A opressão à mulher na ponta da língua

Paulo César de Carvalho

Paulo César de Carvalho, o Paulinho, é bacharel em Direito (USP), mestre em Linguística e Semiótica (USP), professor de Língua Portuguesa (lecionou na ECA-USP) e autor de materiais didáticos de Gramática, Redação e Interpretação de Texto. Publicou seis livros de poesia, constando em antologias literárias no Brasil e em Portugal (como em É agora como nunca, da Companhia das Letras, organizada por Adriana Calcanhoto). Compositor, tem canções gravadas por diversos músicos da cena contemporânea. Foi militante da organização trotskista Convergência Socialista.

Toda pessoa simples obedece a lições. E quando alguém a desvia do caminho do bem, duas palavras certas fazem com que retorne imediatamente. Mas uma mulher esperta é um outro anima (…). Usa a inteligência para ridicularizar nossas lições, para transformar seus vícios em virtudes. E pra chegar a seus fins inomináveis encontra desvios capazes de iludir o mais habilidoso. É em vão e é fatigante tentarmos aparar os golpes de uma mulher de espírito: é o próprio demônio, quando intriga.
(Molière, Escola de Mulheres, Paz e Terra, São Paulo, 1996, p. 63).  

 

  1. Mulher não é coisa

Este é o nosso terceiro artigo sobre as diferentes faces da violenta opressão da mulher pela histórica ditadura do poder falocêntrico (Freud explica o trocadilho). Antes de dar sequência, retomando os anteriores, é fundamental fazer uma ressalva: o enunciador é um homem que está escrevendo para os homens, com a humildade de quem tem muito a aprender com as mulheres, para quem, aliás, não é novidade nada do que estamos discutindo. Sofrendo na pele cotidianamente a violência machista, são elas as protagonistas dessa luta, é delas o legítimo e inalienável “lugar de fala”: nosso pequeno papel aqui, portanto, como simples coadjuvantes, é ter um papo “de homem para homem”, repudiando e combatendo essa vergonhosa cultura patriarcal.

Posto isso, recordamos que, no primeiro texto (12 mulheres e um destino), como o título já indicava, denunciamos doze casos de feminicídio ocorridos no Brasil, entre os anos de 2017 e 2019, mostrando seis formas cruéis de execução: mulheres assassinadas a tiros, a facadas, jogadas pela janela, espancadas, queimadas e enforcadas. Com exemplos colhidos de matérias jornalísticas, crônicas e textos teóricos, começamos a sistematizar uma análise da gênese do poder masculino, examinando as marcas linguísticas da opressão, já na palavra famulus (conjunto formado pelos filhos, pela mulher e pelos escravos, todos submetidos ao “chefe de família”). (1)

No segundo artigo (Pai, Propriedade, Pátria: os Pês do Poder Patriarcal), tratamos exclusivamente disso, evidenciando a conexão entre vários termos de uso corrente, cuja gênese etimológica muitos desconhecem: o patriarca era o pastor que tinha o seu próprio rebanho; esse domínio, territorial e jurisdicional, dá origem a pater, base não só da noção de pátria, mas também de pater familias (o “pai de família”, fundamento do Direito Paterno) e de patrão (encarnação da figura do explorador no capitalismo). Conforme explicamos, o conceito de propriedade, definido originariamente como categoria econômica, passa a ser utilizado também como mediador das relações entre os gêneros: no patriarcado, o homem se coloca no papel de “proprietário”, sendo a mulher mais um de seus “bens”, vista como um mero objeto que lhe pertence.

A propósito, vale lembrar que chamamos a atenção para o sintomático uso dos pronomes possessivos, funcionando como índice gramatical da dominação machista: o uso das expressões “minha mulher” e “meu bem”, por exemplo, delimitam explicitamente a jurisdição do poder opressor. Quem leu os dois artigos, provavelmente deve ter recordado a precisa formulação de Marx, que deixa claro o nexo de sentido entre a exploração e a opressão (entre as relações econômicas e as comportamentais; entre as relações sociais e as culturais; entre as relações políticas e as ideológicas): o ciumento é antes de tudo um proprietário privado. (2)

Para ilustrar esse processo de “coisificação” da mulher que se manifesta descaradamente no discurso machista, recorremos a um provérbio tão conhecido quanto deplorável, repetido pelo senso comum em diferentes versões. Uma delas é a seguinte: “Carro, mulher, dinheiro e escova de dentes não se emprestam a ninguém”. A bizarra enumeração de termos fala por si: aparecendo junto com o “carro” e a “escova de dentes”, a mulher tem o status de “coisa”, de mero objeto, destituída de traços humanos. Na consciência estreita dos homens que dizem esse absurdo, ela é da mesma ordem de “grandeza” (leia-se “baixeza”) dos outros bens que fazem parte do patrimônio do explorador/opressor.

O desvio semântico do verbo “emprestar”, vale sublinhar, é muito sintomático nesse contexto: em sentido literal, este verbo transitivo direto só aceita como complemento “coisas” e “animais” (por exemplo, um cavalo), nunca “pessoas”. Como seres humanos não são coisas nem animais, deveria ser óbvio que não podem pertencer – de modo algum, sob qualquer hipótese – a ninguém (a não ser a si mesmos): portanto, jamais poderiam ser passíveis de “empréstimo”.

 

  1. Mulher não é coisinha do pai

Vem-nos à memória outro exemplo digno de nota: trata-se de uma canção composta por três homens, cuja letra tem várias marcas típicas do discurso machista, e que fez grande sucesso justamente na voz de uma mulher. Estamos falando do samba Coisinha do Pai, de Jorge Aragão, Almir Guineto e Luiz Carlos, que estourou nas rádios na interpretação de Beth Carvalho. Estes trechos, enfim, mostram a cara (de pau, de pai) do “eu lírico” opressor:

Ô coisinha tão bonitinha do pai

Ô coisinha tão bonitinha do pai

Ô coisinha tão bonitinha do pai

Ô coisinha tão bonitinha do pai

Você vale ouro todo o meu tesouro

Tão formosa da cabeça aos pés

(…)

Charmosa, tão dengosa

Que só me deixa prosa

Tesouro, você vale ouro

Agradeço a Deus porque lhe fez

(…) (3)

 

Logo no início, no refrão (repetido várias vezes no samba) o enunciador se refere à mulher como “coisinha do pai”: não só chama a atenção a voz masculina tratá-la por “coisa”, mas também usar o adjunto adnominal “do pai”. Além de indicar “posse”, o termo marca como proprietário – mais uma vez – a figura paterna (ainda que metaforicamente, é índice de uma matriz histórica). Os papéis de namorado, marido ou pretendente funcionam como extensões da velha imagem do “patriarca”: a ideia de objeto de valor, de bem patrimonial, fica explícita nas referências a “ouro” e “tesouro”. Outro problema que salta aos olhos no texto é a presença dos adjetivos “bonitinha”, “formosa”, “charmosa” e “dengosa”: a mulher é caracterizada apenas por seus atributos físicos, o que traduz e reforça o imaginário machista, a cultura falocêntrica que a vê exclusivamente como “corpo”, reduzindo-a habitualmente a um “pedaço de carne”.

Por falar nisso (e não esquecendo o agradecimento dos sambistas a Deus “porque lhe fez” – sic), recordamos uma passagem bem sugestiva de um texto ficcional do jovem Marx: (4)

“No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus, e o verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória”.

Belos e inocentes pensamentos! A associação de ideias levou Margarida mais adiante; ela acreditava que o verbo habitava as coxas (…), convenceu-se e compreendeu o modo como o verbo se fez carne; viu nas coxas sua expressão simbólica, contemplou sua glória e resolveu lavá-las(5)

Contextualizando o excerto, no romance Escorpião e Félix, (6) a personagem “Escorpião” era o filho primogênito de “Merten”, o patriarca de uma tradicional família de alfaiates; “Félix” era amigo do jovem herdeiro e “agregado” da família. Na história, Escorpião se apaixona pela personagem Margarida, que trabalhava como cozinheira para os Merten. Antes dos comentários sobre ela, notemos que a citação do versículo que abre o Evangelho de João evoca as informações do artigo anterior sobre a cultura patriarcal: a começar pela referência à mitologia bíblica fundadora, que atribui a Moisés a autoria do Gênesis.

Como Engels comentou, de acordo com a versão da escritura inaugural, Deus teria designado Abraão o primeiro patriarca.(7) Marx, ainda estudante de Direito, sem supor que se tornaria filósofo e formaria com Engels a “dupla dinâmica” da revolucionária teoria do conhecimento, também levanta a questão da “origem da família”,(8) da gênese do patriarcado, mencionando Moisés:

Mas nenhum espírito havia penetrado no todo; era antes Margarida, a cozinheira, que chamava para o jantar (…). Merten escorou-se em Escorpião e se elevou como um carvalho, pois Ovídio e Moisés disseram que o homem deve mirar as estrelas, e não a terra; mas Escorpião agarrou a mão de seu pai e pôs seu próprio corpo numa posição arriscada, firmando-se sobre os próprios pés. (9)

A leitura dos dois fragmentos do romance põe em evidência o imaginário opressor produzido pela cultura falocêntrica: a personagem Margarida representa metonimicamente as mulheres, sob as lentes machistas. O fato de o narrador dizer que “o verbo habitava as coxas”, na interpretação da própria Margarida, implica duas caracterizações negativas da mulher: que lhe falta inteligência; que seus únicos atributos são físicos. Em outros termos, a mulher seria “matéria”, com os “pés na terra”; o homem seria “espírito”, com os “olhos nas estrelas”: não à toa, é Margarida quem prepara e serve o jantar, enquanto pai e filho diletantes divagam à mesa entre garfadas e especulações teóricas.

Aliás, a descrição a seguir representa com clareza os lugares de poder no patriarcado, mostrando as respectivas posições e distâncias entre as partes do famulus – não só entre as que estão sentadas à mesa, mas também entre estas e as que não participam da “Santa Ceia”:

Estavam sentados à mesa, Merten à cabeceira, Escorpião à sua direita e Félix, o primeiro oficial, à sua esquerda. Bem afastados, mantendo-se assim uma lacuna entre o príncipe e a plebe, estavam os membros subalternos na estrutura estatal de Merten, chamados comumente de aprendizes(10)

É interessante notar como a construção discursiva de Marx, articulando as categorias estruturais da narração (enredo, narrador, personagens, tempo e espaço), condensa uma série de elementos desiguais, de referências históricas distantes, de diferentes papéis sociais, políticos e religiosos, combinando níveis distintos de problematização. Nesse trecho, por exemplo, o número de personagens e a sua disposição espacial funcionam tanto como representação da hierarquia familiar, expressa na tradição cultural de reservar ao “chefe de família” a cabeceira da mesa (com os filhos ao lado), quanto como representação da hierarquia religiosa, traduzida na emblemática figura da “Santíssima Trindade”. (11)

Nessa irônica paródia, as imagens de Merten, Escorpião e Félix se refletem e se refratam nos nomes do “Pai”, do “Filho” e do “Espírito Santo”: quem senta à cabeceira da mesa, pois, é o “divino” patriarca, (12) o “todo-poderoso” pai de família. O que é relevante destacar aqui, enfim, é que a correspondência “especular” entre as duas tríades traduz o sistema de valores estruturais da ordem falocêntrica. Sublinhemos que o discurso religioso – desde a farsa mitológica do patriarca Abraão e da ficção da “Santíssima Trindade” – serve de artifício ideológico de “legitimação” das diferenças de gênero, naturalizando aos olhos dos fiéis a supremacia do homem. A composição masculina da “Santíssima Trindade” é índice dessa lógica perversa de exclusão da mulher: no evangelho dos homens, afinal, o “Verbo” jamais poderia ser feminino.(13)

O “Verbo” é a expressão do “Pai”; o homem é “Filho” do “Verbo”: o “Espírito” habita o homem; na mulher, o “Verbo” está nas coxas. Nesse silogismo escolástico machista, enfim, a conclusão é óbvia: a mulher é uma “coisinha” mundana, sem inteligência, destituída de “espiritualidade”. Em outros termos, reduzida à “matéria” (sendo somente “coxas”, não tendo “cérebro”), sua função seria circunscrita à procriação, com a finalidade de preservar a espécie: nessa perspectiva, ela serviria de base (logo, em posição subalterna, inferior) para a manutenção da ordem de poder da família, da propriedade e do estado.

Vejamos outra passagem do romance bem elucidativa sobre essa deplorável questão:

A última frase a respeito das bases era um conceito abstrato, não sendo, portanto, uma mulher, pois “um conceito abstrato e uma mulher são coisas muito distintas, não é mesmo?” (…). Àquele que deseja obter um conceito claro e não abstrato dela – não me refiro à grega Helena nem à romana Lucrécia, mas à Santíssima Trindade – não dou outro conselho senão o de que nada sonhe enquanto não houver adormecido.   (14)

É importante observar a relação opositiva que o narrador estabelece entre as figuras masculinas, elevadas e sagradas, e as figuras femininas, rebaixadas e mundanas: Helena de Troia era considerada, na mitologia grega, a mulher mais bonita do mundo (por isso, foi raptada por Páris, príncipe de Troia, na Ilíada); Lucrécia Bórgia, filha do papa Alexandre VI, teve muitos relacionamentos extraconjugais, encarnando, pois, o protótipo da “mulher dissoluta”. No caso da cozinheira Margarida, lembramos que o impiedoso narrador a caracteriza como o avesso da bela Helena, o contrário da “coisinha bonitinha do pai”, revelando ironicamente o típico olhar dos homens sobre as mulheres, interessados sobretudo em seus “dotes” físicos.

Para ilustrar, recorremos a mais um trecho desta instigante e pouco conhecida obra ficcional do jovem Marx:

Presumo então que as fadas tinham barba, pois Madalena Margarida, não a Madalena arrependida, qual honrado guerreiro, portava barba e bigode, e tenros fios encaracolavam-se em seu formoso queixo, que – feito um rochedo no mar solitário, de longe contemplado pelos homens – sobressaía na chata panela do rosto, orgulhoso e consciente de sua grandeza, para romper os ares, comover os deuses e emocionar os homens.

Parecia que a deusa da fantasia havia sonhado uma beleza barbada e se perdido nos domínios encantados de seu amplo rosto, mas, ao despertar, era a própria Margarida que sonhara, e eram ruins os seus sonhos: ela era a grande Meretriz da Babilônia, o Apocalipse de João e a ira de Deus, que deixara um restolhal afiado brotar de sua pele vincada por linhas onduladas a fim de que a beleza não incitasse ao pecado e a virtude fosse preservada, tal como a rosa pelos espinhos, para que o mundo compreenda e não se inflame por ela(15)

Para concluir este artigo, tentando atar as pontas do opressivo discurso patriarcal, ligando as narrativas à epígrafe, destacamos um fragmento da peça teatral Escola de Mulheres, do excepcional dramaturgo francês setecentista Molière (1622-1673). Infelizmente, como o leitor notará, apesar da distância de quatro séculos que nos separam daquele contexto histórico,(16) o arrogante olhar de superioridade do macho dominador parece não ter mudado, como prova o diálogo da personagem Arnolfo com o seu amigo Crisaldo:

Caso com uma tola pra não bancar o tolo. Acredito, à fé de Deus, que a sua é uma mulher sagaz (…). Mulher que escreve sabe mais do que é preciso. Pretendo que a minha seja bastante opaca pra não saber mesmo o que é uma rima (…). Em suam, desejo uma mulher de extrema ignorância. Que já seja demais ela saber rezar, me amar, cozer, bordar! (…) Tanto que prefiro uma mulher feia e tola a uma belíssima mas cheia de talento (…). A honestidade basta(17)

Enfim, quantas vezes não nos cansamos de repudiar, com enorme asco e renovada indignação, em pleno século XXI, as inúmeras caricaturas de Arnolfo e Escorpião coçando o saco nos botecos e repetindo arrogantes – entre cervejas e petiscos – a velha ladainha machista de que mulher para casar é Madalena Margarida, e que mulheres com o “perfil” de Helena e Lucrécia só servem mesmo é para transar? Como as combativas lutadoras feministas sabem muito bem, porque sentem na pele e na alma a todo o momento, em qualquer lugar (e nós precisamos aprender sempre com elas, reeducando-nos nos menores detalhes da vida cotidiana), a realidade é incomparavelmente mais cruel do que a ficção!

NOTAS

01 – Friedrich Engels, A Origem da Família, da Propriedade e do Estado, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1978, p. 61.

02 – Karl Marx, Sobre o suicídio, Boitempo, São Paulo, 2006, p. 41.

03 – https://www.vagalume.com.br/jorge-aragao/coisinha-do-pai.html

04 – Quem conhece a biografia de Marx, sabe que, na sua juventude, ele desejava seguir a carreira literária, tendo produzido vários poemas, um romance e um texto dramatúrgico.

05 – Karl Marx, “Escorpião e Félix”, Escritos ficcionais, Boitempo, São Paulo, 2018, p. 18.

06 – O fragmento foi extraído do Capítulo 16, um dos poucos que restaram do texto original (escrito em 1837), trazido à luz pelo ousado projeto MEGA-1, que ambiciona fazer a edição completa da vasta obra de Marx e Engels.

07 – O trecho citado no nosso artigo anterior é este: É bem difícil dizer se o autor do chamado primeiro livro de Moisés considerava o patriarca Abraão proprietário de seus rebanhos por direito próprio, por ser o chefe de uma comunidade familiar ou em virtude de seu caráter de chefe hereditário de uma gens. Seja como for (…), nos umbrais da história autenticada, já encontramos em toda parte os rebanhos como propriedade particular dos chefes de família, com o mesmo título que (…) os utensílios de metal, os objetos de luxo e, finalmente, o gado humano: os escravos. (Friedrich Engels, A Origem da Família, da Propriedade e do Estado, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1978, p. 57-58).

08 –  Nos artigos anteriores, ao abordar o conceito de famulus, mencionamos a “Lei das Doze Tábuas”, de que se originou o Direito Romano. Em 1837, quando escreveu o romance, o jovem literato e estudante de Direito, já havia se transferido da Universidade de Bonn (onde iniciou seus estudos, em 1836) para a Universidade de Berlim. Eis o que Marx comenta sobre o discurso jurídico, com a ironia cortante que marcaria toda a sua obra, na voz do narrador: Tudo isso está evidentemente fundamentado na doutrina do processo, que ainda não foi suficientemente elaborada e jamais o será, pois se baseia no jogo de cartas, um jogo de puro acaso em que o ás é o protagonista. O ás fundou a moderna jurisprudência, pois certa noite Irnério havia perdido o jogo; vinha ele na companhia de mulheres e estava bem vestido, portava um fraque azul, sapatos novos com longas fivelas e uma véstia de seda carmesim, e ao se sentar escreveu sobre o ás uma dissertação que o impeliu adiante, de modo que passou a ensinar direito romano. O direito romano abarca tudo, inclusive a doutrina do processo e a química (“Escorpião e Félix”, obra citada, p. 34). OBS: Irnério (1050-1125) foi um jurista italiano, que inaugurou o ensino do Direito Romano na Idade Média.

09 – Obra citada, p. 35-36. Reproduzimos a seguir um trecho da nota dos tradutores: “A menção a   Moisés talvez se deva ao fato de a tradição lhe atribuir a autoria do Gênesis. Ocupa lugar central no livro a promessa feita por Deus a Abraão: Olha agora para o céu, e conta as estrelas, se as pode contar, e acrescentou-lhe: Assim será a tua descendência (Gênesis 15:5b).

10 – Obra citada, p. 36.

11 – Na complexa trama de alusões no “espelho alegórico” de Marx, também se refletem e se refratam as imagens da hierarquia política, como evidenciam as referências à ordem medieval de poder. Quem está à cabeceira, portanto, ocupa simbolicamente também o “trono”, o lugar da autoridade do “rei” (ao seu lado, o “príncipe” e o “primeiro oficial”): que representava, na cultura teocêntrica da Idade Média, a imagem do próprio Deus acima dos homens, regendo todas as relações da vida cotidiana (o chamado “poder divino” do monarca).

12 – Relendo as alusões condensadas na figura da “tríade”, ficam mais claros os “três pês” do título do nosso texto anterior: Pai, Propriedade, Pátria: os Pês do Poder Patriarcal. Ainda que estivéssemos parafraseando intencionalmente a tríade “família-propriedade-estado” expressas no título da obra de Engels (A Origem da Família, da Propriedade e do Estado), sabendo que já haviam sido apontados pela dupla duas décadas antes, em A Ideologia Alemã, só agora percebemos o germe dessa noção nas referências intertextuais evocadas na descrição literária do jovem Marx.

13 – Não só os quatro evangelhos foram escritos por homens, mas toda a mitologia bíblica: o protagonismo, tanto no plano da enunciação quanto no do enunciado, é masculino. Ou seja: quem fala é o homem; o homem é o herói.

14 – Obra citada, p. 41-42.

15 – Obra citada, p. 16.

16 – A peça foi escrita em 1643: portanto, no quadro histórico do absolutismo monárquico, que só seria derrubado em 1789, pela Revolução Francesa.

17 – Molière, A Escola de Mulheres, Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1996, p. 11-12. Tradução de Millôr Fernandes.