeças.

Quais são seus objetivos? Pelo menos aqui é o de conseguir um hospedeiro humano, para driblar os obstáculos sagrados do local, sair e espalhar o terror na terra. Um demônio não joga pelas regras, mas pelo vale-tudo, pela força. Ele precisa destruir sua vítima tanto física quanto emocionalmente, além de abalar sua fé. Que melhor forma de quebrar uma pessoa que escolheu entregar sua vida inteiramente a oração, que tomar a forma do que ela representa?

VLK poderia ter possuído FB de maneira bem mais rápida e eficaz. Mas, ao que me parece, ele tem predileção por escolher alvos mais “difíceis”. Ora, ele não é o corruptor? Portanto, creio que seja muito mais satisfatório para ele envenenar alguém que tenha uma fé forte do que alguém já enfraquecido. Algo como não “chutar cachorro morto”.

Ele demonstra ter uma certa paciência para isso. Provavelmente as bombas que abriram seu portal caíram, no mais tardar, em 1944. A história se passa em 1952, portanto ele levou bastante tempo para dar cabo de algumas centenas de freiras. Diria que VLK é lento e fatal, como o veneno de um ofídio que leva tempo para matar sua vítima.

Quando uma cobra peçonhenta ataca uma presa, ela deixa o animal assustado fugir. Quanto mais rápido ele correr, mais adrenalina é liberada, mais rápido o sangue circula e o veneno faz efeito, paralisando o animal. Ao ofídio basta seguir o rastro de odor e saborear sua caça bem devagar.

VLK tem a paciência de um ofídio: Ele senta e espera enquanto seu veneno (suas ilusões profanas) destrói as vítimas, demolindo sua fé, moendo sua saúde emocional. Tudo aos poucos, saboreando-se de seu medo, sua raiva e eventualmente possuindo a vítima.

Após fracassar em possuir a SI, VLK decidiu possuir FG, uma vez que FB recuperou sua fé e seu emocional, portanto não era mais um alvo fácil. SI estava duplamente protegida pelo sangue de Jesus e pela fé mais forte a cada momento. VLK queria sair daquele local, pois não estava em seus planos passar a eternidade preso.

Ah sim, ele estava “full-pistola” com FG por este ter retirado sua satisfação em possuir uma freira. Possuí-lo foi não apenas a sua última saída, como também uma diversão ao torturar aquele mortal insolente que ousou confrontá-lo. Imagine o que VLK não sentiu com todo aquele sangue sagrado no rosto de SI, atacando-o em profundidade.

Mas e a “ofídica” paciência? Simples também. Cobras presas em cativeiro seguram suas presas até que estas se certifiquem de estarem mortas. Ela está presa, não sabe quanta comida terá pela frente e não consegue fugir. Ela não tem compreensão que está sendo alimentada por um humano de maneira periódica e rigorosamente controlada.

Ela só sabe que está presa e não sabe quando a próxima comida chega. E principalmente não sabe SE chega. Nada mais natural do que segurar a comida com o maior afinco toda vez que esta chega. Ela tem que garantir que sua presa não fuja. Afinal, ela não sabe o que é essa estranha força invisível que a impede de se locomover para longe. “Será que minha presa consegue passar por esta força e fugir? Não sei. Bem, vou agarrá-la, pois não posso perder essa caçada tão fácil”.

VLK estava preso e todas as suas presas morreram. Ele não conseguiu seu necessário hospedeiro humano e precisa sair. Não pode ficar preso. Agora FB se tornou uma ameaça e ele perdeu SI em definitivo. “Eles agora sabem quem sou eu e sabem como me derrotar. Se eu perder o FG, não saio daqui”. Não à toa é o Marquês das Serpentes.

SI é tão forte que no script original ela aparece com seu hábito de freira, não mais uma noviça. Ela vai ficar no convento para reergue-lo, para que mais uma geração de novas freiras mantenham sua missão de controlar o portal e evitar que o mal saia novamente.

FB reencontrou sua fé e sua força há muito perdidas, mas seu destino é incerto. FG, em qualquer dos casos, voltará para seu natal Canadá, só para continuar fraco e perder sua vontade e sua alma para VLK, numa clara referência que SI saiu dessa história fortalecida e ele saiu derrotado.

Considerações Finais

Acho importante salientar novamente que não se trata aqui de dizer que as mulheres devam ser freiras, que todas as freiras são verdadeiras gladiadoras contra o mal, nem que a Igreja Católica seja isenta de tantas atrocidades já ocorridas.

Também não estou dizendo que devamos acreditar ou não num Deus ou Deuses; nem que eu ache que demônios existam ou não existam; muito menos que eu acredite que sangue de uma pessoa tenha ficado num pequeno recipiente de vidro (guardado num cofre hermético dentro da pedra), permanecido fisicamente intacto por mais de 700 anos e que multiplica exponencialmente de volume e quantidade diante do profano.

De forma alguma acho que alguém tenha que desacreditar nisso tudo. Cada um tem que ser livre para ter ou deixar de ter alguma crença, desde que o faça com respeito e tolerância. O longa-metragem em questão é uma obra de ficção, que em nenhum momento pretende-se verdadeira (ao contrário do Invocação do Mal 1 e 2).

Não é uma ode à vida religiosa de uma mulher. É uma análise de como pessoas fictícias foram representadas num lugar (que por curiosidade existe na vida real) e tempo quaisquer, diante de uma situação que envolve certos dogmas religiosos católico romanos e como essas personagens agem, com base em seu gênero.

Meu objetivo foi demonstrar como os criadores, roteiristas e direção retratam suas personagens femininas em um subgênero de filme. Não só neste filme, as personagens femininas, assumem sempre um papel de protagonismo, algo raríssimo nos filmes de terror (principalmente). Mesmo em filmes em que hajam protagonistas mulheres (como Frozen, por exemplo), o número de mulheres em papéis secundários é quase inexistente.

Mesmo Frozen tendo as principais protagonistas mulheres, não apresenta outras mulheres no filme. A rainha não faz nada de relevante, só fica preocupada e segue o rei. Situação não diferente da maioria dos filmes.

Em “A Freira”, as protagonistas são uma centena de mulheres com peito e coragem. Os únicos homens que estão entre os protagonistas são frágeis e apenas dão suporte.

Essas freiras obviamente não são feministas. Não espero que James Wan seja feminista, muito menos que a Warner Bros o seja, mas fizeram um filme em que as protagonistas são mulheres: Humanas, limitadas, falhas, errôneas, mas com coragem e senso de dever suficientes para seguir em frente, superando seus obstáculos e indo além de seus limites.

Quantas mulheres não têm que derrotar 15 VLKs por dia para sobreviver? Muitas não conseguem, mas muitas não tem outra opção. Ou tentam ou se entregam. E não querem se entregar. Lutam até o fim.

É de um mundo cheio de Sisters Irenes que precisamos hoje. Não que sejam freiras, mas mulheres de peito e coragem, para juntas exorcizarmos os demônios da desigualdade, do machismo, do feminicídio, da desigualdade salarial, do patriarcado.

Como as freiras de Santa Carta, muitas já tombaram nessa luta (que parece ser infinita), mas há muitas outras por aí prontas para a batalha.