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Em São Paulo, o Samu pede socorro

Sindsep São Paulo

Silvia Ferraro

Feminista e educadora. Professora de História da Rede Municipal de São Paulo e integrante do Diretório Nacional do PSOL. Ex-candidata ao Senado por São Paulo. Formada pela Unicamp.

“Sou enfermeira há 4 anos do Samu. Trabalho no extremo sul de São Paulo, minha antiga base ficava na região do Grajaú. Gostaria de deixar bem claro para a população que jamais seríamos contra mudanças. Aliás, precisamos urgentemente de mudanças. E já faz algum tempo! Estamos sem funcionários há muito tempo. Mas precisamos de mudanças boas, de melhorias, não desse processo de sucateamento do Samu. E o secretário de Saúde é uma decepção, pois não escuta seus próprios servidores: profissionais competentes e especializados, que são apaixonados pelo que fazem. Afinal, arriscamos nossas vidas para salvar as de outros”.

O trecho acima é o início do relato enviado ao nosso portal por uma servidora pública municipal da capital paulista. Ela preferiu não se identificar para evitar represálias da Secretaria Municipal de Saúde. A jovem enfermeira nos explicou a grave situação que vive hoje o Samu: “Nós, trabalhadores do SAMU, estamos revoltados por conta das mudanças anunciadas pela Prefeitura de São Paulo em relação ao fechamento de 31 bases modulares e à relocação dos funcionários dessas bases para os chamados “pontos de assistência”, que são salas precárias localizadas em outros equipamentos, como Unidades Básicas de Saúde (UBS), unidades de Assistência Médica Ambulatorial (AMA), Unidades de Pronto-Atendimento (UPA) e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS)”.

O depoimento da nossa colega servidora retrata o processo de reestruturação pelo qual está passando o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) na cidade de São Paulo. O prefeito Bruno Covas, do PSDB, defende que as mudanças visam integrar o Samu aos demais equipamentos de Saúde. Entretanto, as medidas, na verdade, buscam diminuir os gastos públicos com o serviço e já estão afetando negativamente as condições de trabalho dos servidores e o atendimento à população, por três motivos principalmente.

Em primeiro lugar, os chamados “pontos de assistência” não têm estrutura para o tipo de trabalho realizado pelo Samu, pois faltam condições para a higienização de materiais, ambulâncias, equipamentos e dos próprios trabalhadores. Sem essa estrutura, que existia nas bases que foram fechadas, o risco de contaminações nos atendimentos irá aumentar.

Em segundo, a mudança diminui o número de trabalhadores do serviço: enquanto as bases antigas possuíam de duas a três equipes por plantão, os pontos de atendimento novos só possuem uma. Com isso, reduzirá o número de equipes disponíveis, aumentando o tempo de resposta para atendimentos.

Por fim, em terceiro lugar, os novos pontos de assistência não possuem estudos epidemiológicos e estatísticas de atendimento que justifiquem suas respectivas localizações, uma vez que foram dispostos, em sua grande maioria, em unidades de atenção básica e de atendimento psicossocial. As antigas bases fechadas, pelo contrário, localizavam-se em locais estratégicos que facilitavam a chegada rápida de ambulâncias aos locais com alto índices de ocorrências.  Com tais mudanças, as ambulâncias demorarão mais ainda para chegar às ocorrências.

Por tudo isso, os funcionários do Samu de São Paulo estão em luta e já chegaram a realizar paralisações, pois os canais de negociação formais com o governo municipal tinham-se esgotado.

As reivindicações do movimento, aprovadas em assembleia da categoria, são: 1) suspensão da portaria 190/2019-SMS.G; 2) retorno das equipes às respectivas bases modulares; 3) retorno das equipes aos respectivos plantões de trabalho; 4) retorno dos plantões de 24h; 5) cancelamento do espelhamento de ambulâncias; 6) não à redução de vagas no Samu, levada a cabo pela portaria 190/2019-SMS.G; 7) retorno das viaturas de Suporte Intermediário de Vida (SIV), com auxiliar, enfermeiro e condutor, bem como com os equipamentos e materiais adequados; 8) viaturas de Suporte Básico de Vida (SBV), com um condutor e dois auxiliares de enfermagem; 9) abertura de concurso público para todos os cargos que compõem o Samu; 10) retorno dos Núcleos de Educação em Urgências.

Como podemos ver, mais uma vez, o governo tucano ataca as áreas sociais e os servidores públicos municipais, que já vão sofrer com o confisco de parte de seus salários pelo Sampaprev. Portanto, essa luta não pode ser responsabilidade apenas dos trabalhadores e trabalhadoras do Samu. A defesa desse serviço é do interesse de todo o povo de São Paulo e, por isso, é tarefa do conjunto dos movimentos sociais da cidade divulgar o que está acontecendo e apoiar ativamente essa mobilização até obrigarmos o prefeito a recuar. Esta coluna é um pequeno passo nesse sentido. O Samu pede socorro!

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