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As duas horas da minha vida que perdi vendo o vídeo do Brasil Paralelo

Direita Volver

Coluna mensal que acompanha os passos da Nova Direita e a disputa de narrativas na Internet. Por Ademar Lourenço.

Causou muito rebuliço nas redes sociais o documentário favorável à ditadura militar produzido pelo “Brasil Paralelo”, chamado 1964: O Brasil entre armas e livros. O grupo é dedicado a reescrever a história do Brasil. Assisti a sessão gratuita no Youtube promovida pelos autores do filme. Ele é apenas a repetição em forma de obra audiovisual das besteiras que os apoiadores da ditadura vivem vomitando na internet, com direito a muitas teorias da conspiração.

A edição, a trilha sonora e a montagem do filme seguem a estética “Alienígenas do Passado”. Apelo emocional, músicas de suspense, uso de imagens assustadoras. A história segue a narrativa de que comunistas malvados queriam tomar conta do Brasil a mando do governo da União Soviética. Por isto os militares, o lado bonzinho da história, salvaram a nação em 1964.

Bom, nunca mais terei meus 120 minutos de volta. Pelo menos posso fazer com que outras pessoas usem melhor o seu tempo. Eu poderia escrever umas 20 páginas sobre as besteiras do documentário. Mas vamos ao que é mais importante:

Os militares estavam do lado dos mais ricos

O que movia os conflitos no Brasil na época era a nossa desigualdade social. As disputa internacional entre Estados Unidos e União Soviética era apenas um elemento. Na década de 60, a pobreza extrema era comum no meio rural, e milhões de pessoas deixavam suas terras. Organizações de trabalhadores cobravam melhores salários e lutavam contra a inflação.

A nossa elite é descendente direta dos senhores de escravos. Nunca aceitou nenhum governo que promovesse alguma melhoria social para os mais pobres. Por isso em toda a nossa história promoveu diversos golpes. O de 1964 foi apenas um deles.

Um exemplo foi a tentativa de golpe para impedir a posse de Juscelino Kubitschek, em 1955. Juscelino não era nada comunista e sequer tinha relações diretas com o governo soviético. Mas, por conveniência política, aceitava dar migalhas aos trabalhadores. E nem isso nossa elite aceita. Outro exemplo foram as conspirações que culminaram no suicídio do presidente Getúlio Vargas um ano antes, em 1954. O próprio Vargas denunciou em sua última carta os interesses de parte da elite em evitar qualquer projeto de Brasil independente.

Os militares, antes de tudo, lutaram para defender os privilégios dos grandes fazendeiros, empresários e banqueiros. Implantaram um regime que reduziu o poder de compra do salário mínimo, aumentou a desigualdade social, massacrou indígenas, retirou a estabilidade no emprego do trabalhador da iniciativa privada, triplicou a dívida pública, e promoveu a expulsão de milhares de pequenos agricultores do campo, que acabaram indo para as periferias das grandes cidades. Os mais perseguidos não foram os militantes de esquerda. Foram os trabalhadores em geral.

A maioria dos trabalhadores não apoiou a ditadura

O pessoal do “Brasil Paralelo” diz que o golpe foi legitimado pela população. A fonte que eles apresentam é a imprensa da época, que por interesses econômicos e políticos apoiou os militares. A própria Rede Globo assumiu que foi tendenciosa no período.

O presidente derrubado pelo golpe, João Goulart, tinha legitimidade. Ganhou um plebiscito para assumir o cargo com plenos poderes com 80% dos votos um ano antes. E também era favorito para ganhar as eleições que aconteceriam em 1965. Se o golpe teve apoio popular como diz o documentário, porque os militares cancelaram as eleições do ano seguinte?

Só faltaram falar da Ursal

Entre as mentiras deslavadas do documentário, está a de que o plano de transformar o Brasil comunista em 1964 era algo previsto no Komirntern, a direção política da Internacional Comunista. O então presidente João Goulart era parte deste plano. Mas o Komirtern foi extinto em 1943 pelo próprio governo soviético. Outra falsidade é eles dizerem que Gramsci, morto na década de 1930, apoiava o movimento hippie da década de 1960.

O documentário parte da teoria de que o período histórico de 1964 tinha como único motor a guerra entre Estados Unidos e União Soviética. A chamada guerra fria foi bem mais complexa. A Iugoslávia de Tito era de uma economia de tipo socialista, mas totalmente independente da União Soviética. Fidel Castro só aderiu ao modelo soviético depois das agressões dos Estados Unidos contra Cuba. Richard Nixon, presidente dos Estados Unidos, tinha relações cordiais com Mao-Tse-Tung, líder da China. E havia o movimentos dos não alinhados. No meio desse quadro, João Goulart queria uma política externa independente.

O vídeo chega a apresentar como “prova” da conspiração comunista contra o Brasil documentos do serviço secreto da Checoslováquia. O Brasil de fato era monitorado por diversas inteligências estrangeiras. Mas achar que um país do tamanho do estado do Amapá tinha planos para subjugar o Brasil já é ridículo. Aliás, não há nenhuma prova disso.

Apesar das mais loucas teorias da conspiração, eles afirmam que o governo dos Estados Unidos não teve nada a ver com o golpe de 1964. Isso é ridículo. Inclusive, em 1964, os Estados Unidos disponibilizaram um porta-aviões e armamento pesado aos golpistas.

Revisão histórica é ofensa a quem lutou contra ditadura

Na Alemanha, é proibido fazer propaganda do Nazismo. A destruição causada pela doutrina de Hitler foi tão grande nesse país que não se aceita discutir se aquilo foi correto ou não. É como discutir se a escravidão ou o estupro são justificáveis.

Infelizmente, a defesa da assassina e desastrosa ditadura militar ainda é permitida no Brasil. O que grupo “Brasil Paralelo” faz não é apenas ridículo e mentiroso. É uma ofensa às pessoas mortas, torturadas, violentadas e perseguidas naquele período e um atentado contra a democracia e o estado democrático de direito. Não é liberdade de expressão. É crime.

 

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