Roma, um filme sobre alguém incrível e invisível

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Jéssica Milaré

Jéssica Milaré, travesti, bissexual, doutoranda em Matemática pela Unicamp, militante LGBT, transfeminista e do PSOL, membro da Associação da Parada do Orgulho LGBT de Campinas.

Simples, cotidiano e trivial, essa é a primeira impressão causada pelo filme. Entretanto, quem tiver só um pouco de paciência e se entregar, perceberá que a história é muito mais profunda do que parece. Impossível não se apaixonar pela protagonista Cleo, uma empregada doméstica indígena de uma família branca de renda média-alta na Cidade do México. Humilde, tímida, faz todas as tarefas que lhe são delegadas com muito carinho, desde quando acorda até a hora de dormir, sem ser reconhecida.

No longa-metragem, não há ninguém que faça as coisas com tanto zelo quanto ela. A tarefa ingrata e desvalorizada, sem a recompensa nem o salário merecidos. Cleo não é reconhecida, aliás, não é nem sequer conhecida, é uma figura invisível e silenciosa que só é lembrada quando se pede um favor ou então quando está ausente. Faz tudo e não pede nada em troca, pois o faz por amor pelas crianças e pela patroa.

O carinho que Cleo tem pela família, mesmo sem ser considerada ou tratada como parte dela, se contrasta com a distância e a apatia do pai, um médico. Ele entra na casa como quem não quer, se sente sufocado e reclama de tudo – principalmente do trabalho da Cleo. O seu espírito permanece do lado de fora enquanto o corpo entra.

Uma breve cena que explica todo o filme

Cleo sai à procura de Fermín e o encontra numa aula de artes marciais ao ar livre. Enquanto ela fica ao lado de outras mulheres que estão assistindo à aula, aparece um famoso mestre que pede para um dos estudantes vendar-lhe os olhos. Todos prestam muita atenção enquanto ele calmamente assume uma posição estranha, sobre uma perna só e os braços para cima. Uma pausa silenciosa e os estudantes começam a cochichar e rir.

“Não gostaram?”, perguntou o mestre. “Pensam que é fácil? Então façam vocês, mas com os olhos fechados.” Na cena seguinte, com a câmera afastada, uma centena de estudantes tenta, sem sucesso, equilibrar-se na mesma posição. A câmera vira para o lado, às mulheres que estão à margem e quase todas tentam, sem sucesso, imitar o mestre. Com exceção, é óbvio, de Cleo, que permanece naquela posição, tranquila, de olhos fechados.

O trabalho de Cleo parece fácil, mas não é. As trabalhadoras domésticas assalariadas merecem reconhecimento, respeito, direitos trabalhistas e um salário digno. As trabalhadoras domésticas não-assalariadas merecem que todos façam sua parte do serviço doméstico.