A transfobia e as divergências nada saudáveis

Jéssica Milaré

Jéssica Milaré

Jéssica Milaré, travesti, bissexual, doutoranda em Matemática pela Unicamp, militante LGBT, transfeminista e do PSOL, membro da Associação da Parada do Orgulho LGBT de Campinas.

“Quem não tem pecados, que atire a primeira pedra”. Jesus de Nazaré.

Há muito tempo eu e outras pessoas no Esquerda Online insistimos que devemos fazer debates saudáveis, com argumentos, sem falsificações. Divergindo com o que as pessoas dizem e fazem, não com o que elas supostamente pensam ou querem, como se tivéssemos bola de cristal. Os debates nada saudáveis na esquerda permaneceram e agora mostram toda sua perversidade. O alvo é (coincidência?) uma mulher trans: Duda Salabert, que recentemente se desfiliou do PSOL e virou alvo de uma campanha de difamação e calúnia.

Todo mundo comete erros. Ao contrário do que se pensa, na nossa sociedade burguesa, não existe ninguém que naturalmente tenha grande moral ou consciência, mesmo que seja oprimida e explorada. Por isso, infelizmente, não é de se estranhar que a Duda planeje entrar em algum dos partidos que fizeram contato com ela, partidos pouco ou nada progressistas, que nunca foram conhecidos por combaterem a transfobia, cheios de parlamentares burgueses e de oportunistas de todo tipo. Não tenho dúvidas de que isso é um erro, já que o tapete que Ciro Gomes estende não é “vermelho” e seu projeto político não tem nada para oferecer às pessoas trans. Não tenho dúvidas de que no PSB, no Novo ou na REDE existe transfobia e o mais grave: não existe um programa de defesa dos oprimidos e do povo pobre. Mas isso não justifica a falta de sensibilidade e o excesso de arrogância da militância ao lidar com pessoas oprimidas. Eu sempre digo: “Não atirem pedras” e as pessoas empunham tijolos.

Duda acusou o partido de dar pouca importância para os debates que ela faz, particularmente por ser transfóbico. Pronto, acabou-se a paz, a guerra está declarada! Nenhum partido, mesmo de esquerda, é uma bolha. Vivemos em um sistema transfóbico, num dos países mais transfóbicos do mundo, a esquerda também está contaminada pela transfobia. Isso não significa de modo algum igualar os partidos de esquerda com os de direita, muito menos igualar os erros e problemas de um partido como o PSOL ao projeto transmisógino do Bolsonaro e seus aliados.

Sobre a transfobia institucional

É bizarro que denúncias de transfobia ainda sejam levadas para o lado pessoal. Como se dizer que uma pessoa é transfóbica fosse igualá-la ao Bolsonaro. Mas transfobia é uma ideologia burguesa que permeia todo o senso comum. Não dizemos que todo homem cis pode ser machista em qualquer momento? Que uma pessoa branca pode ser racista em qualquer momento? São debates presentes no PSOL. E quanto à transfobia, por que esse debate é deslegitimado? Por que, em vez de ouvir e raciocinar, querem sempre bater de frente, negar a transfobia, mesmo quando várias pessoas trans estão dizendo que há transfobia?

Para fazer uma comparação:

A democracia para uma ínfima minoria, a democracia para os ricos – tal é a democracia da sociedade capitalista. Se observarmos mais de perto o seu mecanismo, só veremos, sempre e por toda parte, nos “menores” (presentemente os menores) detalhes da legislação eleitoral (censo domiciliário, exclusão das mulheres, etc), assim como no funcionamento das assembleias representativas, nos obstáculos de fato ao direito de reunião (os edifícios públicos não são para os “maltrapilhos”), na estrutura puramente capitalista da imprensa diária, etc, etc, só veremos restrições ao princípio democrático. Essas limitações, exceções, exclusões e obstáculos para os pobres, parecem insignificantes, principalmente para aqueles que nunca conheceram a necessidade e que nunca conviveram com as classes oprimidas nem conheceram de perto a sua vida (e nesse caso estão os nove décimos, senão os noventa e nove centésimos dos publicistas e dos políticos burgueses); mas, totalizadas, essas restrições eliminam os pobres da política e da participação ativa na, democracia. Marx percebeu perfeitamente esse traço essencial da democracia capitalista, ao dizer, na sua análise da experiência da Comuna: Os oprimidos são autorizados, uma vez cada três ou seis anos, a decidir qual, entre os membros da classe dominante, será o que, no parlamento, os representará e esmagará! – LENIN. O Estado e a Revolução. Capítulo 5. 

Essa é, podemos dizer, a institucionalização burguesa do Estado. São diversos pequenos obstáculos que, somados, impedem o proletariado e o povo pobre e oprimido de tomar o controle das mãos da burguesia.

Quando se diz que existe transfobia institucional num partido, significa que sua forma de funcionamento interno, suas regras internas, formais ou não, são usadas para impedir que as pessoas trans tenham poder real de decisão, que tenham os mesmos direitos e as mesmas garantias que as pessoas cis. Ou quando esse mecanismo serve justamente para reprimir, oprimir e deslegitimar uma pessoa trans considerada inimiga do partido.

Nessa crise do PSOL, em que o veneno da transfobia institucional corrói as instâncias partidárias, não são as críticas da Duda Salabert ou de Indianare Siqueira que ameaçam destruir o partido. Mas a falta de humildade e de autocrítica podem levar o PSOL para o caminho errado.