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BRASIL

MEC paralisado, Enem ameaçado

Gibran Jordão*, do Rio de Janeiro, RJ
Cleia Viana/Câmara dos Deputados

O ministro Ricardo Vélez, em audiência na Câmara dos Deputados, no dia 27.

Na semana passada o ministro da Educação esteve no Congresso Nacional em audiência pública, na presença de parlamentares, educadores, sindicalistas, profissionais do ensino, entidades estudantis e etc… Politicamente falando, o ministro foi linchado, numa audiência que deu ampla repercussão e catapultou parlamentares e ativistas do movimento que fizeram intervenções históricas. Foram críticas contundentes contra a situação vexatória que se encontra o Ministério da Educação.

Não podia ser diferente, a situação do MEC é desesperadora. É o ministério que recebe um dos maiores orçamentos, que tem vários programas, órgãos e atribuições com imensa responsabilidade de elaborar, coordenar e aplicar políticas públicas para educação, em especial para a juventude brasileira. Mas, em três meses de governo, as únicas notícias que saem de dentro desse Ministério são disputas por cargos, dezenas de demissões, exonerações e gafes públicas… Não há um programa novo, iniciativa, projeto, anuncio de investimentos… Não há diálogo com os profissionais da educação e seus sindicatos. Não existe interlocução com as entidades estudantis e muito menos com os movimentos sociais. O ministro Ricardo Vélez chegou a dizer em viagens ao exterior que o brasileiro quando viaja é igual um canibal, fazendo críticas generalizadas ao comportamento dos brasileiros enquanto turistas. Sem falar da carta mal escrita enviada para as escolas ordenando que filmem as crianças cantando o hino nacional que gerou tantas críticas que o ministro teve que recuar. Aliás, foram vários recuos nesses três meses de governo…

Já está público que diferentes alas políticas da extrema direita estão lutando ferozmente por espaço dentro do MEC. Há uma ala militar, funcionários olavistas, outros evangélicos fundamentalistas e os funcionários de carreira do corpo técnico do ministério que já acumularam experiências que se chocam com os assessores e técnicos do governo. Uma babel em curso onde ninguém se entende, e até para substituir o ministro é um pesadelo, já que não se tem um consenso construído sobre quem indicar no lugar. Enquanto o hospício está em chamas, o Ministério da Educação e Cultura sob o comando de um senhor absolutamente despreparado, se transformou em um aparato com um rico orçamento que até agora só serviu como palco de disputas mesquinhas por cargo e prestígio, desrespeitando todos os brasileiros que pagam impostos e envergonhando o país.

Essa disputa interna no ministério tem levado a paralisar suas ações, já podemos dizer que o ENEM corre riscos, mesmo sendo realizado em novembro, em seu cronograma de preparação, as provas precisam estar prontas em maio para ir para a gráfica. E até agora tudo paralisado. Os estudantes do FIES não conseguiram fazer suas matrículas, estão perdendo aula e conteúdo, pelo fato de o MEC estar paralisado e não ter enviado até hoje os nomes dos alunos beneficiados para as instituições autorizarem o financiamento.

A extrema direita critica os professores, quer acabar com o ensino democrático, vem fazendo patrulhamento ideológico das escolas, desdenha da produção de conhecimento feita nas universidades e tem eleito gurus na internet para dizer que não existe ensino público de qualidade no país, mas sim, doutrinação ideológica. Essa extrema direita conservadora e hipócrita está dando um mega show de incompetência no organismo político mais importante para a educação do país que é o Ministério da Educação.

Quando terminávamos de escrever esse texto, vem a noticia sobre o decreto do governo que cortou verbas do orçamento federal no total de aproximadamente 30 bilhões de reais, atingindo vários ministérios. Mas advinha qual o ministério mais atingido, com um corte superior a R$ 5 bilhões? Claro, você acertou, o maior corte foi no ministério da Educação. Como se não bastasse a crise instalada, agora a educação terá menos recursos.

Toda essa situação vergonhosa para educação brasileira, além da própria mediocridade de Bolsonaro, tem outro responsável e ele tem nome, chama-se: Olavo de Carvalho. O guru que vem incentivando nas redes sociais a desmoralização da educação pública brasileira e que indicou o atual ministro da educação e vários funcionários no alto escalão do MEC. A academia, os trabalhadores da educação, intelectuais, movimentos sociais, sindicatos, ONGs e todos aqueles que estão preocupados com os rumos da educação de nosso país precisam nesse momento de muita mobilização.

O flanco está aberto, abram fogo!

 

SAIBA MAIS

Vídeo Canal Bella Connection


*Gibran Jordão é historiador e ativista do movimento dos trabalhadores da educação pública