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MOVIMENTO

Os três que romperam e o direito de ter a mente aberta

Travesti Socialista, colunista do Esquerda Online
Travesti Socialista

“A Liberdade é quase sempre a liberdade de quem pensa diferente.”

“Não estamos perdidos. Pelo contrário, venceremos se não tivermos desaprendido a aprender.”

Rosa Luxemburgo

 

Na última segunda-feira, 15 de abril, um grupo de três militantes revolucionários publicou uma “Carta de Ruptura com o PSTU”. O estopim foi que o partido teria proibido a formação de um grupo de estudos teóricos com pessoas de fora. Isso me soa bastante familiar. Tenho discordâncias com a carta, mas isso não é impedimento para um debate saudável, fraterno, entre camaradas, sobre o que lhes foi negado: o direito de ter a mente aberta.

O que mais me assusta é que houve um aprofundamento da ideologia de que ter a mente aberta é um “perigo”. É uma pena. Todas as grandes mudanças na minha vida aconteceram quando abri minha mente a algo que antes eu considerava tabu, pecado, profano. Foi assim que deixei de ser uma adolescente que, por fora, mantinha uma aparência “masculina”, e, por dentro, uma ideologia conservadora, fundamentalista e capitalista. Foi assim que me tornei essa mulher, essa travesti assumida que dedica tempo de vida à luta contra as opressões e a exploração, enfim, pela revolução socialista.

A mente fechada é um conservadorismo. Conserva-se a ideologia para manter intacta a materialidade. Aquela “garoto” que eu nunca fui de verdade só deixou de existir quando eu questionei sua existência. A visão fundamentalista só se desmanchou quando considerei a possibilidade “absurda” de ouvir pessoas de outras religiões, até (cruzes!) os ateus. Muitos pensadores foram fundamentais para formar quem eu sou hoje. Nenhum deles representa quem eu sou, mas todos eles fizeram parte do meu caminho.

Lembro-me de quando comprei um e-book de Peter Singer. [1] Era bem jovem ainda no PSTU. Ao contar para um camarada mais velho de organização, ele demonstrou certo nervosismo por eu querer ler um livro sobre ética de um filósofo não-marxista e me emprestou o livro sobre moral do Trotsky, insistindo que eu também o lesse.

Nada contra ler o livro do Trotsky, lógico, mas incomodou-me esse mandamento: “Lerás apenas os livros sagrados dos santos profetas”. Quanto medo de eu tirar conclusões “erradas”, não? Quanto medo de perder o controle sobre o que eu penso!

Mas bizarro foi quando, após romper com o partido, fiz uma postagem defendendo Gramsci. Em pouco tempo, surgiu uma postagem sarcástica de um dirigente nacional do PSTU: “Os reformistas já descobriram Gramsci”. Pouco depois, o mesmo indivíduo fez uma longa postagem explicando que só podemos ler os “autênticos revolucionários” da linhagem teórica morenista. Só faltou publicar o Index Librorum Prohibitorum. [2]

Depois, postei, como desabafo, que Nahuel Moreno também cometeu um desvio moral grave ao reproduzir a ideologia LGBTQIfóbica criada pelo stalinismo. Quase um mês depois, uma dirigente, não nacional, mas internacional, postou um texto na página da LIT-QI criticando o Valerio Arcary (?) por minha abominável heresia. O que o Valerio tinha a ver com a minha postagem, não faço a menor ideia. Não foi ele que me ensinou sobre a ideologia stalinista de que homossexualidade é uma degeneração burguesa, mas sim… o livro do Hiro Okita!

Por isso, aos camaradas Gabito, Cat e Pedro, que assinam a referida carta, assim como a todas as revolucionárias marxistas, convido a deixar de lado essa briga de apelidos, que consiste em chamar de sectário, oportunista, centrista ou reformista àqueles que ousam questionar, ter a mente aberta, profanar o sagrado dogmatismo. Divergências teóricas, políticas, táticas, são naturais e não nos invalidam como marxistas.

De minha parte, àqueles que esperavam controlar minha mente, apenas sinto. Desde que abri minhas asas, elas nunca mais aceitaram os grilhões da censura.

NOTAS

[1] “The Expanding Circle: Ethics, Evolution, and Moral Progress” (O Círculo em Expansão: Ética, Evolução e Progressão Moral), um livro clássico de filosofia da ética utilitarista. Sem tradução em português.

[2] “Índice de Livros Proibidos”, uma lista de livros proibidos pela Igreja Católica cuja primeira versão foi publicada em 1559. O Índice foi abolido em 1966.

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